Marielle: após 4 meses, Anistia vê falta de respostas como “ineficácia”

Postado em 12/07/2018 7:19

A falta de respostas ao assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes preocupam órgãos de direitos humanos e familiares às vésperas de completar o quarto mês do crime. Mesmo com uma testemunha apontando supostos envolvidos no crime, como o ex-policial militar Orlando de Oliveira Araújo, conhecido como Orlando da Curicica e o vereador Marcello Siciliano (PHS), a Polícia Civil, que investiga o caso, ainda não apontou os verdadeiros culpados.

De acordo com a diretora executiva da Anistia Internacional, Jurema Werneck, existe uma “falta de vontade” das instituições em resolver o caso.

— Após quatro meses, a não resolução do assassinato de Marielle Franco demonstra ineficácia, incompetência e falta de vontade das instituições do Sistema de Justiça Criminal brasileiro em resolver o caso. É urgente o estabelecimento de um mecanismo externo e independente para monitorar essa investigação.

Marielle e Anderson foram assassinados em 14 de março, após a vereadora deixar um evento na Lapa, região central do Rio. Segundo as investigações, o carro dela foi seguido até o Estácio, na rua João Paulo I, onde ela foi executada junto com seu motorista.

Após o crime, algumas informações foram divulgadas pelos investigadores, mas segundo a ONG, todas elas continuam sem esclarecimento. Entre essas informações estavam o lote das munições usadas no crime, que teriam sido vendidas à Polícia Federal; que a arma utilizada seria uma submetralhadora de uso restrito — informação divulgada pela Record TV; e também que armas do mesmo modelo teriam desaparecido do arsenal da Polícia Civil do Rio.

As investigações são feitas sob sigilo, e as poucas informações que vazam não são confirmadas oficialmente pela DH (Divisão de Homicídios do Rio). De acordo com a ONG, o interventor federal na segurança pública do Rio de Janeiro, general Walter Braga Netto, em reunião com o presidente Michel Temer e o ministro Raul Jungmann, em maio, teria acertado um pacto de silêncio sobre o caso. O objetivo seria preservar o trabalho da Polícia Civil, responsável pela investigação. No entanto, a Anistia considera esse silêncio um “descompromisso das autoridades com a solução do caso”.

— O sigilo e a confidencialidade, que tem como objetivo garantir a eficácia da investigação, não pode ser confundido com o silêncio das autoridades diante da obrigação de esclarecer corretamente a execução de Marielle. É fundamental não apenas identificar e responsabilizar os autores dos disparos, mas também os autores intelectuais dos homicídios, bem como a motivação do crime — afirmou Jurema.

Procurada pelo R7, a Seseg (Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro) informou que não vai divulgar informações sobre o andamento da investigação, que segue sob sigilo.

Defensora dos direitos humanos

Marielle Franco atuava como ativista e defensora dos direitos humanos desde o início de sua carreira política. Nascida no Complexo da Maré, a vereadora — quinta mais votada nas eleições municipais de 2016 — já havia atuado na Comissão de Direitos Humanos da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), onde ajudou famílias de vítimas da violência, incluindo de policiais mortos.

Após o anúncio da intervenção federal na Segurança Pública Rio, Marielle foi nomeada relatora da comissão responsável por monitorar a atuação das Forças Federais no Estado.

Para Jurema Werneck, descobrir quem matou Marielle e Anderson significa manter viva a luta da vereadora.

— A não solução do caso demonstra de forma inconteste a falta de compromisso do Estado brasileiro com seus defensores e defensoras de direitos humanos. Em vida, Marielle sempre se mobilizou por justiça e contra a violência do Estado. Pressionar pela resolução deste crime é manter viva sua luta por direitos, seu legado e sua memória.

R7

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