Jorge Portugal: De cabeça para baixo

Postado em 29/03/2017 11:36

Fernando Cordioli Garcia.Ele é juiz, e em Santa Catarina é chamado de “juiz-coragem” por uns e “louco varrido” por outros.Para o povão, um herói; para os ricos e poderosos, um celerado.Costuma dizer em alto e bom som que justiça só existe para punir “ppp”,preto, pobre e prostituta. Com base nessa tese, passou a agir como deve fazer um magistrado de verdade.Aos fatos: mandou confiscar dois automóveis do prefeito-larápio, por desvio do erário e os leiloou em praça pública; o tal sujeito tentou fugir em um terceiro carro, e Cardioli acionou imediatamente a Polícia Rodoviária Federal para interceptá-lo ,na estrada e, via teleconferência, promoveu ali mesmo o leilão do terceiro carro do alcaide-ladrão fazendo-o voltar a pé de onde estava.Aos poderosos em falta com a justiça, eram aplicadas penas alternativas leves e, obviamente, nunca cumpridas.

Pois o juiz Cordioli passou a fiscalizar o cumprimento das tais penas, com uma decisão inédita: todo sábado ele convocava os apenados à sede da Polícia Militar e, pessoalmente, entregava uma pá a cada um e os fazia ajudar a tapar os buracos da cidade.

Resultado: por 49 votos num universo de 62, os desembargadores de Santa Catarina impuseram a Cardioli a submissão a exames psiquiátricos a fim de provar que ele é maluco, e assim exonerá-lo do judiciário.
Pudera! Em um país que apeou uma mulher honesta do poder, por um impedimento fajuto, votado por um circo de horrores com cara de congresso, para colocar no seu lugar uma verdadeira malta, não nos admira que um juiz honesto e corajoso seja também impedido de atuar, para que não ameace ricos, poderosos e corruptos.

O juiz Fernando Cordioli,é, portanto, um “péssimo exemplo” para o Brasil.Assim como o é um certo operário que chegou à Presidência da República e nos seus 8 anos de governo criou um patamar de dignidade para os pretos, pobres e prostitutas.Pessoas assim, serão sempre “péssimos exemplos” para a elite brasileira.

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Jorge Portugal é poeta, músico, professor e Secretario da Cultura da Bahia

(Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde)

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