Larissa Ramos: Um pouco sobre tragédias e a capacidade de apreciar a boa comida

Postado em 25/08/2016 3:00
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Nossas cidades são cheias de pequenas tragédias, mas quando há um grande problema coletivo os olhares do mundo se voltam para aquelas regiões nas quais os dramas do cotidiano adquirem uma proporção ainda maior.

Foi o que aconteceu esta semana com a Itália. Um terremoto muito forte destruiu cidades na região norte do país, causando muita destruição e morte. Entre os locais devastados, um se preparava para sediar um festival gastronômico importante na região.

Neste tipo de situação não há como deixar de se solidarizar. Podemos pensar que é um local distante, mas tem dois aspectos muito similares ao Brasil e, principalmente, à Bahia: a alegria do povo e a riqueza da cultura alimentar local. Ela é muito presente na vida da população e bastante emblemática aos visitantes do país que ensinou o mundo a se render aos sabores de um bom prato de massa.

Após ter vivido um terremoto de perto e também por ter alguma familiaridade com a cultura italiana durante o tempo em que morei na Europa, consigo imaginar um pouco do que estas famílias devem estar vivendo. Mesmo estando em uma região rica, vão passar por privações e dificuldades que ultrapassam as questões da ordem financeira.

Tragédias têm o poder de redefinir a importância de hábitos rotineiros como a reunião da família à mesa. Comidas cotidianas acabam adquirindo um gosto nostálgico que chegam ao repertório gustativo com novas conotações, deixando até pratos elaborados por grandes chefes de cozinha muito aquém se comparados ao temperinho especial da mama.

Em momentos como este só nos resta sair um pouco do modo automático diário para parar e mentalmente agradecer o fato de vivermos em um local sem propensão aos desastres naturais. Também deveríamos homenagear o povo italiano aproveitando o exemplo deles de amor à mesa para dar mais valor a este momento tão importante que é o ato de se alimentar e também à nossa incrível capacidade de ter prazer gustativo. Para mim, automatizar esta prática é tão grave quanto não sentir compaixão pelo outro. É uma falta de amor consigo mesmo!

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