Categoria: Especial

  • Fim da escala 6×1: mais tempo para descanso e família é prioridade

    Fim da escala 6×1: mais tempo para descanso e família é prioridade

    Trabalhadores contam como usarão dia a mais de folga

    Mais tempo com a família, para cumprir as obrigações em casa, passear e até mesmo ter a possiblidade de fazer pequenas viagens. Esses são alguns dos sonhos de trabalhadores que cumprem jornadas semanais de seis dias de trabalho e apenas um dia de folga, caso passem a ter direito a mais um dia de descanso.

    O fim da escala 6×1 é a principal bandeira a ser ostentada pelas manifestações de trabalhadores neste feriado de 1º de Maio. Diversas matérias sobre o tema tramitam no Congresso Nacional neste momento.

    Rio de Janeiro (RJ), 30/04/2026 – A balconista de farmácia Darlen Silva, de 38 anos, fala sobre a possibilidade de fim da escala 6x1. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
    Darlen Silva: “Todo mundo está esperando essa regra aí” – Fernando Frazão/Agência Brasil

    A balconista de medicamentos Darlen da Silva, 38 anos, trabalha em uma farmácia no Rio de Janeiro e tem apenas um dia de folga na semana.

    “Tenho duas filhas, então para mim é muito corrida a minha folga. Tenho que fazer tudo dentro de casa, lavar roupa, fazer mercado. Não tenho descanso. Venho trabalhar mais cansada ainda no outro dia.”

    Ela tem carteira assinada há 15 anos e, durante todo esse tempo, trabalha nesse regime. “Uma folga só é puxado para qualquer trabalhador. Ainda mais para gente que é mãe, mulher. Fica mais complicado ainda, entendeu? Tem muito mais coisa a fazer.”

    Darlen diz que entre os colegas de trabalho o assunto da possível redução da jornada é constante: “Todo mundo tá esperando sair essa regra nova aí”.

    Caso seja aprovada, ela já planeja como será: “Eu ia tirar um dia para mim, para poder resolver tudo, né? O que tem que fazer de casa. E o outro eu ia tentar descansar, fazer alguma coisa, um passeio, porque a gente não tem tempo. Você tem que optar, ou você larga tudo de lado e vai tentar viver a vida ou você cuida.”

    Ela espera, no entanto, que a lei, caso aprovada, seja de fato cumprida, e seja respeitado o limite de 40 horas semanais de trabalho. Ela conta que tem amigos cujos locais de trabalho já aderiram aos dois dias de descanso por semana, mas que, em troca, aumentaram a jornada diária dos trabalhadores.

    “Meus colegas estão trabalhando 11 horas por dia para poder entrar nesse esquema de cinco por dois. Entendeu? Então, acaba que não compensa. Para mim, não compensa. Se você trabalhar 11 horas cinco dias na semana, você vai ficar mais cansado ainda”.

    Tempo com a família

    Rio de Janeiro (RJ), 30/04/2026 – O garçom Alisson dos Santos, que trabalha há dez anos no setor de restaurantes, fala sobre a possibilidade de fim da escala 6x1. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
    O garçom Alisson dos Santos fala que poderá até fazer pequenas viagens – Fernando Frazão/Agência Brasil

    Também no Rio de Janeiro, o garçom Alisson dos Santos, 33 anos, trabalha na escala 6×1 por um há dez anos. Ele conta que geralmente usa as folgas para resolver pendências dele ou dos filhos.

    “A gente sempre tem que resolver alguma coisa da criança na escola, tem médico, sempre tem alguma coisinha para você fazer. Então, acaba não rendendo o seu dia de descanso. Sempre tem que fazer as coisas de casa.”

    Segundo ele, esse dia a mais de folga poderia até mesmo ser usado para uma viagem.

    “Num dia você  organiza as coisas de casa e, no outro dia, consegue passear com a família. Ou, se você vai direto do trabalho, consegue organizar até uma viagem. Com um dia só não, você não consegue fazer nada.”

    Em São Luís, no Maranhão, a cabeleireira Izabelle Nunes, 26 anos, diz que não tem acompanhado o debate que está sendo feito entre no Congresso e que o assunto também é pouco discutido no seu ambiente de trabalho. Mesmo assim, disse ser favorável à iniciativa.

    “Acho que todos nós trabalhadores temos o direito de ter no mínimo dois dias de folga. Cuidar dos nossos estudos, saúde, lazer, cultura e trabalhando nessa escala a gente só se acaba.”

    Trabalhando seis dias por semana, Izabelle disse ainda que o dia a mais de folga ajudaria muito na dinâmica doméstica e familiar. “Faria tudo que desse. Ficaria mais com minha família.”

    A professora Karine Fernandes, 36 anos, diz que vem acompanhando o debate por meio das redes sociais. Apesar de não trabalhar na escala 6×1, ela disse ser favorável à redução da jornada.

    “Acredito ser uma discussão importante, que afeta significativamente a qualidade de vida de muitos trabalhadores.”

    Karine disse ainda que a pauta é relevante e que afeta diretamente a qualidade de vida das famílias.

    “Como mãe, penso em como isso influencia a vivência de crianças que podem ter mais tempo de qualidade com suas mães e pais e como isso tem resultado direto no fortalecimento dos adultos que irão se tornar.”

    Fim da jornada 6×1

    O fim da jornada 6×1 tem sido uma das principais apostas do governo na agenda trabalhista e já está em tramitação no Congresso Nacional, com expectativa de avanço nas próximas semanas.

    Estão em tramitação no Congresso Nacional algumas propostas para acabar com essa escala. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/19, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 36 horas semanais. A transição se daria ao longo de dez anos.

    A outra proposta apensada (PEC 8/25), da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), prevê uma escala de quatro dias de trabalho por semana, com limite de 36 horas no período.

    O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva também enviou ao Congresso um projeto de lei (PL) com urgência constitucional para acabar com a escala 6×1 e reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais. O PL com urgência precisa ser votado em até 45 dias ou tranca a pauta do plenário da Câmara.

     

    Rafael Cardoso e Luciano Nascimento – Repórteres da Agência Brasil

  • Terras raras, minerais estratégicos e críticos: entenda as diferenças

    Terras raras, minerais estratégicos e críticos: entenda as diferenças

    Recursos ganham peso geopolítico e colocam o Brasil no radar global

    Conhecidos pelo potencial para impulsionar a transição energética, terras raras, minerais estratégicos e minerais críticos vêm ganhando cada vez mais protagonismo global. Embora frequentemente tratados como sinônimos, os três conceitos cumprem papéis diferentes na geopolítica e na economia global.

    Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), órgão do governo federal responsável por avaliar o potencial mineral do país, Elementos Terras Raras (ETR) são um grupo específico de 17 elementos químicos da tabela periódica: 15 lantanídeos (como lantânio, cério, neodímio e disprósio), escândio e ítrio.

    Apesar do nome, não são necessariamente raros na natureza, mas costumam estar dispersos, o que dificulta a exploração econômica. São essenciais para tecnologias de ponta, como turbinas eólicas, carros elétricos, baterias, eletrônicos e sistemas de defesa.

    Minerais estratégicos são aqueles considerados essenciais para o desenvolvimento econômico dos países e que tenham importância pela sua aplicação em produtos e processos de alta tecnologia, defesa e transição energética.

    Minerais críticos são aqueles cujo suprimento pode envolver diferentes riscos de abastecimento: concentração geográfica da produção, dependência externa, instabilidade geopolítica, limitações tecnológicas, interrupção no fornecimento e dificuldade de substituição.

    Por isso, a definição de quais minerais são estratégicos ou críticos depende de cada país. A lista também pode mudar conforme o tempo, de acordo com avanços tecnológicos, descobertas geológicas, mudanças geopolíticas e evolução da demanda. Porém, alguns exemplos mais comuns atualmente são: lítio, cobalto, grafita, níquel e nióbio.

    Terras raras podem ser consideradas minerais críticos ou estratégicos, dependendo do contexto. Ou seja, toda terra rara pode ser estratégica, mas nem todo mineral estratégico é terra rara.

    Situação no Brasil
    Segundo o SGB, o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas. Isso representa cerca de 23% das reservas globais, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

    A maior parte das terras raras no Brasil está concentrada em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe. Esses estados têm os principais tipos de depósitos com potencial econômico.

    Entre os minerais que costumam ser considerados críticos ou estratégicos na maior parte dos países, o Brasil se destaca por ter as maiores reservas de nióbio do mundo (94%), com 16 milhões de toneladas. Também é o segundo no ranking global de reservas de grafita (26%), com 74 milhões de toneladas, e o terceiro quando se trata de reservas de níquel (12%), com 16 milhões de toneladas.

    O país tem uma lista de minerais considerados estratégicos para o desenvolvimento interno. Ela foi publicada na Resolução nº 2, de 18 de junho de 2021, do Ministério de Minas e Energia. Esses minerais são divididos em três grupos:

    Precisam ser importados: enxofre, minério de fosfato, minério de potássio e minério de molibdênio.

    Usados em produtos e processos de alta tecnologia: minério de cobalto, minério de cobre, minério de estanho, minério de grafita, minérios do grupo da platina, minério de lítio, minério de nióbio, minério de níquel, minério de silício, minério de tálio, minério de terras raras, minério de titânio, minério de tungstênio, minério de urânio e minério de vanádio.

    Minerais com vantagem comparativa e geração de superávit na balança comercial: minério de alumínio, minério de cobre, minério de ferro, minério de grafita, minério de ouro, minério de manganês, minério de nióbio e minério de urânio.

    Disputa global
    Esses recursos se tornaram centrais na disputa geopolítica global. Hoje, a China lidera amplamente o refino e a produção de terras raras, o que gera preocupação em outras potências, como Estados Unidos e União Europeia, que buscam diversificar fornecedores.

    Nesse cenário, o Brasil aparece como um ator relevante. Especialistas apontam que o desafio brasileiro não está apenas na extração. A cadeia produtiva desses minerais envolve etapas complexas, como beneficiamento e refino, que ainda são pouco desenvolvidas no país.

    Sem isso, o Brasil tende a continuar importando produtos de maior valor agregado, analisa o professor de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Luiz Jardim Wanderley, que é especialista na interseção entre política, economia e mineração.

    “O Brasil mantém o mesmo padrão de dependência que teve ao longo de sua história. Foi assim com o ouro colonial, passando pelo ferro e até o petróleo. Servindo para o mundo como um país primário-exportador. A gente exporta muitos minerais e os consome muito pouco no mercado nacional”, diz Jardim.

    Além da dimensão econômica, há também questões ambientais e sociais. A exploração desses recursos gera impactos significativos nos lugares onde ocorre.

    “Não existe mineração sustentável. Toda mineração causa impactos ambientais pesados, como o comprometimento de recursos hídricos. Também causa pressão econômica nos municípios em que ocorre: aumento da pobreza, desigualdade e violência urbana. O que temos hoje é um modelo completamente insustentável de mineração”, avalia o geógrafo.

    “É possível fazer um modelo um pouco menos degradante. Mas, ainda assim, continuariam sendo feitos grandes buracos para extrair esses minérios. Continuariam a desmontar montanhas e a afetar cursos de água. Precisamos pensar com muita calma se realmente vale a pena, já que perdemos muitos recursos naturais e os efeitos socioambientais são significativos”, complementa.

    Rafael Cardoso – Repórter da Agência Brasil

  • Unesco destaca contribuição de seus sítios para o meio ambiente global

    Unesco destaca contribuição de seus sítios para o meio ambiente global

    Areas protegidas somam mais de 13 milhões de km²

    Relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), divulgado nesta terça-feira (21), em Paris, destaca a grande contribuição de seus sítios protegidos para as pessoas e o meio ambiente.

    No Brasil, entre esses locais de proteção estão algumas áreas como: o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, incluído na lista do Patrimônio Mundial da Unesco, durante a 46ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial em Nova Delhi, na Índia, em julho de 2024; e o Parque Nacional de Iguaçu, inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, em 1986.

    “A área é rica biodiversidade inclui mais de 2000 espécies de plantas, 400 espécies de aves e possivelmente até 80 mamíferos, bem como inúmeras espécies de invertebrados”, diz a Organização.

    De acordo com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Parque Nacional dos Lençóis abriga quatro espécies ameaçadas de extinção, o guará (Eudocimus ruber), a lontra-neotropical (Lontra longicaudis), o gato-do-mato (Leopardus tigrinus) e o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus). Estima-se que a região tenha cerca de 133 espécies de plantas, 112 espécies de aves e pelo menos 42 espécies de répteis.

    Áreas dão estabilidade
    Embora as populações de animais selvagens tenham diminuído 73% em todo o mundo desde 1970, as que vivem nas áreas protegidas pela Unesco permaneceram comparativamente estáveis, informa o documento. Um quarto desses sítios, onde foram registradas mais de mil línguas, pertence a territórios de povos indígenas.

    O relatório People and Nature in Unesco Sites: Global and Local Contributions (Comunidades e natureza nos Sítios da Unesco: contribuições locais e globais) examina, pela primeira vez, como uma rede única, todas as categorias da Unesco que envolvem Sítios do Patrimônio Mundial, Reservas da Biosfera e Geoparques Mundiais. São mais de 2.260 sítios que somam área superior a 13 milhões de quilômetros quadrados (km²), superior que a da China e da Índia juntas.

    Impactos positivos
    Na avaliação do diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, os sítios protegidos pela instituição produzem impactos positivos para as pessoas e para a natureza.

    “Nesses territórios, as comunidades prosperam, o patrimônio da humanidade perdura e a biodiversidade é preservada, enquanto se degrada em outros locais. O relatório mensura o valor global e as contribuições desses sítios e revela o que podemos perder se eles não forem priorizados”.

    Segundo El-Enany, o documento é um chamado urgente para ampliar o grau de ambição e reconhecer os sítios da Unesco como ativos estratégicos para enfrentar a mudança do clima e a perda de biodiversidade, “além de investir imediatamente na proteção de ecossistemas, culturas e modos de vida para as gerações futuras”, declarou.

    Cataratas do Iguaçu, no Parque Nacional do Iguaçu. Conjunto de 275 quedas d’água localizadas na fronteira entre o Brasil e a Argentina. inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, em 1986. Foto-arquivo: Tânia Rêgo/Agência Brasil – Tânia Rêgo/Agência Brasil

    Pressão crescente
    O relatório mostra que os sítios da Unesco abrigam mais de 60% das espécies mapeadas em todo o globo, das quais cerca de 40% não são encontradas em nenhum outro lugar do planeta. Esses locais armazenam cerca de 240 gigatoneladas de carbono, ou o equivalente a quase duas décadas das emissões globais atuais, caso esse carbono fosse liberado, diz o documento.

    Cada gigatonelada de carbono corresponde a um bilhão de toneladas. Anualmente, apenas as florestas dos sítios da Unesco respondem por cerca de 15% do carbono absorvido por florestas em todo o mundo.

    A Unesco ressalta que apesar de sua importância em nível global, esses sítios enfrentam pressões crescentes. Quase 90% deles estão sujeitos a elevados níveis de estresse ambiental. Somente na última década, os riscos relacionados ao clima aumentaram 40%.

    O relatório deixa claro que mais de um em cada quatro sítios da Unesco poderá atingir pontos críticos de ruptura até 2050, com impactos irreversíveis. E, se não houver ações mais robustas, os riscos podem levar ao desaparecimento de geleiras, ao colapso de recifes de coral, ao deslocamento de espécies, ao aumento do estresse hídrico e à transformação das florestas de sumidouros em fontes de carbono, destaca o documento.

    Conexão
    O relatório salienta a profunda conexão existente entre natureza e comunidades em todos os sítios da Unesco, que abrigam, juntos, quase 900 milhões de pessoas, ou o equivalente a 10% da população mundial.

    “Mais de mil línguas estão documentadas nos sítios da Unesco, e ao menos 25% deles abrangem terras e territórios de povos indígenas”.

    Esse percentual aumenta para quase 50% na África, no Caribe e na América Latina. De acordo com o relatório, a análise da produção econômica com os sítios e suas áreas adjacentes mostra que cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) global são produzidos nessas áreas.

    O levantamento deixa claro também que os riscos futuros podem ser reduzidos de maneira significativa por meio de ações que sejam implementadas hoje: cada 1 grau Celsius (°C) de aquecimento evitado pode reduzir pela metade o número de sítios da Unesco expostos a grandes disrupções até o fim do século.

    Essas áreas também têm um potencial ainda pouco explorado nas políticas climáticas, sinaliza o documento. Apesar de 80% dos planos nacionais relativos à biodiversidade incluírem sítios da Unesco, apenas 5% dos planos nacionais sobre clima fazem a mesma coisa.

    A recomendação da Unesco é que as ações sejam intensificadas, com base em quatro pilares prioritários: restaurar os ecossistemas para reconstruir a resiliência; promover o desenvolvimento sustentável por meio do fortalecimento da cooperação transfronteiriça; integrar de forma mais ampla os sítios da Unesco aos planos climáticos globais; além de adotar uma governança mais inclusiva com os povos indígenas e as comunidades locais.

    Vantagens
    De acordo com a Unesco, os sítios sob sua proteção demonstram que pessoas e natureza podem prosperar juntas. Desde a “estabilização das populações de animais selvagens nesses territórios, em contraste com o declínio global, aos sucessos de ações de conservação como a recuperação de gorilas-das-montanhas em áreas afetadas por conflitos armados, esses locais mostram o que é possível quando a proteção é sustentada ao longo do tempo e é apoiada pelas comunidades locais”.

    Realizado em parceria com mais de 20 instituições de pesquisa de referência em todo o mundo, o relatório destaca a necessidade de aumentar essa ambição de prosperidade conjunta entre pessoas e meio ambiente, reconhecendo os sítios da Unesco não apenas como áreas de conservação, mas como ativos estratégicos para enfrentar os desafios ambientais e sociais em todo o mundo.

    “Investir na sua proteção hoje significa salvaguardar, para as gerações futuras, ecossistemas insubstituíveis, culturas vivas e os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas”, conclui o documento.

  • Vírus sincicial também traz risco para idosos, alertam especialistas

    Vírus sincicial também traz risco para idosos, alertam especialistas

    Casos do VSR devem aumentar no segundo trimestre

    O aumento dos casos de influenza A tem causado preocupação, mas esse não é o único agente infecioso que ameaça a saúde dos brasileiros. No primeiro trimestre deste ano, de acordo com dados do Ministério da Saúde, 18% dos casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) com identificação viral confirmada foram causados pelo vírus sincicial respiratório (VSR), uma infecção ainda pouco conhecida. 

    Neste segundo trimestre, a expectativa é de aumento. De fevereiro a março, o VSR correspondeu a 14% dos casos de síndrome com vírus confirmados, de acordo com o Boletim Infogripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

    De março a abril, essa proporção subiu para 19,9%. Em 2025, por 23 semanas consecutivas, de março a agosto, o VSR foi o vírus mais prevalente.

    Já dados de laboratórios privados sobre pacientes com quadros leves e graves, mostram que, na semana encerrada em 4 de abril deste ano, 38% dos testes positivos para algum vírus acusaram o VSR. Essa proporção é 12 pontos maior do que a verificada na primeira semana de março, de acordo com informações reunidas pelo Intituto Todos pela Saúde.

    Dados subestimados

    Para a pneumologista e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Rosemeri Maurici, esses números são apenas “a ponta do iceberg” e o risco do VSR é subestimado, especialmente em adultos e idosos.

    Ela explica que a testagem contra o VSR só começou a ser feita em maior escala, no Brasil, a partir da pandemia de covid-19, por isso, o impacto real da doença ainda não é totalmente conhecido.

    “Muitos hospitais internam pacientes com síndrome respiratória aguda agrave, e eles até morrem, sem saber qual o agente que causou, porque não testaram ou testaram fora do prazo que é identificável.”

    Dos cerca de 27,6 mil casos de SRAG registrados no primeiro trimestre deste ano, por exemplo, em apenas um terço, ou seja, em 9.079, o vírus causador foi identificado. E quase 17% não foram sequer testados. 

    Além disso, como o VSR é o principal causador da bronquiolite, uma inflamação nos pulmões que acomete principalmente os bebês, muitas pessoas acham que o vírus não atinge adultos.

    De fato, dos 1.651 casos graves de infecção por VSR registrados de janeiro a março, 1.342 foram em menores de dois anos. Entre pessoas com mais de 50 anos, apenas 46 casos foram confirmados.

    Mas a médica ressalva que, em pacientes adultos, a carga viral do VSR diminui após 72 horas da infecção, o que dificulta a detecção do vírus. Já as crianças demoram mais para eliminar o invasor, o que propicia janela maior de diagnóstico. Para ela, isso também influencia as estatísticas.

    Comorbidades

    Os dados de mortes, por outro lado, mostram uma relação bem menos desigual: foram 27 no total este ano, sendo 17 em bebês de até 2 anos, e sete entre idosos com 65 anos ou mais. De acordo com a geriatra Maisa Kairalla, o envelhecimento pesa nessa conta, assim com as comorbidades adquiridas ao longo da vida.

    “Só com o avanço da idade, a gente já tem a imunosenescência, que é o declínio do sistema imunológico, ou seja, mais chance de ter doenças infecciosas. Acontece que, no Brasil, também se envelhece com doenças crônicas.”

    Segundo a pneumologista, a essa população se soma muitos pacientes que por muito tempo fumaram e ingeriram bebida alcoólica.

    Idosos mais propensos

    Por esse conjunto de fatores, os idosos são mais propensos a desenvolver quadros mais graves de diversas doenças. Mas dados da literatura médica apresentados por Maísa, mostram que o VSR representa um risco especial.

    O paciente idoso com VSR tem 2,7 vezes mais chance de desenvolver pneumonia, e duas vezes mais chances de precisar de UTI e intubação e de vir a óbito, na comparação com a influenza. 

    As duas especialistas participaram na última terça-feira (7), do seminário “Impacto do VSR na população 50+”, organizado pela farmacêutica GSK para jornalistas, em São Paulo. O evento também debateu algumas condições de saúde que inspiram ainda mais cuidados entre esse público.

    Rio de Janeiro (RJ), 10/04/2026 - Especialistas participam do seminário
    Especialistas participam do seminário “O impacto do VSR na população 50+” – GSK/Divulgação

    O cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Múcio Tavares ressaltou que mais de 60% dos casos graves associados à infecção pelo vírus essencial respiratório ocorrem em pacientes com alguma doença cardiovascular.

    “As doenças virais respiratórias, costumam levar a eventos cardiovasculares e cérebro-vasculares, como infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e piora da insuficiência cardíaca. Isso tudo acontece porque a infecção viral causa uma inflamação sistêmica no organismo”, explicou.

    O endocrinologista Rodrigo Mendes também alertou para a maior vulnerabilidade dos pacientes com diabetes, pois a maior concentração de glicose no sangue torna o paciente mais suscetível a infecções e agravamentos.

    “Muitas vezes, o paciente está com a doença controlada e o tratamento estável há algum tempo. Aí ele contrai uma infecção, que gera uma resposta inflamatória exacerbada e ele não só precisa ser hospitalizado como também passa a precisar de um tratamento mais complexo”, acrescenta.

    Outro grupo de alto risco é o das pessoas com doenças respiratórias crônicas como asma grave e doença pulmonar obstrutiva (DPOC). De acordo com a professora da UFSC, Rosemeri Maurici, o impacto de uma internação em UTI aumenta em 70% a probabilidade desses pacientes morrerem em até três anos.

    “Além disso, ele começa a sofrer a perda da função pulmonar de forma acelerada. E esses pacientes, uma vez internando, a probabilidade de eles internarem novamente é muito grande.”

    Vacinação

    O VSR, e especialmente o agravamento da infecção, pode ser prevenido com vacinação, mas os imunizantes contra o vírus para a população adulta, por enquanto, estão disponíveis apenas na rede privada.

    Por enquanto, o Programa Nacional de Imunizações do Sistema Único de Saúde oferece apenas a vacina para gestantes, com o objetivo de proteger os bebês nos primeiros meses de vida. 

    A imunização é recomendada por entidades médicas, como a Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), para pessoas de 50 a 69 anos com comorbidades e para todos os idosos a partir dos 70 anos.

    A professora da UFSC Rosemeri Maurici, que também é coordenadora da Comissão de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia sugere que as sociedades médicas indiquem os grupos prioritários à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS-Conitec, responsável por recomendar a adoção de novas terapias ao Ministério da Saúde.

  • Antecipação do 13º do INSS: quem recebe e quando será pago?

    Antecipação do 13º do INSS: quem recebe e quando será pago?

    Especialista explica regras do pagamento, proporcionalidade e impacto econômico da antecipação

    O 13º salário para aposentados e pensionistas do INSS deverá ser antecipado para o primeiro semestre do ano, entre os meses de abril e maio. A medida, que ainda depende de decreto do Governo Federal, injetará cerca de R$ 78 bilhões na economia, beneficiando 35 milhões de pessoas.

    Tradicionalmente, o 13º é pago em duas parcelas, em agosto e novembro, mas vem sendo pago antecipadamente nos últimos anos. Para muitos beneficiários, a mudança serve para reorganizar o orçamento, custear despesas médicas ou reduzir dívidas, mas seu efeito positivo depende diretamente do planejamento.

    “A antecipação do 13º pelo INSS representa não apenas uma medida de gestão orçamentária, mas um instrumento de proteção social, pois reforça a renda dos beneficiários em momento estratégico e amplia a segurança financeira de aposentados e pensionistas”, comenta Thaís Bertuol Xavier, advogada e consultora jurídica do Previdenciarista, lawtech especializada em cálculos e petições previdenciárias.

    Veja, a seguir, as respostas para as principais dúvidas relacionadas ao benefício.

    Como fica o cronograma do 13º do INSS em 2026?

    A previsão é que o 13º seja depositado em duas parcelas: a primeira em abril e a segunda em maio, obedecendo ao cronograma do pagamento de benefícios (entre o final de um mês e o início do seguinte). O calendário de antecipação do 13º do INSS também varia conforme o valor recebido.

    Como saber se tenho direito ao benefício?

    Têm direito ao abono anual os segurados que recebem benefícios previdenciários, como:

    Aposentadorias;
    Pensões por morte;
    Auxílio por incapacidade temporária;
    Auxílio-acidente;
    Auxílio-reclusão;
    Salário-maternidade

    Não têm direito ao benefício:

    beneficiários do BPC/Loas, já que se trata de um benefício assistencial, e não previdenciário.

    Quem começou a receber em 2026 recebe valor integral?

    Não necessariamente. Dependerá de quanto tempo durará o benefício. Quem receber o benefício ao longo de 2026 terá direito ao 13º proporcional, calculado com base nos meses em que houve pagamento no ano.

    Cada mês recebido corresponde a 1/12 do valor total do abono. Por exemplo: se o benefício começou em julho, o segurado terá direito a 6/12 do valor, ou seja, metade do 13º.

    Descontos no 13º do INSS

    A incidência de descontos depende da parcela. A primeira parcela costuma ser paga sem descontos. Já na segunda podem incidir:

    Imposto de Renda, para quem está na faixa de tributação;
    pensão alimentícia, quando há determinação judicial;
    desconto de contribuição previdenciária, quando for o caso.

    Como consultar o valor

    A consulta deve ser feita pelos canais oficiais do INSS. O segurado pode acessar o site ou aplicativo Meu INSS, fazer login com CPF e senha Gov.br e selecionar a opção “Extrato de Pagamento”. Também é possível obter informações pelo telefone 135.

    A recomendação é evitar links enviados por mensagens ou redes sociais e utilizar exclusivamente os canais oficiais para proteger dados pessoais.

    Caso a antecipação seja confirmada, o pagamento deve seguir modelo dos anos anteriores, sem necessidade de solicitação por parte dos beneficiários. Até a publicação do decreto, a recomendação é acompanhar exclusivamente os canais oficiais do INSS para confirmar datas e valores, além de evitar desinformação ou golpes, comuns em períodos de liberação de benefícios.

  • Horta comunitária reúne memória, cuidado e cidadania em favela do Rio

    Horta comunitária reúne memória, cuidado e cidadania em favela do Rio

    Espaço coletivo doa para moradores e ajuda a amenizar o calor

     

    Faz um ano que a rotina de Vera Lúcia Silva de Souza, de 74 anos, começa cedo. Ela molha as plantas de casa e encara a pé a descida íngreme desde o alto do Morro do Salgueiro, na zona norte do Rio de Janeiro. Na parte baixa da comunidade, fica a horta comunitária onde trabalha para complementar a renda.

    Vera é integrante do Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro. Desde 2019, o grupo se reúne para catalogar espécies e saberes e manter vivas plantas que são conhecidas dos moradores, mas não de todo mundo no asfalto.

    A área de plantio é uma das 84 hortas mantidas pelas comunidades com o apoio da Prefeitura do Rio, por meio do programa Hortas Cariocas, criado há cerca de 20 anos. Em 2025, de acordo com a Secretaria de Ambiente Clima, a produção dessas hortas foi de 74 toneladas. No Salgueiro, a colheita foi de 700 kg.

     

    Rio de Janeiro (RJ), 26/03/2026 - Horta comunitária do programa Hortas Cariocas, no Salgueiro. Hortas agroecológicas e ancestrais no Morro do Salgueiro, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
    Horta comunitária do programa Hortas Cariocas, no Salgueiro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

    Memória

    Vera Lúcia explica que acorda cedo porque é melhor mexer na terra pela manhã, quando a temperatura está mais amena e a água não queima as plantas.

    “Molhamos primeiro e limpamos para replantar. Por causa do verão, muita coisa fracassou. Aqui pega muito Sol”, conta.

    Faz um tempo que Vera decidiu buscar nas memórias de infância incentivo para colocar as mãos na terra outra vez. As lembranças são da época em que os remédios eram feitos em casa, pela mãe e pela avó, com quem ela conheceu ervas e aprendeu receitas passadas de geração em geração.

    “Eu nasci lá no alto do morro”, conta Vera, apontando em direção a uma área que fica ainda mais alto do que sua casa, mas onde não existem mais moradias. “Eu vim para cá [onde mora] com 14 anos. Aqui, minha mãe e minha avó me ensinaram a plantar, a fazer um chá, um xarope, um tempero. Eu me lembro bem”, afirma.

     

    Rio de Janeiro (RJ), 26/03/2026 - Vera Lúcia Silva de Souza, conhecida como tia Vera, em sua casa no alto do morro do Salgueiro. Hortas agroecológicas e ancestrais no Morro do Salgueiro, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
    Vera Lúcia Silva de Souza, conhecida como tia Vera, em sua casa no alto do Morro do Salgueiro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

    Localizada nas franjas do Parque Nacional da Tijuca, a casa de Vera é rodeada de árvores, uma realidade atípica entre as favelas cariocas, que costumam marcar temperaturas mais quentes que a média da cidade.

    Com um quintal fresco, não é só na horta comunitária que ela cultiva memórias. “Está sentindo esse cheiro? São as minhas plantas. Tem saião, alfavaca, assa-peixe, ora-pro-nóbis, do grande, que dá uma flor rosa, bem bonita”, apresenta a erveira.

    Os canteiros transformaram a casa de Vera em uma referência no morro. “Tem muita muda aqui. Umas, a gente planta no mato, outras, quando me pedem, eu doo um mucadinho [pouquinho]”, revela. “Meu boldo, por exemplo, já está quase acabando. As casas aqui são apertadinhas, nem todo mundo em espaço”.

    Diversidade de opções

    Em um vídeo sobre a horta comunitária, Marcelo Rocha, que é integrante do mesmo coletivo, compara a pequena quantidade de opções nas prateleiras com a diversidade que as populações consumiam quando cultivavam em seus quintais:

    “É comum ir ao supermercado e encontrar apenas alface, cheiro verde e rúcula. Mas temos uma infinidade de plantas comestíveis conhecidas da minha avó, da minha bisavó, como ora-pro-nóbis, caruru, alemirão, taioba serralha”, citou.

    Sem placa ou aviso na entrada, a horta do Salgueiro só é conhecida pelos moradores. Ali, as ervas são cultivadas, assim como outros alimentos, que depois também são doados para a Escola Municipal Bombeiro Geraldo Dias.

    Membro do coletivo, Walace Gonçalves de Oliveira, de 66 anos, conhecido por Tio Dadá, acrescenta que até mesmo profissionais de saúde indicam as ervas e alimentos da horta comunitária a seus pacientes. 

    “Tem gente que precisa especificamente de uma verdura ou legume. Aí, o pessoal do postinho manda vir buscar aqui conosco”.

     

    Rio de Janeiro (RJ), 26/03/2026 - Tio Dadá e Tia Vera, cuidadores da horta comunitária do programa Hortas Cariocas, no Salgueiro. Hortas agroecológicas e ancestrais no Morro do Salgueiro, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
    Tio Dadá e Tia Vera, cuidadores da horta comunitária do programa Hortas Cariocas, no Salgueiro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

    Da remoção ao plantio

    O espaço usado pelo coletivo para a horta surgiu após uma desapropriação. Estabelecida em encostas íngremes, uma vila inteira de casas foi removida por causa do risco de deslizamento.

    De chapéu e enxada em punho, Tio Dadá lembra que a comunidade transformou a área, cheia de lixo, em uma horta produtiva:

    “A gente tem aqui berinjela, alface, chicória, cenoura. Temos bastante coisa. Tem também limão e tem uma laranja que quase ninguém conhece, vermelha por dentro, a laranja sanguínea, muito boa”, conta ele, que tem suas preferências: “Ora-pro-nóbis é muito bom no franguinho, na carne assada. Eu não uso no chá, não gosto”, destaca.

     

    Rio de Janeiro (RJ), 26/03/2026 - Pé de limão no alto do morro do Salgueiro. Hortas agroecológicas e ancestrais no Morro do Salgueiro, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
    Pé de limão no Morro do Salgueiro, na zona norte do Rio de Janeiro Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

    Alimento e cidadania

    Segundo a prefeitura, as hortas urbanas têm reduzido índices de ocupação irregular de terrenos ociosos e elevado os níveis de inclusão social, além de propiciar aos moradores da comunidade alimentação livre de transgênicos e agrotóxicos.

    A secretária da pasta de Ambiente e Clima da cidade do Rio de Janeiro, Tainá de Paula, afirma que o suporte técnico da secretaria é contínuo. “Temos uma entrega ininterrupta de sementes, que ficam sempre disponíveis para retirada”.

     

    Rio de Janeiro (RJ), 26/03/2026 - Borboleta e insetos em árvore da horta comunitária do programa Hortas Cariocas, no Salgueiro. Hortas agroecológicas e ancestrais no Morro do Salgueiro, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
    Borboleta e insetos em árvore da horta comunitária do programa Hortas Cariocas, no Salgueiro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
  • Cientistas brasileiros são premiados por pesquisas sobre Alzheimer

    Cientistas brasileiros são premiados por pesquisas sobre Alzheimer

    Investigações avançam na busca por diagnóstico precoce e prevenção

     

    Cientistas de todo o mundo tentam encontrar novas abordagens para a doença de Alzheimer, e dois laboratórios brasileiros têm se destacado nessa corrida. Recentemente, os pesquisadores Mychael Lourenço, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Wagner Brum, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foram premiados por organizações internacionais por suas contribuições ao tema

    Lourenço foi contemplado com o ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research, oferecido pela organização Alba a cientistas em meio de carreira que já alcançaram conquistas excepcionais. Já Brum foi escolhido como o Next “One to Watch” (“O próximo para ficar de olho”, em tradução livre), prêmio concedido pela organização americana Alzheimer’s Association a jovens cientistas promissores.

    A doença de Alzheimer é considerada um dos grandes desafios da medicina, já que até hoje poucos tratamentos se mostraram eficazes para retardar a sua evolução, e nenhuma cura foi encontrada.

    O sintoma mais reconhecido é a perda de memória recente, mas, conforme a doença progride, o paciente adquire dificuldades de raciocínio, comunicação e até de movimentação, se tornando completamente dependente.

    Dados sobre os brasileiros

    O professor da UFRJ Mychael Lourenço estuda o Alzheimer desde a sua graduação em Biologia, e foi apurando esse interesse durante o mestrado, doutorado e pós-doutorado, até assumir a docência e fundar o Lourenço Lab, grupo de pesquisa dedicado às demências.

    “Eu sempre me interessei por coisas misteriosas. Por exemplo: ‘como é que o cérebro funciona?’. Não tenho resposta até hoje, mas continua sendo um objeto de interesse bastante grande”, ele brinca.

    Mas Lourenço não é movido apenas pela curiosidade.

    “Nós temos hoje no mundo em torno de 40 milhões de pessoas com doença de Alzheimer. Dessas, umas 2 milhões devem estar no Brasil, um número que pode ser subestimado por causa de problemas de acesso à saúde e diagnóstico. E nós temos uma população que está envelhecendo cada vez mais, mas a maior parte dos estudos são feitos no Norte global. Nós precisamos de dados para entender a doença no Brasil”

    O pesquisador explica que, desde quando Alois Alzheimer descreveu a doença, em 1906, já se sabia que ela causava placas no cérebro, mas somente na década de 80 cientistas descobriram que essas placas são compostas por beta-amiloide, fragmentos de proteína que se acumulam por alguma razão.

    Contudo, drogas eficazes na remoção dessas placas não conseguiram reverter a doença, mostrando que há um hiato entre causa e efeito que a ciência ainda precisa preencher. 

    “A gente continua tentando entender o que faz com que o cérebro se torne vulnerável e desenvolva a doença, inclusive olhando para o que a gente chama de resiliência para o Alzheimer. Tem pessoas como a Fernanda Montenegro, por exemplo, com 96 anos, e completamente lúcida e ativa. E tem pessoas que desenvolvem a placa de beta-amiloide no cérebro e não apresentam sintoma cognitivo. O que elas têm de diferente?”

    Em paralelo, o Lourenço Lab também está testando em animais substâncias que podem evitar o acúmulo da beta-amiloide e de outra proteína, chamada tau, que também está envolvida na formação das placas.

    “Possivelmente, essas proteínas têm tendência a se acumular, mas as células têm um sistema natural de degradação que a gente chama de proteassoma. Mas, no Alzheimer, é como se a companhia de lixo parasse de funcionar. Então, aumentar a atividade desse sistema seria uma forma de tentar melhorar esse fluxo”.

     

    Rio de Janeiro (RJ), 12/03/2026 – Entrevista com o pesquisador da UFRJ Mychael Lourenço, que estuda Alzheimer e recebeu o prêmio ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Reserach em 2026. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
     Entrevista com o pesquisador da UFRJ Mychael Lourenço, que estuda Alzheimer e recebeu o prêmio ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Reserach em 2026. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

    Diagnóstico precoce

    Outra linha de pesquisa é voltada para o diagnóstico precoce da doença, o que pode possibilitar que ela seja controlada antes de causar danos irreversíveis ao cérebro.

    Lourenço coordena uma pesquisa que busca identificar se marcadores biológicos encontrados no sangue de pessoas com Alzheimer em outros países também são válidos para os brasileiros, e se a nossa população apresenta algum marcador específico. 

    “A doença de Alzheimer não aparece quando os sintomas aparecem: ela começa a se desenvolver muito tempo antes. Então, a gente está tentando pegar essa janela, em que a doença está se desenvolvendo, mas os sintomas ainda não apareceram tão claramente”.

    “Talvez a gente nunca vai conseguir curar o paciente que já está num estágio muito avançado. Mas a gente pode conseguir interromper a doença antes disso”, ele acrescenta.

    As pesquisas com biomarcadores também foram responsáveis por colocar o médico Wagner Brum sob os holofotes. Hoje, ele faz doutorado na UFRGS e é pesquisador do Zimmer Lab, grupo de pesquisa sobre Alzheimer. Sua verve científica se manifestou desde cedo.

    “Eu estudei numa escola pública bem tradicional do Rio Grande do Sul, chamada Fundação Liberato, que organiza uma feira de ciências que é a maior da América Latina. Eu cresci com a minha mãe me levando nessa feira, então, quando eu entrei no ensino médio, eu já comecei a trabalhar com pesquisa. Na faculdade, eu escolhi a UFRGS por ser uma faculdade com muita tradição em pesquisa, onde eu ia poder me desenvolver como médico pesquisador”.

     

    Rio de janeiro (RJ), 20/03/2026 - FOTO DE ARQUIVO -  O pesquisador de Alzheimer, Wagner Brum. Foto: AAIC/Divulgação
    O pesquisador Wagner Brum foi premiado pela organização americana Alzheimer’s Association . Foto: AAIC/Divulgação

    O trabalho de maior projeção de Brum foi o desenvolvimento de protocolos para a implementação clínica de um exame de sangue que consegue diagnosticar a doença de Alzheimer, a partir da presença da proteína p-tau217, um dos principais biomarcadores da doença.

    Apesar de o teste ter se mostrado preciso durante as pesquisas, era preciso criar os padrões de leitura para que ele fosse adotado na rotina diagnóstica. E foi isso que Brum fez.

    “Em pacientes com medição muito alta ou muito baixa, claramente a gente poderia saber, apenas com o exame de sangue, se a pessoa tem ou não a doença. Mas tem cerca de 20% a 30% que ficam numa faixa intermediária, e esses precisam de um exame adicional”.

    Do laboratório para o SUS

    De acordo com Brum, o protocolo aumenta a confiabilidade do exame, e já está sendo usado por laboratórios na Europa e Estados Unidos. Infelizmente, no Brasil, apenas poucos laboratórios privados já incorporaram a tecnologia. Mas o Zimmer Lab continua suas pesquisas, almejando facilitar o diagnóstico da doença em larga escala.

    “Para ele ser implementado no SUS, que é o nosso grande objetivo, são necessários estudos mostrando que a introdução desses exames pode melhorar tanto a confiança diagnóstica quanto mudar o tratamento do paciente. O que se tem visto em outros países é que esses exames fazem isso”

    Testes com essa pretensão já estão sendo feitos no Rio Grande do Sul e depois serão expandidos para outras cidades do Brasil. Brum ressalta que, atualmente, o diagnóstico do Alzheimer é feito principalmente a partir dos sintomas, com a análise clínica feita pelo médico e o auxílio de exames não totalmente precisos.

    “O que se acaba fazendo, mais comumente, são exames de imagem estrutural, tomografia ou ressonância, que conseguem informar quais partes do cérebro já apresentam uma atrofia. Mas até o processo do envelhecimento causa atrofia natural, assim como outras doenças neurodegenerativas. Existem padrões mais típicos ao Alzheimer, mas esses exames não são específicos”

    Os dois testes precisos já existentes são o exame de líquor, que examina material retirado da coluna vertebral, e a Tomografia por Emissão de Positrons (PET-CT), mas ambos são caros e pouco acessíveis. 

    Brum acredita que a adoção do exame de sangue poderia não só facilitar o diagnóstico, como aumentar a confiança dos médicos em suas condutas. No futuro, exames de biomarcadores também podem detectar a doença, antes que os sintomas apareçam.

    “É muito bom ver que a comunidade de pesquisa internacional presta atenção no que a gente faz e valoriza o que a gente faz. Tem muita gente fazendo pesquisa de excelência no Brasil, em muitas áreas diferentes, e que merece visibilidade.”

    Os dois pesquisadores premiados trabalham com recursos de instituições de pesquisa como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Fundação Serrapilheira e Instituto Idor de Pesquisas.

  • Assédio no trabalho: saiba como reunir provas para denunciar crime

    Assédio no trabalho: saiba como reunir provas para denunciar crime

    Cartilha do MPT orienta vítimas a como reunir provas e denunciar

     

    “Pesadelo”, “constrangimento”, “incômodo”. Ana*, de 26 anos, passou a relacionar a rotina profissional a momentos de tristeza em função do assédio moral e sexual que vivenciava em um supermercado onde trabalhou por seis meses. Ela pediu demissão, mas não denunciou os gritos e insinuações do ex-patrão por medo. “Eu não sabia como me defender daquilo”, disse. 

    Para apoiar as vítimas de assédio a denunciar esse tipo de crime, o  Ministério Público do Trabalho (MPT) elaborou uma cartilha que orienta a forma correta de coletar provas que ajudem a comprovar as violações. 

    A procuradora Luciana Marques Coutinho, do MPT, afirma que toda a sociedade deve se sentir “protegida e estimulada” para denunciar esse tipo de crime e explica que um dos caminhos para se defender é coletar provas.

    “Nem sempre as pessoas sabem, mas elas podem gravar, por exemplo, as conversas”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.

    Outra possibilidade de organização da denúncia é fazer um diário dessas ocorrências, relatando as vivências. “É importante fazer esse registro porque muitas vezes a vítima fica tão  impactada que não consegue nem se lembrar os detalhes do que aconteceu”, diz.Luciana Marques é vice-coordenadora nacional de Promoção da Igualdade de Oportunidades do MPT (Coordigualdade).

    Provas

    Bilhetes, e-mails e mensagens em redes sociais podem se constituir como prova. Atualmente, a legislação estabelece que as empresas são obrigadas a manter um canal de denúncia interno para receber essas informações, tanto de assédio moral, como de assédio sexual. Além disso, a legislação prevê capacitação dos empregados contra assédio.

    Entre os meios para efetuar a denunciar, um caminho é via Ministério Público do Trabalho, escritórios do Ministério do Trabalho e sindicato da categoria. Por telefone, é possível também acionar o Disque Direitos Humanos, o Disque 100, e o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher).

    As denúncias podem ser feitas de forma anônima. 

    A procuradora Luciana Marques salienta que é indiscutível que as mulheres são as mais impactadas por essas violências em relações de trabalho. Ela ressalta que, especificamente, as mulheres pretas estão mais suscetíveis.

    “Nós sabemos que, na maior parte dos casos, as vítimas são de grupos já vulnerabilizados, como acontece com as mulheres negras, as mulheres pretas e pardas”, diz.

    Um contexto atual que deixa esse grupo mais vulnerável, segundo a especialista, é a precarização das relações profissionais, com a flexibilização frequente dos contratos.

    Definição

    Um regramento internacional que se tornou referência para essas violações foi a Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

    “Violência e assédio são todos aqueles comportamentos e práticas inaceitáveis que podem acontecer apenas uma vez ou de maneira contínua”, explica Luciana Marques.

    São práticas que podem causar ou gerar dano físico, psicológico, sexual ou econômico e inclui a violência e o assédio com base no gênero. 

    Inclusive, a denúncia de assédio não precisa partir apenas da vítima. Mas de qualquer pessoa que testemunhe essa violação.

    O assédio, por exemplo, pode se dar fora do expediente e a distância. Esse comportamento e ameaças podem acontecer durante o expediente ou em todos os momentos relacionados ao trabalho.

    “Pode ser no ambiente de trabalho, mas também quando a pessoa está em teletrabalho. Pode acontecer, por exemplo, nos deslocamentos, quando a pessoa está viajando pela empresa, ou em um evento promovido pela instituição”, identifica.

    Subnotificação

    Assédio não acontece apenas praticado pelo chefe, mas também por uma pessoa subordinada ou colega de função. “É muito comum no caso de mulheres chefes assediadas pelo subordinado”

    Entretanto, a procuradora alerta para o fato de que o Brasil tem um déficit em relação ao diagnóstico dessas práticas. Para ela, há uma subnotificação porque nem sempre as pessoas se sentem confortáveis em denunciar com receio de retaliações de diferentes características, inclusive de perder o emprego. “Às vezes a mulher se culpa de alguma forma”.

    Em outras vezes, mulheres têm dificuldades em identificar que são vítimas de uma série de violências cotidianas que vão se acumulando e degrandando as condições de trabalho.

    Como denunciar

    Ministério Público do Trabalho:acesse aqui.

    Ministério do Trabalho: acesse aqui.

    Disque 100 – acesse aqui .

    Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 – acesse aqui.

    *nome fictício para proteger a entrevistada

  • Gestação tardia redefine maternidade no Brasil

    Gestação tardia redefine maternidade no Brasil

    Reprodução assistida amplia possibilidades

    A gestação tardia deixou de ser exceção e passou a integrar o cenário reprodutivo brasileiro. Cada vez mais mulheres optam por engravidar após os 35 anos, movimento diretamente ligado a mudanças sociais, profissionais e culturais — e que tem na reprodução assistida uma importante aliada.

    Dados do IBGE mostram que, nas últimas décadas, houve crescimento consistente no número de mulheres que têm o primeiro filho após os 30 anos. Ao mesmo tempo, especialistas alertam que a fertilidade feminina sofre redução progressiva com a idade, especialmente após os 35, o que impacta o tamanho da família desejada.

    Mudança de prioridades – Para a especialista em reprodução humana, Wendy Delmondes, coordenadora da unidade de Reprodução Humana do Hospital Mater Dei Salvador (HMDS), esse fenômeno está diretamente ligado às transformações no papel da mulher na sociedade.

    “As mulheres entraram no mercado de trabalho, conquistaram educação, autonomia e passaram a priorizar outras realizações, inclusive materiais. Em muitos casos, há uma mudança de propósito de vida, que afasta a procriação e aproxima da autorrealização”, afirma.

    A médica acrescenta que também houve redução da pressão social por famílias numerosas, o que contribuiu para o adiamento da maternidade.

    Limite biológico – O adiamento, porém, traz consequências. A fertilidade feminina é limitada biologicamente e não acompanha o ritmo das transformações sociais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a chance de gravidez natural cai de forma mais acentuada após os 35 anos, enquanto aumentam os riscos obstétricos.

    “O que vemos com frequência são mulheres com mais idade que se arrependem de não terem tido filhos ou de não terem formado a família do tamanho que desejavam, justamente por causa do limite imposto pela idade biológica”, explica a Drª Wendy.

    Reprodução assistida em alta – Nesse contexto, a reprodução assistida ganha protagonismo. Técnicas como fertilização in vitro (FIV) e congelamento de óvulos têm ampliado as possibilidades reprodutivas, inclusive como estratégia preventiva.

    “Antes dos 35 anos, congelar óvulos quando eles ainda são bons pode ampliar muito as opções reprodutivas para o futuro”, destaca a especialista.

    A tendência é global. Em países como a Dinamarca, referência em políticas de saúde reprodutiva, cerca de 12% dos nascimentos já eram decorrentes da medicina reprodutiva em 2020, segundo dados oficiais europeus.

    Nova dinâmica familiar – A médica observa que esse cenário pode estar associado a uma nova etapa da revolução de gênero, com maior participação masculina no cuidado do lar e dos filhos.

    “Os homens começam a contribuir mais com o trabalho dentro de casa, fortalecendo as famílias e promovendo maior igualdade nos papéis familiares. Essa redefinição pode influenciar positivamente a decisão de ter filhos”, avalia.

    Legado e escolhas – Apesar do avanço tecnológico, os especialistas reforçam que a reprodução assistida não elimina completamente os efeitos do tempo sobre a fertilidade. Por isso, informação e planejamento são considerados fundamentais.

    Além dos aspectos biológicos, Wendy Delmondes chama atenção para a dimensão afetiva e social da maternidade. “Precisamos fortalecer os valores familiares e reconhecer as alegrias proporcionadas pelos filhos. Eles têm um papel importante na transmissão do nosso legado moral”, conclui.

  • Após 20 anos, roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí prescreve no Rio

    Após 20 anos, roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí prescreve no Rio

    Francês suspeito à época fala pela primeira vez sobre denúncia

    Sexta-feira de Carnaval, 24 de fevereiro de 2006. Enquanto as ladeiras sinuosas de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, são tomadas por sons de marchinhas e sambas tradicionais, um grupo de homens carrega nos braços quadros de Claude Monet, Salvador Dalí, Pablo Picasso e Henri Matisse.

    Era dia de apresentação do Bloco das Carmelitas, mas a cena não fazia parte da festa. Ali, em meio à uma multidão de foliões, acontecia aquele que é considerado um dos maiores roubos de obras de arte do Brasil e um dos dez maiores do mundo, segundo o FBI – principal departamento de investigação dos Estados Unidos.

    “Eu estava lá no dia. Os policiais tentavam passar pelo bloco e não conseguiam, porque a gente jogava latinha neles. Ninguém tinha ideia do que estava acontecendo. A gente pensava que era algo acontecendo dentro do próprio Carmelitas, como furto ou outra confusão”, lembra o produtor Daniel Furiati.

    Os criminosos pularam os muros do Museu da Chácara do Céu e sumiram pelas ruas do bairro com cinco peças. Juntas, elas valiam mais de US$ 10 milhões na época (R$ 52 milhões, na conversão atual). As obras e os assaltantes jamais foram encontrados.

    Passados 20 anos, o crime prescreve oficialmente nesta semana e os responsáveis pelo roubo não poderão mais ser punidos.

    Suspeitos
    Nesse tempo todo, três nomes figuraram na lista de suspeitos principais do crime. A primeira linha de investigação envolveu Paulo Gessé, dono de uma kombi branca, em que pelo menos uma das obras de arte teria sido transportada. A polícia suspeitava que ele fosse cúmplice de outros quatro assaltantes.

    A delegada responsável pelo caso grampeou o celular do motorista, mas não conseguiu que as ligações fossem gravadas no banco de dados da corporação. Ela decidiu, então, registrar tudo manualmente.

    Gessé chegou a ter a residência vasculhada e a ser preso por alguns dias. A Justiça, porém, entendeu que não havia nada de concreto para torná-lo réu e determinou que ele fosse solto.

    Denúncias anônimas adicionaram mais dois homens à lista. Michel Cohen, negociador francês de pinturas, acusado nos Estados Unidos de obter US$ 50 milhões em operações fraudulentas.

    Em maio de 2003, portanto antes do crime, Cohen chegou foi preso pela Interpol no Rio de Janeiro, mas conseguiu fugir em dezembro do mesmo ano. A suspeita é de que ele também estivesse envolvido no caso da Chácara do Céu em 2006.

    O francês permaneceu com paradeiro desconhecido por dezesseis anos e só foi reaparecer publicamente quando aceitou fazer parte do documentário O Golpe de Arte de 50 Milhões de Dólares, exibido em 2019 pela BBC. As últimas informações disponíveis dão conta de que continue escondido da Interpol.

    Outro francês, o artesão radicado no Brasil Patrice Rouge também foi incluído como suspeito. Dois endereços atribuídos a ele no Rio de Janeiro foram alvo de diligências policiais. As residências, no entanto, estavam vazias e os agentes nunca mais voltaram.

     

    Entrevista exclusiva

    Ele nunca prestou depoimento à Polícia Federal, tampouco se manifestou publicamente sobre a denúncia, até hoje.

    Vinte anos depois, Patrice Rouge decidiu falar pela primeira vez. Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, negou qualquer participação no roubo. Ele atendeu a reportagem por telefone, direto de sua residência atual em Avignon, cidade histórica da região da Provence, no Sudeste da França.

    “Essa história toda é completamente absurda. Uma pessoa faz uma denúncia anônima e o meu nome é jogado no meio de tudo isso”, reclama Rouge.

    “Eu estava na França quando ouvi falar desse roubo pela primeira vez. O meu advogado me ligou e disse que eu estava sendo acusado. Imagina a minha cara? Eu perdi o chão. Isso me prejudicou muito”, relata.

    Rouge conta que veio parar no Brasil em 1974, durante um passeio de volta ao mundo com amigos. Conheceu um homem que o apresentou ao mercado de joias antigas.

    Ele, então, decidiu ficar no país, para decepção dos amigos, que seguiram viagem. Depois, chegou a trabalhar com restauração de peças de antiguidade.

    Nesse período, era proprietário de uma casa em Santa Tereza, bem próxima ao Museu da Chácara do Céu. Esse fato, na época das investigações, aumentaram as suspeitas. Ele, no entanto, garante que nunca sequer entrou no museu.

    Rouge conta que voltou, definitivamente, para a França no ano de 2005, mas que retornou com frequência ao Brasil, nesses últimos 20 anos, para visitar a filha e o neto, que vivem no Rio de Janeiro. Ele está prestes a completar 77 anos.

    “Se eu fosse uma pessoa culpada, por que faria isso? Se uma pessoa tivesse culpa no cartório, como se diz no Brasil, faria tudo para se esconder. A última vez que estive no Rio foi em 2025. Fui na Polícia Federal, no aeroporto do Galeão. Pedi uma lista das minhas entradas no Brasil para ter esse documento comigo”, diz Rouge.

    “Quando um criminoso é procurado pela Interpol, ele vai ser caçado em qualquer lugar do mundo. Eu nunca tive problemas com a Justiça, seja na França, seja no Brasil”, complementa.

    Arte do descaso

    Em 2011, a jornalista Cristina Tardáguila decidiu investigar o caso. As informações que reuniu viraram livro: A Arte do Descaso, publicado em 2015.

    O título resume a principal conclusão da autora: de que houve um desinteresse institucional generalizado em solucionar o crime.

    “Houve descaso da diretoria do museu à época, descaso do governo federal, do Ministério da Cultura, da polícia e da mídia que se esqueceu de acompanhar o assunto”, critica a jornalista.

    “Nesse período todo de pesquisa para o livro, não encontrei ninguém efetivamente engajado. É uma falência da proteção dos bens culturais do Brasil.”

    No livro, a jornalista descreve uma sequência de erros e negligências. Ela conta que a primeira patrulha da Polícia Militar só conseguiu chegar ao museu meia hora depois do roubo, tempo de reação três vezes superior à média registrada na Europa.

    Quando a PF chegou ao local, pelo menos trinta pessoas haviam circulado pelo museu, sem o cuidado de preservar eventuais provas.

    A PF emitiu um comunicado para as equipes localizadas nos principais portos e aeroportos do Rio de Janeiro e de São Paulo. O fax, no entanto, não tinha fotografia das obras, não descrevia as dimensões, as cores ou o tipo de moldura, nem listava a totalidade das peças. Duas sequer foram citadas no comunicado.

    No momento do roubo, nove pessoas, entre guardas e visitantes, foram feitas reféns. Três delas nunca foram ouvidas pela polícia durante as investigações.

    Cristina Tardáguila também critica a estrutura da PF, à época, concentrava em um mesmo departamento dois tipos de crimes completamente diferentes: a Delegacia de Repressão ao Crime contra o Meio Ambiente e o Patrimônio Histórico (Delemaph).

    Na época, também não havia um banco de dados sobre as obras de arte roubadas no país. O Cadastro Nacional de Bens Musealizados Desaparecidos (CBMD) só seria criado anos depois, em 2013, por meio do decreto Decreto 8.124.

    A jornalista conta que um dos momentos mais emblemáticos de “descaso” ocorreu em uma visita que fez ao Ministério Público Federal (MPF) em junho de 2014. O procurador ligou para a PF para saber como estava o andamento das investigações e foi informado que o inquérito policial havia desaparecido.

    O inquérito policial IPL 2006.51015138422 só seria encontrado novamente no fim de 2015, entre pilhas de papel que chegavam diariamente à Polícia Federal.

    Agência Brasil entrou em contato com o MPF para saber se o inquérito teve alguma movimentação nova depois de 2015.

    A resposta foi que “devido à falta de autoria definida, o processo criminal principal permaneceu em fase de investigação e foi arquivado provisoriamente”.

    Em outras palavras, ficou suspenso à espera de novidades. A data deste arquivamento não consta no sistema do MPF.

    A Polícia Federal não respondeu aos pedidos de informação sobre o inquérito.

    Rio de Janeiro (RJ), 21/02/2026 - Museu Chácara do Céu. Foto: Museu Chácara do Céu/Divulgação
    Museu Chácara do Céu, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro – Museu Chácara do Céu/Divulgação

    Reforço na segurança

    A reportagem da Agência Brasil esteve no Museu Chácara do Céu na véspera do desfile do Carmelitas para observar se houve mudanças no sistema de segurança. Não foi possível fazer a visita no dia exato do bloco.

    Desde 2007, o museu fecha nos dias da folia e sempre que há desfiles de outros blocos em Santa Tereza.

    Em 2006, na tarde do roubo, apenas três seguranças estavam de plantão. Havia câmeras de vigilância, mas as imagens ficavam gravadas exclusivamente em fitas cassete, sem monitoramento remoto. Todas as fitas foram levadas pelos criminosos.

    Na visita da reportagem em 2026, eram pelo menos cinco seguranças, dois na guarita e três no interior do prédio principal. Todos os corredores e as salas com obras de arte têm monitoramento por câmeras, assim como os arredores do prédio principal, portaria e estacionamento.

    Segundo a diretora do museu Vivian Horta, que está no cargo desde 2024, a segurança tornou-se uma das prioridades.

    “Nosso sistema de câmeras é bem moderno. Foi todo atualizado há cerca de dois anos. Tem monitoramento 24 horas, sete dias por semana, com gravação também. Toda a equipe de vigilância é treinada e o roubo é citado como referência.”

    “A equipe administrativa tem procedimentos padronizados para controlar a circulação de visitantes e pesquisadores no museu, a entrada de carros. E temos um contato bem estreito com a polícia e a Guarda Municipal. Eles são sempre chamados quando vemos alguma movimentação suspeita”, complementa.

    As obras

    Rio de Janeiro (RJ), 21/02/2026 - Roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí no Rio prescreve após 20 anos. Foto: CBMD/Divulgação
    Marine, de Claude Monet – CBMD/Divulgação

    O Museu da Chácara do Céu existe desde 1972. Antes disso, o prédio serviu de residência para o empresário e colecionador Raymundo Ottoni de Castro Maya até sua morte. Desde 1983, a instituição é administrada pelo Ministério da Cultura.

    As cinco obras roubadas em 2006 estavam entre as mais valiosas do acervo. A primeira era a pintura em óleo sobre tela de Claude Monet, com o título Marine (Marinha).  Em tons pastel, retratava um litoral montanhoso e inabitado.

    A segunda peça era Le Jardin du Luxembourg (O jardim de Luxemburgo), óleo pintado por Henri Matisse que retratava um parque arborizado e colorido. Trazia árvores altas, de copas amareladas, e um caminho de terra ou areia entre elas. Ao centro, um pedestal (imagem em destaque).

    Rio de Janeiro (RJ), 21/02/2026 - Roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí no Rio prescreve após 20 anos. Foto: CBMD/Divulgação
    La Danse, de Pablo Picasso Divulgação – CBMD/Divulgação

    A terceira era La Danse (A dança), óleo sobre tela pintado por Pablo Picasso. O quadro trazia quatro silhuetas de crianças dançando ao som de um trompete tocado por um adulto. Todos estão ao ar livre, em uma floresta de árvores grandes.

    A quarta obra é o óleo sobre madeira que Salvador Dalí chamou de Homme d’une Complexion Malsaine Écoutant le Bruit de la Mer sur les Deux Balcons (Homem de aparência doentia escutando o barulho do mar sobre duas varandas). A obra mostrava dois edifícios paralelos com dois homens olhando pela janela, um em cada prédio.

    A quinta peça era o livro de gravuras Toros (Touros), com quinze pranchas soltas de ilustrações feitas por Picasso.

    Patrimônio público

    Especialista em artes visuais e perito em reconhecimento de obras de arte para a Receita Federal, Helder Oliveira entende que o roubo representou uma perda cultural não apenas para o museu, mas para toda a sociedade.

    “Temos outras coleções particulares que nunca se tornaram públicas. Essas obras estavam disponíveis para todas as pessoas contemplarem e estudarem. Eram inúmeras possibilidades de educação e de pesquisa”, diz Helder.

    “É preciso reforçar que essas pinturas eram únicas. Não vamos ter outras iguais. Ninguém vai poder ver aquele Matisse, Picasso, Dalí e Monet específicos. O que se roubou foi um patrimônio do país”, completa.

    Helder Oliveira destaca que casos como o da Chácara do Céu apontam para a necessidade de mudanças estruturais no país.

    “Precisamos de políticas públicas que valorizem mais nosso patrimônio cultural. Muitas vezes, o roubo tem a ver com falta de manutenção e de segurança, porque não há verba. Também precisamos investir em uma polícia dedicada exclusivamente ao tema, o que, infelizmente não existe ainda”, diz o especialista.

    Para a jornalista Cristina Tardáguila, também é preciso que as autoridades mudem a forma como hierarquizam os crimes. Ela diz que policiais e políticos tratam com desdém roubos de arte porque não costumam ter homicídios, porque entendem a arte como supérflua e porque as vítimas são vistas como membros da elite.

    “Além do valor cultural público, artes roubadas também costumam alimentar outros tipos de crime. Obras podem servir de moedas de troca. Um quadro do Picasso pode comprar rifles; um Monet, determinadas quantidades de cocaína, por exemplo. Não é normal que essas obras roubadas sejam vendidas diretamente no mercado aos olhos de todos”, explica.

    Rio de Janeiro (RJ), 21/02/2026 - Roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí no Rio prescreve após 20 anos. Foto: CBMD/Divulgação
    Obra Homme d’une Complexion Malsaine Écoutant le Bruit de la Mer sur les Deux Balcons, de Salvador Dalí – CBMD/Divulgação

    O crime nas telonas

    O interesse público pelo tema deve ganhar novo fôlego por causa do cinema. A Caribe Produções está à frente do projeto de um longa-metragem ficcional baseado no livro A Arte do Descaso.

    O roteiro contou com apoio da Warner Bros e está em fase de captação de financiamento. A expectativa é de que comece a ser produzido ainda este ano.

    Um dos envolvidos é o produtor Daniel Furiati, que no início desta reportagem falou sobre a experiência de estar no bloco Carmelitas em 2006, no dia do crime.

    “Um dos nossos compromissos é não glamourizar o roubo de arte, sabendo que ele se articula com uma série de outros crimes. Acho que o filme pode trazer uma nova luz sobre o caso. O fato de estar perto da prescrição diz muito sobre o nosso país”, reflete Daniel.

    Para o Museu Chácara do Céu, o histórico infrutífero das investigações e a prescrição do crime não representam o capítulo final do mistério de vinte anos.

    “É óbvio que a ausência dessas obras não deixa de ser sentida. Porém, a gente reconhece que a nossa missão institucional não sofre prejuízo. Essas obras continuam fazendo parte da história e do legado de Castro Maya”, diz a diretora do museu.

    “A prescrição também não é um óbice para que essas obras sejam encontradas. A gente tem a expectativa de que elas voltem para o museu. A gente não perde essa esperança”, diz a diretora da Chácara do Céu.