Salvador, 15 de outubro de 2026
Editor: Chico Araújo

Professores-escritores da rede municipal de Salvador unem a paixão pela literatura e pela docência em experiências enriquecedoras

Fotos: Otávio Santos / Secom PMS

A escrita e a arte de ensinar foram vocações descobertas por Taísa Ferreira e Genivaldo Santos e aprimoradas ao longo dos anos. Com o passar do tempo, os dois professores da rede municipal de Salvador perceberam que poderiam unir essas paixões em experiências enriquecedoras com os alunos, dentro e fora da sala de aula. Hoje, com livros publicados, eles conciliam a docência com atividades de contação de histórias, curadorias, feiras e encontros literários.

Taísa, de 42 anos, é professora da rede municipal há 11 anos e conta que seu primeiro livro nasceu justamente do encontro entre a escrita e o ensino. Embora o gosto pela escrita tenha surgido ainda na infância, em um ambiente familiar muito voltado para a leitura e a produção de textos, foi durante o exercício da docência que ela publicou seu primeiro trabalho, desenvolvido em parceria com os alunos.

“Durante o trabalho como professora, com a responsabilidade de fomentar nos estudantes o gosto pela leitura e uma compreensão cada vez melhor do processo de escrita, eu conversei com uma amiga e ela me contou sobre o projeto Estrela Literária, que possibilita desenvolver com os alunos a escrita de um livro, a partir de uma parceria com a empresa. E o meu primeiro livro foi feito a partir desse projeto. Eu tive duas turmas na rede municipal que produziram livros e agora estou na terceira. Então, a escrita começa na minha infância, mas ela se entrelaça ao meu ‘ser professora’. Emerge esse lado escritora a partir da minha relação com a docência, a partir do momento em que eu fiz esse projeto com os meus alunos”, conta.

Atualmente, Taísa tem quatro trabalhos publicados. Além do primeiro livro, Construindo Estrelas Literárias, ela tem um conto publicado na coletânea infantojuvenil Contos para Erê, que reúne escritores e escritoras negras do Brasil; o livro As Memórias de Ojemba; e o conto Mashama e o Festival de Samba Junino, que integra a segunda coletânea da Liga do Dendê, publicada neste ano, Contos para Ibejada.

Após o trabalho com a Liga do Dendê, Taísa participou de diversas festas literárias, eventos, programas no YouTube e atividades fora da capital baiana. Atualmente, ela leciona nas turmas Se Liga e Acelera do período diurno da Escola Municipal Martagão Gesteira. Também atua como curadora literária da Festa Arte e Identidade, evento no qual articula a participação de outros professores da rede municipal interessados em lançar seus livros.

“Eu tenho tentado fazer esse trabalho que vai além de falar sobre o meu livro, mas também de buscar outras pessoas que são professores-escritores para falar sobre o trabalho que desenvolvem. Formamos, inclusive, um coletivo de professores e professoras escritores e escritoras da rede municipal de Salvador. Tem sido muito prazeroso, porque a cada ano temos um espaço para que os professores da rede municipal falem sobre os seus livros”, afirma.

Laboratório de aprendizagem – Para Genivaldo Santos, de 51 anos, professor-escritor premiado em Minas Gerais em 2024, ensinar é estar vivo e dar sentido a tudo em que acredita. “A sala de aula é o melhor lugar do mundo”, afirma. Ele também integra o Coletivo Baiano de Escritores(as) e Pesquisadores(as) da Liga do Dendê.

Para Genivaldo, a sala de aula é também um laboratório: “Aqui eu aprendo com os alunos, compartilhamos histórias, sentimentos, desejos, necessidades e vontades. Quando escrevo, não parto de uma ficção para a realidade, e sim de uma realidade vivida e experimentada. Escrevo vários estilos, porque temos que quebrar paradigmas. A escrita é livre e permite dizer aquilo que sentimos e também permite por alguns instantes viver o mundo que sonhamos”.

Genivaldo tem diversos livros publicados. O primeiro deles, Sofia e a Esfinge, foi escrito em 2003 e publicado em 2022, após a pandemia. Em 2024, a obra Sofia e o Relojoeiro ficou em segundo lugar na categoria Escritores Independentes da 19ª Flipoços. Seu trabalho mais recente é uma adaptação de Sofia e a Esfinge para a literatura de cordel.

Além de integrar o coletivo Liga do Dendê, Genivaldo trabalha suas publicações em sala de aula. Entre as obras utilizadas estão Sofia e a Esfinge, que narra a jornada de uma menina em busca do conhecimento, e O Machado de Xangô: Guerras e Glórias na Terra dos Orixás, que conta a história de Xangô, orixá da justiça e do trovão, em uma batalha épica contra Kianze, o Devastador, inimigo que ameaça o equilíbrio entre os mundos. A narrativa também resgata a sabedoria ancestral da tradição iorubá e explora conceitos como poder, honra, responsabilidade, espiritualidade e resistência da identidade afro-brasileira.

O trabalho de Genivaldo ocorre tanto na Escola Municipal Dois de Julho, em Cajazeiras, onde leciona para turmas do 1º ao 5º ano, quanto em outras unidades de ensino. “Eu já participei de vários encontros de escritores em escolas municipais, inclusive já fui homenageado na Escola de Bananeiras, em Ilha de Maré, em 2025. O que mais me deixa feliz na minha profissão é a oportunidade de construir um ecossistema de aprendizagem. O ofício de professor ocorreu por um equívoco na minha matrícula do Ensino Médio, eu pretendia cursar Administração. Na ausência de vaga, acabei me matriculando no magistério. Nunca mais quis fazer outra coisa. Eu sou professor porque acredito no poder transformador da educação”, conclui.

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