Christiano Silva Britto: “O Poeta” e o Dia da Poesia

Postado em 14/03/2018 11:29

A poesia faz aniversário nesta quarta-feira. Qualquer um pode lhe dedicar poemas com métricas variadas, com versos regulares ou livres, ou mesmo com o ritmo que desejar. Mas este dia não deve passar em branco no calendário local, pois nascia, há cento e setenta e um anos, Antônio Frederico de Castro Alves, o “Poeta dos Escravos”, lembrado anualmente não apenas pelos baianos, mas também pelos demais brasileiros, com o Dia da Poesia.

E por falar em comemoração, o natalício do poeta baiano foi motivo para homenageá-lo em sessão especial na Câmara Municipal de Salvador, no distanciado ano de 1995. Convidados ilustres participaram da homenagem, a exemplo da historiadora Consuelo Pondé de Sena e do professor Elísio Brasileiro, e também o grupo “O Poeta”, que, na ocasião, realizou o lançamento de um jornal de mesmo nome, cuja proposta era oferecer um espaço dedicado especialmente à preservação da espécie.

A motivação de fundar um periódico veio das tentativas frustradas do empresário paulista Carlos Augusto Torres (1928-1997) para publicar alguns dos seus poemas na imprensa local. Indignado com a falta de espaço, arregaçou as mangas e organizou um grupo com o qual pudesse materializar a ideia de um periódico cultural, em formato tabloide, com publicação mensal. Aderiram à causa poética Alice Barbuda, esposa de Torres, o médico Ray Santana e a jornalista Bárbara Souza.

Poetas e poetisas interessados começaram a participar das primeiras reuniões que ocorreram na Galeria XIII, famoso ateliê pertencente ao artista plástico Deraldo Lima e que funcionava no Pelourinho. Depois desses primeiros encontros, foi publicado o primeiro número de “O Poeta”, cujo lançamento se deu na sessão especial da Câmara de Vereadores, em 1995.

Recursos e iniciativas

Empresário experiente, Carlos Torres se mobilizou em busca de apoio financeiro para a manutenção do jornal, já que era (e ainda é) impossível sobreviver apenas de poesia. Para compensar as lacunas financeiras que as verbas oficiais não cobriam, Torres disponibilizava os rodapés do tabloide para anúncios, prospectava assinantes e promovia campanha em trechos da orla marítima, vendendo castanha-de-caju para subsidiar as despesas básicas com o periódico.

Marketing cultural

Além do talento para fazer versos, Carlos Torres foi um bom marqueteiro. Sabia construir uma boa propaganda, sem apelar ao mau-caratismo. Hoje em dia, deve haver uma lembrança rarefeita de “O Poeta”, inclusive da sua proposta. A fim de destacar todas essas informações, vale a pena rever como se dava a aproximação entre o divulgador e o cliente:

“O/A Sr./Sr.ª já conhece o jornal ‘O Poeta’? Não? Apresento-o. É todo seu. Este jornal é o resultado de uma frustação. Uma frustação coletiva. Nós, poetas baianos, descobrimos consternados que, na Bahia, nenhum jornal publica poesia. Isto na terra de Castro Alves, Gregório de Mattos, Caetano, Gil e Caymmi. Caracteriza, no mínimo, um absurdo… pra não falar em heresia. Magoados com a discriminação, reunimo-nos e decidimos criar um jornal que só publica poesia. Não fala em crimes, em esporte e muito menos em economia. Só em poesia. Ele circula uma vez por mês e é distribuído gratuitamente e mantido por esta campanha (mostrar cartela) que nós, os poetas, fazemos nos fins de semana: estamos vendendo poesia por um real e dando como brinde castanha-de-caju torrada, tipo expor tação. (Pega o dinheiro, que a maioria dá depois de abrir um sorriso, e agradece.) Os poetas baianos agradecem. ”

Desfecho indesejado

“O Poeta”, infelizmente, teve curta duração, embora não fosse o desejo de seu idealizador. Enquanto Castro Alves viveu até 24 anos, o periódico baiano só durou dez números. Sete deles em formato tabloide e os três últimos em formato papel A4. Não foram os desafios financeiros que o levaram a encerrar as publicações, mas a morte trágica de Carlos Augusto Torres em sua residência, no bairro de Itapuã, vítima de dois criminosos, em 14 de fevereiro de 1997. A viúva Alice Barbuda, em homenagem póstuma, publicou uma edição especial, provavelmente uma tiragem bem limitada. Fica a dúvida se, em futuro próximo, vai haver reedição da obra “Croconemas – crônicas, contos e poemas litorâneos” e do romance “A árvore do diabo&rdq uo;, até então inédito.

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