Categoria: Opinião

  • Compra de terras por estrangeiros no Brasil: o problema real pode estar no processo, não na lei

    Compra de terras por estrangeiros no Brasil: o problema real pode estar no processo, não na lei

    * Leandro Mirra

    A discussão sobre compra de imóveis rurais por estrangeiros no Brasil costuma focar na lei e nas disputas judiciais. Mas, na prática, o maior desafio pode ser outro: a dificuldade para conseguir aprovação dos projetos.

    Hoje, a legislação impõe algumas regras importantes. Dependendo do caso, empresas estrangeiras (ou brasileiras controladas por estrangeiros) precisam de autorização do INCRA — e, às vezes, até do Congresso Nacional — para comprar ou arrendar terras.
    Isso, por si só, não seria um problema se o processo fosse rápido e previsível. Mas os dados mostram um cenário diferente.
    Entre 2014 e 2023:
    • Foram feitos apenas 38 pedidos formais de aprovação;
    • Só 4 chegaram ao Congresso;
    • Nenhum desses foi concluído;
    • A maioria está parada há mais de 5 anos.
    Ou seja: o sistema praticamente não anda.

    Na prática, isso gera quatro impactos diretos para o ambiente de negócios:
    1. Demora excessiva. Projetos ficam anos aguardando análise, o que trava decisões empresariais.
    2. Menos investimentos. Investidores evitam países onde não há previsibilidade. Terra é insumo básico para agro, energia e indústria.
    3. Insegurança jurídica. Sem resposta do poder público, aumenta o risco de questionamentos e disputas.
    4. Perda econômica. Projetos que não saem do papel significam menos emprego, menos produção e menos desenvolvimento regional.
    O ponto central é simples: não adianta discutir apenas se a lei deve ser mais rígida ou mais flexível. Se o processo não funciona, o investimento não acontece.

    Hoje, o INCRA virou um gargalo relevante. E isso impacta diretamente a competitividade do Brasil.
    Para destravar esse cenário, o caminho passa por:
    • reduzir burocracia,
    • dar mais previsibilidade aos prazos,
    • aumentar a transparência nas decisões.

    O Brasil tem enorme potencial no setor rural. Mas, sem um processo eficiente, esse potencial fica parado — literalmente — na fila de aprovação.

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    * Advogado – Especialista em Agro Negócio

  • Amizades na vida adulta: o que muda quando a vida muda

    Amizades na vida adulta: o que muda quando a vida muda

    O mito da “baixa manutenção” e o que realmente sustenta um vínculo

    *Gabriela Pointis

    Quando se cresce assistindo a séries como Friends, How I Met Your Mother, Sex and the City e até mesmo Doces Magnólias, é quase inevitável criar uma expectativa muito específica sobre a vida adulta. Nessas histórias, a amizade ocupa um lugar central e constante: os encontros são frequentes e a rotina gira em torno daquele grupo que parece sempre disponível, como se o tempo e as responsabilidades nunca fossem grandes obstáculos. A impressão que fica é a de que a vida adulta seria uma espécie de continuação da escola — com a diferença de que, agora, todos são independentes, trabalham, têm seu próprio dinheiro e, justamente por isso, podem sair mais, aproveitar mais e viver essa amizade de forma ainda mais intensa.

    Não demora muito para o baque vir e você perceber que você e seus amigos não vão se ver todos os dias. Aos poucos, a rotina compartilhada dá lugar a agendas desencontradas: vocês estudam em lugares diferentes, moram distantes uns dos outros e, principalmente, nenhum de vocês tem dinheiro. Aquela ideia de encontros espontâneos começa a esbarrar na realidade — tudo precisa ser combinado, planejado, encaixado.

    Depois que você passa dos 18 anos, as chances de você e seus amigos estarem vivendo momentos completamente diferentes da vida aumentam consideravelmente, a ponto de ser quase inevitável. Durante a escola, existe uma sensação de estabilidade: vocês estão no mesmo lugar, seguindo o mesmo ritmo, dividindo os mesmos horários. A convivência é quase automática. Mas, fora desse ambiente, cada um passa a trilhar um caminho próprio — e é aí que as diferenças começam a aparecer.

    Hoje, aos 21, isso fica ainda mais evidente para mim. Enquanto eu ainda estou no meio da minha graduação, tenho uma amiga que já está finalizando o TCC, outra que foi estudar no exterior e outra que já começou a construir sua carreira no mercado de trabalho. Apesar de compartilharmos uma história em comum, nossas rotinas já não se encaixam com a mesma facilidade. Os horários não batem, as prioridades mudam e o tempo livre — quando existe — raramente coincide.

    Entre atividades acadêmicas, empregos e todas as outras responsabilidades que vêm com a vida adulta — obrigações em casa, manter uma rotina de exercícios, não negligenciar a própria saúde — parece que o dia simplesmente não tem horas suficientes. E é nesse ponto que surge uma pergunta inevitável: onde as amizades entram nisso tudo?

    Falar sobre amizade na vida adulta é, inevitavelmente, falar sobre ausência, adaptação e escolha. Diferente da adolescência — quando o tempo parecia infinito e a convivência era constante — crescer nos coloca diante de agendas cheias, caminhos diferentes e silêncios que nem sempre são fáceis de interpretar. É nesse cenário que surge a dúvida: até que ponto dá para manter vínculos sem presença constante? E mais — será que estamos cuidando das nossas amizades ou apenas presumindo que elas vão sobreviver ao tempo sozinhas?

    O mito da baixa manutenção
    Caso esse termo ainda não tenha chegado até você, ele se refere àquelas relações em que duas pessoas raramente se veem, quase não trocam mensagens, mas ainda assim sustentam um vínculo que, em teoria, não muda — mesmo sem um cuidado ativo para mantê-lo.

    Para quem defende esse tipo de relação, ela pode parecer uma forma mais confortável de afeto: não é preciso acompanhar tudo o que acontece na vida do outro para que o carinho continue existindo. Às vezes, passam-se três, seis meses sem qualquer contato — e, ainda assim, a relação segue sendo considerada uma amizade.

    Mas será que continua mesmo?

    O termo “amizade de baixa manutenção” tem sido cada vez mais usado para descrever relações que acabam ficando em segundo plano — pessoas que estão ali para quando você precisa, mas que não exigem, necessariamente, presença ou cuidado constante.

    Nesse tipo de dinâmica, a pessoa se diz sua amiga, mas já não sabe quase nada sobre a sua vida atual. Não sabe sobre aquele trabalho da faculdade que está acabando com a sua saúde mental, nem sobre o drama entre seus colegas de trabalho, ou até mesmo sobre o novo crush que você tem. E, ainda assim, existe uma justificativa silenciosa: um dia vocês foram próximos. Um dia essa pessoa sabia de tudo. Vocês não brigaram, não se odeiam — então, claro, continuam sendo amigos. Certo?

    Eu diria que não. Existe um limite para o quanto é possível manter alguém na sua vida sem que ainda existam trocas reais. Se vocês quase não se falam, não se veem, já não compartilham interesses e, na prática, essa pessoa deixou de fazer parte do seu cotidiano, até que ponto dá para chamar isso de amizade? Ou será que, na verdade, vocês são apenas duas pessoas que já foram amigas e hoje, no máximo, se dão bem?

    “Amizades saudáveis não exigem presença constante, mas sim presença emocional. Reconhecer as limitações da rotina adulta é um sinal de maturidade, mas isso não significa ausência de cuidado. O vínculo se fortalece por meio de gestos simples, como uma mensagem ou demonstrações de lembrança e apoio” – Larissa Fonseca, psicóloga clínica especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC).

    Para mim, o que seria uma boa prática desse tipo de amizade seriam duas pessoas com vidas agitadas, claro, mas que se esforçam para permanecer na vida uma da outra. Elas podem não se ver todos os dias, nem se falar com tanta frequência, mas fazem questão de manter algum tipo de contato — seja mandando uma mensagem de vez em quando ou tentando marcar um encontro sempre que possível.

    Não precisa ser algo constante ou exaustivo. Às vezes, um simples “amiga, vi isso e lembrei de você”, um “como você tá?” ou até um “tô com saudade, vamos fazer alguma coisa?” já diz muito. São gestos pequenos, mas que mostram que existe interesse, que existe vontade de continuar presente, mesmo que a rotina não facilite.

    E, nesse sentido, vale a pergunta: sair com seus amigos — mesmo que seja algo simples, como um encontro na casa de alguém — é mesmo um grande sacrifício?

    Não estou falando de encontrar todo mundo toda semana, nem de transformar isso em mais uma obrigação na agenda. É mais sobre intenção do que frequência. Sobre querer estar perto, querer compartilhar um tempo, ainda que seja pouco. No fim, são essas pequenas manutenções, quase invisíveis, que fazem com que alguém continue fazendo parte da sua vida — sem que isso exija um esforço impossível

    “Quando aparece um show quase relâmpago de uma artista que você ama e você tem meios de ir, você vai. Eu mesma me desdobro para ir. Mas e aquele café com a amiga que você não vê há mais de um ano?[…]. Ainda assim, sinto que existe, sim, uma certa falta de esforço e de demonstração de afeto nas nossas amizades — e elas são muito do que nos sustenta nesse mundo.” – ativista Vitória Rodrigues

    É irrealista esperar que, agora, nossas amizades tenham a mesma dinâmica de quando estávamos no ensino médio — que nossos amigos estejam sempre disponíveis ou que a gente vá se ver sempre que quiser. A vida muda, as rotinas mudam, e as relações acabam precisando se adaptar a isso também.

    Mas, ao mesmo tempo, existem formas simples de manter essa conexão viva. Mandar um TikTok engraçado, compartilhar algo que você viu no Instagram e que te fez lembrar daquela pessoa, enviar o trailer de um filme que vocês *precisam* ver juntos… tudo isso leva poucos segundos e não exige esforço real.

    São pequenas demonstrações, quase cotidianas, mas que fazem diferença. Elas mantêm vocês presentes na vida um do outro, sinalizam que ainda existe interesse e criam uma ponte até o próximo encontro — por mais distante que ele pareça. No fim, são esses gestos mínimos que ajudam a sustentar a amizade, mesmo quando a rotina não colabora.

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    “Não caia nessa de amizade de baixa manutenção. Quando você deixa de conversar ou de encontrar seus amigos, você não tá prejudicando apenas a sua vida social, mas sua saúde” – Drauzio Varella

    Amizade também é saúde

    As amizades ocupam um lugar essencial na nossa vida — não apenas no campo emocional, mas também na nossa saúde física e mental. Quando compreendemos a profundidade dessa relação, fica mais fácil entender por que cuidar dos nossos vínculos não é um luxo, e sim uma necessidade. Amizades, assim como qualquer outra relação importante, precisam de manutenção, presença e atenção ao longo do tempo.

    Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) ajudam a colocar tudo isso em perspectiva — e mostram que esse assunto vai além de uma sensação individual. O isolamento social e a solidão estão cada vez mais comuns: 1 em cada 4 idosos vive em situação de isolamento, e, entre adolescentes, cerca de 5% a 15% dizem se sentir sozinhos com frequência.

    Mais do que só números, isso revela um impacto bem real. A falta de conexão com outras pessoas não afeta só o emocional, mas também a qualidade de vida, a saúde mental e até a longevidade. Em alguns casos, os efeitos podem ser comparáveis a fatores como tabagismo, obesidade e sedentarismo — o que só reforça o quanto manter relações, mesmo que de forma simples, faz diferença.

    Isso acontece porque as relações humanas têm um papel direto no funcionamento do nosso cérebro. Estar perto de pessoas que nos acolhem e nos fazem bem ativa uma série de respostas químicas importantes para o nosso equilíbrio emocional. Entre elas, destacam-se:

    Ocitocina: fortalece os vínculos afetivos e a sensação de conexão

    Dopamina: está associada ao prazer e à motivação

    Serotonina: contribui para a estabilidade do humor

    Endorfinas: ajudam a aliviar o estresse e promovem bem-estar

    Essas reações explicam por que, na presença de amigos verdadeiros, a vida parece mais leve e suportável. Não se trata apenas de companhia, mas de um efeito real no nosso corpo e na forma como percebemos o mundo.

    Por outro lado, a falta dessas conexões também tem seu peso — e ele não é pequeno. A solidão não fica só no emocional, ela acaba transbordando para o corpo também. É comum que pessoas mais solitárias lidem com ansiedade, tristeza constante, uma sensação de desesperança ou até uma autoestima mais baixa.

    E é justamente por isso que cultivar amizades na vida adulta, mesmo sendo desafiador, se torna tão importante. Não precisa ser perfeito, nem constante o tempo todo — mas faz diferença. Amigos funcionam como uma rede de apoio nos momentos difíceis, ajudam a aliviar o estresse do dia a dia e, principalmente, reforçam aquele sentimento de pertencimento que, no fim, todo mundo precisa para se sentir bem.

    Além disso, diversas pesquisas mostram que pessoas com laços afetivos mais sólidos tendem a ter menos chances de desenvolver transtornos como depressão e ansiedade, além de apresentarem uma melhor qualidade de vida. Um dos estudos mais longos já feitos sobre o tema, conduzido pela Universidade de Harvard, chegou a uma conclusão simples, mas muito significativa: são as relações próximas e de qualidade que mais influenciam nossa saúde e felicidade ao longo da vida — mais até do que dinheiro ou sucesso profissional.

    No fim das contas, investir em amizades é investir em si mesmo. É construir, pouco a pouco, uma rede de afeto que sustenta, acolhe e dá sentido à experiência de estar vivo.

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    “Mande uma mensagem, chame aquele seu amigo da escola para um café, ou um happy hour com o pessoal do trabalho. Ou se você preferir conhecer gente nova, comece um curso. Procure uma atividade que te permita encontrar com outras pessoas. Coloque a cara a tapa. Tem gente que não vai dar abertura mesmo, mas outras vão virar amigos para o resto da vida”. – Drauzio Varella

    Nem todo vínculo continua

    Ainda que esse texto seja sobre a importância das amizades e sobre entender como suas dinâmicas mudam ao longo do tempo, acho importante reservar um espaço para falar sobre o outro lado disso: às vezes, também é preciso deixar ir.

    Aceitar que uma amizade foi importante, que marcou uma fase da sua vida e significou muito, é tão essencial quanto tentar mantê-la. Porque, quando a gente se apega apenas ao que aquela relação já foi um dia, corre o risco de continuar preso a alguém que já não faz mais parte da sua vida de verdade.

    E, com o tempo, isso deixa de ser confortável e passa a ser frustrante — até angustiante.

    “Sweet tea in the summer
    Cross your heart, won’t tell no other
    And though I can’t recall your face
    I still got love for you” – seven, Taylor Swift

    Em seven, música do álbum folklore, Taylor Swift canta sobre a saudade de um tempo que já passou — sobre uma amizade sincera, profunda e, ao mesmo tempo, distante. A canção funciona quase como uma lembrança fragmentada: mais do que reviver exatamente o que foi vivido, ela resgata o que aquela relação significou em um determinado momento da vida.

    Acho que todos nós temos alguém assim. Uma pessoa com quem já não temos mais contato, mas que, em algum momento, foi essencial.

    Na música, mesmo que o rosto da amiga já apareça meio nebuloso na memória, os sentimentos permanecem. A narradora provavelmente não vê mais essa amiga de infância, talvez nem fale mais com ela. Ainda assim, o vínculo que existiu entre elas foi tão marcante que o afeto continua ali, mesmo sem presença, mesmo sem convivência.

    E talvez exista uma certa beleza em aceitar isso. Em reconhecer o que alguém foi para você, sem precisar forçar que essa pessoa continue fazendo parte da sua vida.

    O carinho ainda está lá.
    O afeto ainda está lá.
    Mas a amizade chegou ao fim.

    Nessa mesma nota, temos dorothea, do álbum evermore, onde ela canta:

    “Hey, Dorothea, do you ever stop and think about me?
    When we were younger, down in the park
    Honey, making a lark of the misery” – dorothea, Taylor Swift

    Diferente de seven, em dorothea vemos uma amizade atravessada pela distância. A música conta a história de duas amigas que seguiram caminhos completamente diferentes: uma permaneceu na cidade natal, enquanto a outra foi para Hollywood e se tornou uma estrela. Com o tempo, o contato entre elas se torna cada vez mais raro. A narrativa é construída a partir do ponto de vista de quem ficou e para ela o carinho ainda está ali, mas acompanhado de uma dúvida silenciosa: será que ela ainda se lembra de mim?

    Ouvir essa música inevitavelmente me faz pensar nos amigos que fui perdendo pelo caminho — não por brigas ou rompimentos, mas simplesmente porque seguimos direções diferentes. Aqueles de quem eu era inseparável, mas de quem me afastei porque passamos a querer e priorizar coisas distintas. Aqueles que deixaram de ser presença constante para se tornarem alguém com quem eu quase nunca mais falo.

    E, ainda assim, de alguma forma, eles continuam ali. Mesmo sem fazerem mais parte da minha vida, eu acompanho de longe — pelos stories, por pequenas atualizações — e torço, de verdade, para que conquistem tudo o que desejam.

    “You got shiny friends since you left town
    A tiny screen’s the only place I see you now
    And I got nothing but well wishes for ya” – dorothea, Taylor Swift

    O ponto é: amizades são, sim, muito importantes — mas também é importante aceitar que alguns ciclos simplesmente chegam ao fim.

    Você não se faz nenhum favor ao se prender a pessoas que já seguiram em frente e estão vivendo outras fases da vida. Isso não invalida o que vocês tiveram. Você ainda pode gostar dessas pessoas, continuar desejando o bem delas e, sempre que se encontrarem, pode até ser incrível.

    Mas existe uma diferença entre manter um carinho e insistir em ocupar um espaço que já não é mais seu. Não se obrigue a continuar se colocando na rotina de alguém se isso não for recíproco.

    Conclusão

    Dá para manter vínculos sem presença constante — mas não sem algum tipo de cuidado. Talvez essa seja justamente a parte que as séries como Friends e How I Met Your Mother não mostram tão bem. Nelas, a amizade parece sobreviver quase que automaticamente: as pessoas estão sempre ali, sempre disponíveis, como se a conexão não dependesse de esforço, tempo ou escolha.

    Na vida real, não é bem assim.

    Nós, infelizmente, não sempre somos vizinhos ou moramos perto de nossos amigos mais próximos. Nem sempre há disponibilidade, energia ou até mesmo dinheiro para encontros frequentes. Nesse cenário, manter uma amizade já não depende tanto da proximidade física, mas, antes de tudo, da intenção.

    Amizades podem, sim, sobreviver sem a frequência de interações que tínhamos na infância e na adolescência. Até porque a vida adulta não vem com “hora do recreio”: não existe mais aquele intervalo natural e garantido em que todos se encontram, conversam e compartilham o cotidiano.

    A realidade, é que agora, todas nossas amizades são sim de “baixa manutenção” em comparação com o que tivemos um dia, mas o importante é que a manutenção continue existindo. Que continue existindo esse cuidado entre vocês, essas pequenas interações que mantenham vocês na vida um do outro e demonstrem a intenção de querer estar perto.

    Pequenas demonstrações de interesse fazem diferença: uma mensagem, uma tentativa de marcar um encontro, um simples sinal de que aquela pessoa continua ocupando um espaço na sua vida. Sem isso, o vínculo não se sustenta sozinho. Aos poucos, quase sem perceber, ele começa a se transformar em outra coisa — menos presente, mais distante — até virar apenas uma lembrança do que um dia foi.

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    • Gabriela Pointis é estudante de Jornalismo
  • Os sonhos não envelhecem: uma análise de “Clube da Esquina” e a resistência contra a Ditadura Militar

    Os sonhos não envelhecem: uma análise de “Clube da Esquina” e a resistência contra a Ditadura Militar

    A canção é um hino de resistência, especialmente no contexto da Ditadura Militar. Entenda em detalhes o significado do álbum

    Por Beatriz Rego

    Quando o álbum Clube da Esquina chegou às lojas, em 1972, o Brasil vivia seu período mais violento da Ditadura Militar. A censura aos artistas, especialmente após o AI-5, obrigou músicos e compositores a buscarem novas estratégias para falar do país. Foi nesse contexto que o coletivo mineiro liderado por Milton Nascimento e Lô Borges utilizou a música para trazer esperança aos corações dos brasileiros sonhadores, além de inaugurar um novo modo de pensar a MPB.

    Em termos harmônicos, o disco rompe com o padrão previsível de composição do início dos anos 70. Milton e Lô inserem escalas menos comuns, sobrepõem acordes e criam mudanças inesperadas para ampliar o campo de escuta do público. Esse gesto também é político: entre 1969 e 1973, mais de 30% das letras enviadas ao Departamento de Censura foram alteradas ou vetadas. Sem poder falar diretamente sobre o país, o grupo usa da liberdade sonora para dizer o que não poderia ser dito.

    Do ponto de vista poético, o álbum também adota uma estratégia indireta. As letras apostam em metáforas de estrada, vento, mar, infância e viagem, imagens que à resistência e à calma necessária para enfrentar a truculência da Ditadura Militar. É uma tática de sobrevivência: enquanto a MPB anterior trabalhava com a crônica social, aqui a crítica surge pela poesia, lembrando uma juventude sonhadora, indomável, que não tem medo de lutar. O objetivo não é explicar o Brasil, mas oferecer ao ouvinte uma experiência capaz de reorganizar seus afetos em relação ao país.

    Lô Borges, cantor e compositor, falecido no último dia 02 de novembro, foi um dos fundadores do Clube da Esquina – Foto: Divulgação

    Além disso, essa lógica harmônica e poética moldou uma “gramática poética” que continua em artistas contemporâneos, como Maria Gadú, Tó Brandileone, Rubel e Marina Sena. A ideia de que a canção pode falar de política sem nomear diretamente o poder virou uma assinatura registrada da estética brasileira. Outro ponto, é que o disco reorganiza o mapa da MPB regionalmente. Num país em que o eixo Rio–São Paulo centralizava produção, crítica e legitimidade, o grupo mineiro funda uma nova estética e força o país a olhar para além do eixo tradicional.

    Ao incorporar vozes regionais, ritmos mineiros, folias de reis, congadas e reverberações do jazz e do rock internacional, o álbum mostra que o interior também é uma potência musical. Com isso, cinquenta anos depois, “Clube da Esquina” segue como referência central na memória cultural do país. Em 2007, a revista Rolling Stone Brasil elegeu o álbum como o melhor disco brasileiro de todos os tempos. E em 2022, a edição comemorativa voltou às prateleiras e figurou novamente entre os 10 discos mais vendidos do país. É um caso raro da indústria fonográfica brasileira: um álbum criado sob censura, que permanece tão atual cinco décadas depois. É a prova de que a música é e sempre será uma das formas mais poderosas de resistência.

  • Plunct, plact, zum, não vai a lugar nenhum!

    Plunct, plact, zum, não vai a lugar nenhum!

    Chico Araújo*

    PEC da Blindagem (ou bandidagem), dosimetria, isenção de IR, carinhos de Trump para Lula, “quem matou Odete Roitman?”, cidades dominadas por facções… e o Natal se aproximando.

    O Brasil não é para amadores – ou principiantes, lembrando um ditado popularizado pelo saudoso (e tome saudoso em tempos de paredões) Tom Jobim.

    Incrível, como o Brasil consegue ao mesmo tempo ser um país de infinitas riquezas, tanto naturais como o fato de oferecer ao mundo a condição de um celeiro capaz de alimentar boa parte da humanidade, além de manter uma grande parte de seu território quase intocável (a luta constante contra o desmatamento, queimadas, exploração irregular de minérios…)
    Mas, ao mesmo tempo, é um país pobre, que ainda luta contra a extrema pobreza, dependente de programas sociais. Do outro lado, um pequeno percentual de ricos e extremamente ricos que sequer aceitam a possibilidade de reduzir o acúmulo de riqueza, mesmo que não consigam gastá-la por cinco gerações ou mais.
    Pior, os que defendem a manutenção dessa realidade e chamam qualquer inciativa de redução das diferenças de “comunismo”.

    O comunismo é uma utopia que só dá certo nos formigueiros, mas é uma falácia idiota citada nos discursos dos que preferem a manutenção de um status quo baseado nas diferenças de classes, na exploração.

    O Brasil é um país extremamente rico. É roubado, dilapidado, desde que os primeiros portugueses desembarcaram por aqui. Foi explorado ao extremo. Sofreu com ditaduras militares (com obras faraônicas em que recursos foram desviados para os bolsos dos que ainda hoje são parte do percentual de ricos), com a corrupção desenfreada, quase cultural, entranhada em todos os serviços públicos, em casas legislativas viciadas na famosa “Lei de Gerson” (tem que levar vantagem em tudo, certo?), escolhas erradas, como abandonar ferrovias e apostar em cortar o país em rodovias para agradar imperialistas… E ainda assim, tem recursos para sustentar quase 20 milhões de lares com o Bolsa Família.
    Nada contra, aliás, tudo a favor. Doar um mínimo de dignidade a quem passa fome, não tem emprego, passa necessidade é extremamente positivo. O problema é que nada se cria para tirar parte desse percentual de brasileiros dessa condição. ”Tá funcionando? Deixa como está!”. Infelizmente, programas sociais têm retorno em votos e todo mundo quer tirar proveito disso.
    Onde está o erro? Vamos começar falando sobre educação. O Brasil não tem, nunca teve, sem se preocupa em ter um projeto de país para a educação. Muita coisa melhorou, claro. Existem recursos para escolas, para salário de professores (mesmo que ínfimos, sem reconhecer a importância desse profissional), merenda escolar, transporte… Mas, a educação ainda continua uma colcha de retalhos.

    O Brasil continua tendo quase 30% da população entre 15 e 64 anos na condição de analfabetos funcionais. Ou seja, o modelo atual de educação fracassou com um terço dos brasileiros.

    O que se faz para mudar isso? Alguns estados constroem muitas escolas. Concreto. Mas, não pensam em como a educação pode ser atrativa, preferindo gastar os recursos em paredes. O investimento nos humanos que vão ser os responsáveis pela moldagem das novas gerações de brasileiros, é o de menos. Cimento, tijolos e ferragens são mais importantes.
    Custa tanto assim criar atrativos, como cursos profissionais rápidos, atividades voltadas ao empreendedorismo (que tanto querem nos empurrar), dotas as escolas de ferramentas para estimular cultura e o esporte?
    O esporte, inclusive, é um capítulo à parte. Pouco se tem no Brasil de formação de atletas – não que tudo seja a disputa esportiva, mas que a competitividade ajuda a desviar jovens de caminhos obscuros… sem sobra de dúvida. Os governos adoram fazer autopromoção em cima de resultados de atletas, mas ninguém se preocupa com formação, da base – isso só acontece no futebol e isoladamente, por região, em alguns esportes.
    Isso tudo para falar de como as coisas seriam melhores com políticos e gestores mais preocupados na formação das novas gerações, do que na geração de novos recursos para os próprios bolsos. Depois não venham reclamar da violência…!!!


    Chico Araújo é Jornalista e editor do Diga!

  • Chico Araújo: Sobre taxações, lamentações e bombas atômicas

    Chico Araújo: Sobre taxações, lamentações e bombas atômicas

    … E por falar em estratégias….
    Essa tarifação louca de 50% sobre produtos brasileiros não foi resultado de um sonho transcendental do “Aprendiz” Trump. Tem algo engendrado, armado, tramado nos tenebrosos pântanos norte-americanos. Tem participação da família do ex-presidente? tem, sim!
    Não vou me impressionar se, em uma semana (tempo em que o debate ainda estará na mídia) uma notícia seja divulgada como bomba pelo X do “Aprendiz”: Atendendo a solicitações do ex-presidente brasileiro, muito preocupado com a situação do seu País, me sensibilizei (se é que ele tem essa capacidade) e decidi reduzir a tarifação sobre os produtos brasileiros”. Anotem aí!
    Mas, em se falando de estratégia, o factóide da vez permite ao governo brasileiro uma jogada de mestre, um drible de Garrincha sobre o imperialismo trumpeano. O mundo não gira nem capota em torno dos EUA. A globalização é um efeito sem volta que permite conversas e trocas entre os seis continentes e os 193 países.
    Se eles querem taxar nosso café, que continuem com o intragável café servido por lá – já tive oportunidade de provar… é muito ruim!. Certamente, outros países abrirão seu comércio para carnes bovinas e aves, ovos, suco de laranja, cobre, alumínio… A China é o maior parceiro comercial do Brasil e tá só esperando melhores oportunidades (logo eles… os “comunistas”!!!).
    Golpe (e disso os EUA e seus fãs entendem!) exige contragolpe. Não devemos nos preocupar com as duas bombas atômicas prometidas. Mais um factóide. Mandem-nos jazz e turistas, por favor!
    Incrivelmente, a elevação das taxas atinge justamente o principal público do ex-presidente, dentro do agronegócio, no núcleo duro do capitalismo brasileiro. Estratégia louca? Quase suicida! Vai dar certo? facilitar a vida do ex-presidente, ameaçado de cadeia? Não consigo acreditar, até porque o Brasil, mesmo com todos os seus defeitos (e são muitos), aprendeu a viver como uma democracia.
    O que pesa, diante de tudo isso, é que nada hoje é o que parece. As fake news explodem nas redes sociais e, por preguiça, ou interesse próprio, muitos tendem a acreditar que a terra é plana e que Papai Noel existe (esse segundo, até tenho minhas dúvidas!). Já diria o velho Raul: “Mas é que se agora pra fazer sucesso/Pra vender disco de protesto/Todo mundo tem que reclamar… -E fim de papo!”

    * Chico Araújo é jornalista e fã de Zé Ramalho

  • Carlos André Leandro: Quem se importa com o papa

    Após alguns dias do grande evento midiático que tomou conta do Brasil e em boa parte do mundo, podemos nos perguntar o que realmente significa a eleição do líder de uma religião, ainda que esta alegue reunir 1,5 bilhão de pessoas no planeta. Num passado recente, este mesmo evento não teria interessado muito mais gente além dos católicos, contudo, pelo visto, algo parece ter mudado. De fato, os papas não saíam de Roma até 1978, depois da eleição do papa polonês, João Paulo II. Durante o seu papado, as inúmeras viagens e o seu poder de comunicação o lançaram na mídia, produzindo alvoroço por onde passava. Desde então, não se pode negar, o papa agora é pop.

    Esse legado construiu a marca do papado moderno, caracterizado pelo tratamento de celebridade dado aos papas pelos meios de comunicação. Deste momento em diante, não importa apenas à audiência católica o que diz o papa, seus gestos e palavras têm repercussão imediata nos meios de comunicação. Para o bem ou para o mal, passa-se a exercer vigilância sobre a vida e os pronunciamentos dos papas, de tal modo que a expectativa de absoluta coerência moral torna-o uma voz a ser considerada dentro do debate social. Essa relevância social do papado alcançou seu ponto mais alto em Francisco, o papa reformador.

    A reforma de Francisco, porém, não deve ser encarada como algo novo. O espírito que o movia encontra-se já nos escritos do Concílio Vaticano II, um evento que durou três anos e foi concluído em 1965. A abertura ao diálogo com a cultura do tempo presente era um desejo dos padres conciliares daquela época, quando escreveram no documento Gaudium et Spes (62), “Vivam, pois, os fiéis em estreita união com os demais homens do seu tempo e procurem compreender perfeitamente o seu modo de pensar e sentir, qual se exprime pela cultura.” Neste sentido se entende por que o Papa Francisco insistiu que a riqueza da tradição da Igreja não deveria se confundir com ostentação, deu exemplo ao escolher a simplicidade e a proximidade com os temas que interessam às pessoas e à cultura do nosso tempo.

    A tão reclamada continuidade do legado de Francisco decorre, portanto, de um compromisso com a própria história recente da Igreja Católica, interpretada corretamente com a eleição do Cardeal Prevost, agora Papa Leão XIV. Essa expectativa demonstra ser bem fundada observando alguns dados da sua trajetória e gestos iniciais. O primeiro deles é a escolha do novo nome, importante indício do interesse que move o novo chefe da Igreja Católica. Ele mesmo confessou em entrevista que deseja com este nome recordar o Papa Leão XIII, iniciador de uma série de pronunciamentos papais que formaram a Doutrina Social da Igreja. A preocupação social deste Papa do fim do século XIX o levou a tecer críticas contundentes à exploração do trabalho, oriunda do primeiro processo de industrialização que o mundo conheceu. Hoje, é a nova industrialização da era da IA que ameaça os postos de trabalho e dignidade humana, alegou o novo papa, Leão XIV.

    De fato, os papas não saíam de Roma até 1978, depois da eleição do papa polonês, João Paulo II. Durante o seu papado, as inúmeras viagens e o seu poder de comunicação o lançaram na mídia, produzindo alvoroço por onde passava. Desde então, não se pode negar, o papa agora é pop.

    Por outro lado, é evidente que não se deve esperar uma repetição de Francisco, cada um traz a sua marca e inspiração ao assumir um cargo. Mas é também razoável pensar que os mais de 30 anos vividos pelo então padre e bispo Prevost no Peru tenham marcado a sua personalidade, assim como ocorreu com o papa argentino. Neste sentido, além do interesse pelas questões sociais, espera-se haja um esforço para aproximar-se dos grupos mais conservadores da igreja, uma busca da simplicidade sem abrir mão da tradição, atenção à missão na Igreja junto aos mais humildes e firmeza na construção de pontes de diálogo dentro e fora da Igreja, aliando tudo isso à condenação da guerra e das hostilidades entre as nações. E o que não esperar de Leão XIV? Além do óbvio (é impensável uma mudança doutrinal), a leitura do primeiro discurso na sacada da Basílica é um indício, entre outras coisas, de que não haverá comunicação improvisada; já a menção ao Papa Francisco indica que não haverá retrocessos nas reformas iniciadas em relação ao governo da Igreja (a Cúria Romana).

    Enfim, a voz do papa Leão XIV que ecoou na praça são Pedro para o mundo aponta para uma mudança de postura da igreja e dos meios de comunicação que interessa a todos, não apenas aos católicos. A repercussão da sua eleição reforça o soft power da Igreja Católica, o único poder real de que a sua diplomacia dispõe. Por isso, em face da carência no mundo de lideranças capazes de pautar as questões que afligem a humanidade, o caráter social escolhido por Leão XIV para o seu papado é uma boa notícia para o nosso tempo.

    Carlos André Leandro

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    * Coordenador e professor da Escola de Educação e Humanidades da UCSal

  • Leandro Fortes: A PPPtização da anistia

    Está em curso uma malandragem bolada no subsolo imaginário que liga o Palácio do Planalto ao Congresso Nacional para aprovar uma lei marota que, uma vez consumada, irá reduzir a pena dos delinquentes que estupraram a Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, em troca de uma fantasia: aumentar as penas dos líderes e financiadores de futuros golpes de Estado.

    Sim, futuros golpistas.

    O Brasil, definitivamente, não é para amadores.

    Esse acordo, explicitamente defendido pelos líderes do governo na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, tem o óbvio aval do presidente Lula. Inclui, ainda, por obrigatório, a cumplicidade do Supremo Tribunal Federal, submetido à pressão das classes dominantes a quem serve, sob a liderança, no caso, do ministro Luiz Fux, uma dessas figuras da tragicomédia brasileira que, de quando em quando, é acionada pelas forças do atraso.

    O acordo que se anuncia é uma farsa porque não foi construído para fazer justiça, mas para, outra vez, submeter a nação aos interesses da escória ancorada no aparelho do Estado, com a qual as chamadas forças progressistas sistematicamente se aliam na crença de que, um dia, serão aceitas por ela.

    A esquerda, no todo, e o PT, no detalhe, vivem nesse Dia da Marmota desde o fim da ditadura militar.

    No fim das contas, será uma capitulação diante do bolsonarismo e da cultura do golpismo. Na prática, a tigrada que destruiu prédios e defecou no STF vai voltar para casa, virtualmente anistiada, debochando da Justiça e da sociedade brasileira. E, ainda assim, os envolvidos nessa tenebrosa transação vão cantar vitória. Afinal, sempre se poderá dizer que não houve anistia.

    Assim como dizem que não há privatização, mas parcerias público-privadas.


    Jornalista, escritor e professor. Sócio fundador da agência de publicidade e marketing digital CobraCriada

    *Publicada originalmente no site Jornalistas pela Democracia

  • Jonas Paulo: Repensar, fazendo e refazendo

    Jonas Paulo: Repensar, fazendo e refazendo

    “A novidade é que o Brasil não é só litoral. É muito mais… é muito mais que qualquer zona sul. Tem gente boa espalhada por esse Brasil, que vai fazer desse lugar um bom País.” (Milton Nascimento)

    Jonas Paulo*

    Enfrentamos mais uma eleição municipal onde pudemos testar a nossa capilaridade política nacional e medir a nossa força e presença nos principais centros políticos nacionais e regionais, além de medir como estão chegando as obras, serviços e programas do Governo do Presidente Lula em cada comunidade, vila e bairro deste imenso e diverso País.

    O diferencial desta eleição de 2024 é que, agora, voltamos ao Governo Federal; depois de participarmos, em 2016, numa conjuntura desfavorável do pós-golpe contra a Presidenta Dilma e, em 2020, com a extrema direita no governo federal eleito dois anos antes; em ambos os casos, estávamos em situação de extrema dificuldade e no isolamento político, pois foi uma conjuntura de resistência e sobrevivência política. Agora, na volta ao governo federal, o quadro permaneceu difícil e complexo, pois as heranças e os entulhos da passagem da direita no Governo estão muito presentes e são de difícil remoção, como, por exemplo, o Orçamento Secreto e as famigeradas Emendas Pix, que permaneceram fazendo do Congresso Nacional sócios do ordenamento de despesas do Orçamento Público Federal, com os parlamentares fazendo investimentos em obras diretamente nos municípios, o que é uma anomalia administrativa e uma inversão grotesca da lógica de governo, além de ser uma imoralidade.

    A eleição foi atípica, com os atuais prefeitos endinheirados, seja pelas emendas Pix para gastar ao bel-prazer, ou ainda pelo FPM turbinado, o FUNDEB atualizado e os precatórios liberados, um verdadeiro derrame de dinheiro público que tomou conta das eleições. Como nunca visto, foi estabelecido o império dos gastos não contabilizados nas campanhas, e o financiamento público, via FEFC, foi reduzido a um mero instrumento contábil.
    De todas as formas, o nosso desempenho eleitoral ficou muito aquém do nosso potencial político.

    Se considerarmos que os Estados mais populosos e importantes do País, como São Paulo, o PT elegeu apenas três prefeituras, o Rio de Janeiro também apenas três prefeituras, o Paraná elegeu três prefeituras e o Pará, duas prefeituras petistas; todos Estados grandes e com estrutura partidária forte e líderes nacionais petistas, um resultado acanhado, mesmo que ainda estejamos disputando o 2º turno em três cidades paulistas.

    Além disso, Estados que tinham tradição de governos municipais de referência, como o RS, baixamos para 19 prefeituras petistas, mesmo estando no 2° turno em POA, e mesmo MG, que manteve a liderança em duas grandes cidades como Juiz de Fora e Contagem com as prefeitas reeleitas. O crescimento de 28 para 35 prefeituras no universo de 853 municipalidades ainda ficou longe do patamar histórico de liderança nacional de Minas em Prefeituras do PT.

    Enfim, foi aceso um imenso sinal amarelo, exigindo de nós uma análise mais profunda para buscar fazer a correção de rumos e a requalificação da estratégia e das movimentações táticas para possibilitar a construção dos palanques vitoriosos em 2026, para as disputas estaduais e nacional, visto que o atual governo Lula, envolto numa correlação de forças congressual amplamente desfavorável, representa a transição democrática necessária para isolar o neofascismo e consolidar o Estado de Direito Democrático. Este é o seu principal objetivo na presente conjuntura.

    Entendemos que, vencida esta etapa de reconstrução democrática, deveremos manter uma ampla frente política para viabilizar a sucessão do Presidente Lula e, em outra correlação de forças, buscar avançar mais na linha do projeto democrático e popular na nova gestão a ser conquistada pelo PT e seus aliados.

    O resultado eleitoral do PT no País reproduziu mais uma vez uma nítida supremacia do Nordeste, seja na eleição de bancadas parlamentares municipais, seja na eleição de prefeituras petistas, e fomos bem nas reeleições como nas sucessões, mas também na conquista de novos mandatos de prefeituras na região Nordeste, sendo 68% das conquistas do Partido com destaque aos Estados que mantemos a hegemonia política nas últimas duas décadas, como: Bahia, Ceará e Piauí, que governamos com êxito administrativo e força política e eleitoral.

    Em contraponto, demonstramos fragilidades em diversas regiões do País, inclusive nas mais importantes econômica, política e eleitoralmente, como o Sul e Sudeste, com resultados muito abaixo das nossas possibilidades, pois temos presença no cenário político e possuímos uma base militante mais definida da esquerda clássica no plano ideológico e fortemente presente nos segmentos médios, profissionais, intelectuais e juventude.

    Nesses segmentos, elegemos parlamentares com votações expressivas e bancadas representativas. Ocorre que, no plano das disputas de governos, não ampliamos socialmente e temos dificuldades de formar frentes mais amplas e disputar o poder executivo das cidades e dirigir governos e coalizões democráticas. Diferentemente do Nordeste, temos uma enorme dificuldade em realizar alianças ao centro, à medida que cada vez mais diminui a nossa inserção nas áreas mais proletarizadas e nas periferias das cidades, onde estão as maiorias eleitorais e as populações mais pobres e vulneráveis, que hoje são muito pressionadas e disputadas pela presença da ação acolhedora do conservadorismo religioso e pela força da economia do ilícito e suas estruturas de ação paramilitar.

    Além disso, também perdemos bases sociais históricas com a fragilização do movimento sindical e popular, resultante das profundas mudanças no mundo do trabalho, com a modernização tecnológica e automação, fortalecendo a economia dos serviços e o trabalho autônomo, que alterou a nossa relação política clássica com os trabalhadores com carteira assinada e sindicalizados, que foi a matriz organizativa histórica do PT.

    Enfim, o resultado eleitoral nos chama à reflexão sobre o papel do Partido como força política que dirige a coalizão de centro-esquerda que governa o País e sobre o caráter nacional do Partido, principalmente pela necessidade de expressar a diversidade do País e de ter capacidade de levar as nossas políticas públicas até a ponta, onde está o cidadão, e disputar os espaços de poder na base da sociedade. Para tal, precisamos de alianças políticas e sociais fortes e representatividade para operar o enraizamento do nosso projeto democrático que transforma o País.
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    * Jonas Paulo é ex-presidente do PT Bahia

  • Jolivaldo Freitas: Lula ¿por qué no te callas?

    Alguém do Itamarati tem de ter peito para dizer textualmente ao presidente Lula que ele não deve sair do script. Está feio. Só vem falando bobagem. Já não bastava Bolsonaro fazendo o Brasil passar vergonha no exterior e vem Lula verborrágico. Agora lenhou o Brasil que acaba de perder pragmatismo na política exterior. O Brasil dos diplomatas Ruy Barbosa (o Águia de Haia) e de Graça Aranha, que sempre foi tido como um país de posição plena no processo de busca de conciliação nos conflitos internacionais. Quando comparou Israel aos nazistas, face a luta que o governo de Israel enceta contra o grupo terrorista Hamas, Lula criou um fato insustentável, ou como se diz no jargão da diplomacia “ultrapassou a linha vermelha”. Lula não pode improvisar. Está parecendo que ficou gagá.
    Para piorar a situação, depois que o governo de Israel declarou ele uma ‘persona non grata’, pirou de vez. Ao invés de buscar uma atitude mais equilibrada, tratou de chamar o embaixador do Brasil de volta. Está declarada a animosidade. Ele que vem quase sozinho defendendo maiores recursos para os palestinos, mesmo sabendo que a verba que chega tem sido desviada para o Hamas. Até a ONU está envolvida com as denúncias de que elementos que a representam estão envolvidos com o sequestro dos israelenses.
    A decisão aconteceu depois dele comparar ações de Israel na Faixa de Gaza ao extermínio de judeus na Segunda Guerra. A maior parte de comunidade internacional considera que a comparação do presidente brasileiro entre a guerra vista como justa de Israel contra o Hamas e as ações de Hitler e dos nazistas (foram exterminados mais de 6 milhões de judeus, além de negros, gays, ciganos, dentre tantos) foi um grave ataque antissemita e que profana a memória daqueles que morreram no Holocausto. No final da semana, Lula disse numa entrevista coletiva fora do país, na Etiópia, que era “genocídio” e “chacina” a resposta de Israel na Faixa de Gaza aos ataques terroristas promovidos pelo Hamas. Para nosso presidente a ação israelense é igualzinha ao extermínio de milhões de judeus pelos nazistas chefiados por Adolf Hitler no século passado. Um embaixador classificou Lula de desinformado, no mínimo.
    Lembra certa feita quando num encontro de líderes o rei Juan Carlos I de Espanha virando-se para o então presidente venezuelano Hugo Chávez durante a XVII Conferência Ibero-americano que só abria a boca para falar bobagens (Juan Carlos que também não é flor que se cheire, mas foi assertivo) disse na lata, no olho, na cara: “¿Por qué no te callas?”.
    É preciso estar repetindo isso pra Lula. Ficou feio mais uma vez para a imagem do Brasil. O país não tem dado sorte com seus presidentes. Mas tem uma boa equipe no Itamarati que pode jogar gelo na Aqua Vitae e amainar o fogo.
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    Escritor e jornalista. Autor do romance “A Peleja dos Zuavos Baianos contra Dom Pedro, os Gaúchos e o Satanás”; “Histórias da Bahia – Jeito Baiano” e “Baianidade”.

  • Rui e Jerônimo X ACM e Bruno e o racismo ambiental

    Por Jolivaldo Freitas

    Era boa a briga entre o então (hoje ministro) governador Rui Costa e ACM Neto para ver quem mais chegava junto da população suburbana e dos bairros mais carentes. Um fazia obra numa encosta e o outro corria para fazer também. Um abria um buraco o outro abria buraco maior. O governador levava meio metro de esgoto e o prefeito picava metro e meio. Essa “guerra” de conceituação eleitoral ou eleitoreira fazia bem para a cidade, mas se esvaziou quando Bruno Reis se elegeu e Rui ficou mais preocupado em eleger aquele que se dizia ser o seu “poste”, Jerônimo, para lhe suceder. Jerônimo supreendentemente eleito governador contra ACM Neto que ficou pasmo, como muita gente também ficou, arrefeceu a contenda para ver quem fazia mais obras na capital; se governo ou prefeitura.

    Abordo esse assunto por ter certeza que se não fosse a querela entre governador e prefeito em busca do voto suburbano, a situação na capital seria bem pior do que é hoje, como a ação do que se classifica como adventos ambientais, ou seja, a maluquice que está acontecendo com o tempo em todo o planeta, e, claro, Brasil e Bahia.

    Foi então que com os terríveis temporais que detonaram o Rio de Janeiro e mataram mais de uma dezena, o mesmo em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, uma ministra ressuscitou um tema que estava esquecido no passado. Na verdade, ela deu novas cores a um vocábulo que caracteriza a diferença de tratamento dos governantes entres as zonas Sul e as periferias: trata-se do “racismo ambiental”.

    Para que a expressão viesse à baila ressurgiu uma acusação (não achei a pesquisa e possa ser que eu não tenha sabido pesquisar direito) que as favelas e periferias são quinze vezes mais atingidas por desastres ambientais que outros bairros. Os apontadores observam não ser nada natural que isso ocorra em muitos municípios, bairros, periferias e favelas. Que esses sofram com consequências mais graves da chuva do que outros. A ministra que levantou a lebre diz que isso acontece porque uma parte da cidade, do estado, não tem a mesma condição de moradia, de saneamento, de estrutura urbana do que a outra. Ela disse mais: “Também não é natural que esses lugares tenham ali a maioria da sua população negra. Isso faz parte do que a gente chama e define de racismo ambiental e os seus efeitos nas grandes cidades”.

    O termo citado, na verdade, existe desde os anos 1980. Foi primeiro usado para caracterizar o fato da degradação e catástrofes ambientais e como as enchentes, secas e contaminação impactam mais severamente o povo da periferia. Notadamente a população negra que é forçada a viver em situação de risco. Existem até estudos que revelam ser o racismo ambiental algo cada vez mais presente no cotidiano das pessoas. Elas podem até não perceber, numa síndrome de Alice, quem sabe. Mas sente no corpo e na mente e no bolso.

    Não ter saneamento básico, coleta de lixo, rede de esgoto, acesso à água potável e instalação de aterros sanitários faz com que as comunidades de baixa renda – lá estão os negros e pardos – estejam suscetíveis do racismo ambiental.

    Voltando à prosa inicial, este ano é ano eleitoral e quem sabe se reinicie uma nova “guerra santa” entre estado e município, cada um querendo agradar mais que o outro a periferia, a favela, a população de baixa renda. Está tendo, mas sem a velha intensidade. Tudo bem que é uma forma torta de enfrentar e mitigar o racismo ambiental. Melhor que nada.

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    *Escritor e jornalista. Autor do romance “A Peleja dos Zuavos Baianos Contra Dom Pedro, os Gaúchos e o Satanás e “Histórias da Bahia – Jeito Baiano”.