Em 1964, quando a noite caiu sobre o Brasil, eu tinha oito anos. Completaria nove em setembro, quase seis meses depois. Minha família era apolítica, mas a política entrou em nossa casa sem pedir licença.
Meu pai era operário da Petrobras. Depois do golpe, viu colegas de trabalho serem perseguidos e perdeu amigos — alguns afastados, outros separados pela desconfiança. A empresa, como documentou décadas depois a Comissão Nacional da Verdade, tornou-se um dos espaços de vigilância e repressão do novo regime: entre abril e outubro de 1964, foram instaurados cerca de 1.500 processos de investigação de funcionários, e 516 trabalhadores foram demitidos.
Não havia discussões políticas em casa. Os efeitos do golpe, entretanto, chegaram ao nosso cotidiano. Vieram os apertos financeiros. O salário de meu pai, acrescido de algumas gratificações, nos proporcionava uma vida confortável. Depois da intervenção militar, houve cortes e ajustes. Lembro de meus pais conversando sobre a necessidade de reduzir gastos porque, diziam eles, “a revolução” havia mexido na remuneração dos petroleiros.
Não tenho hoje um documento que me permita dizer exatamente qual parcela dos ganhos de meu pai foi reduzida. Mas sei que a sensação de aperto que marcou minha infância não nasceu do nada.
Foi um choque. Mudamos de bairro. Saímos de uma casa arrumadinha, de frente de rua, no IAPI, para uma tapera em ruínas, numa rua sem calçamento e com esgoto a céu aberto, na Capelinha de São Caetano. A insegurança rondava a família. Meu pai temia o desemprego e procurava garantir ao menos um teto para acomodar a filharada — entre 1964 e 1967, a prole dobrou: éramos três; passamos a ser seis.
Foram anos difíceis. Eu não acompanhava a política, mas sentia seus efeitos. Passei pelo ensino médio sem qualquer militância. Cheguei à universidade ainda sem engajamento político, mas já consciente de que alguma coisa muito grave acontecia no país.
Em 1978, quando comecei a trabalhar no Jornal da Bahia, comecei também a compreender o que, até então, eu só havia vivido. A palavra que ouvira desde criança — “revolução” — ganhou outro nome: golpe. E o jornalismo me revelou aquilo que a menina de oito anos não tinha como saber: o cerceamento das liberdades, a repressão, as prisões, a tortura, os mortos e desaparecidos.
Foram mais de 20 anos até que aquela longa noite começasse a terminar. A redemocratização devolveu ao país direitos e liberdades que haviam sido suspensos, e a Constituição de 1988 consolidou a nova ordem democrática. Promulgada em 5 de outubro daquele ano, a Carta definiu o Brasil como Estado Democrático de Direito e estabeleceu, entre seus fundamentos, a soberania e a cidadania.
Mais de seis décadas depois, olho para o Brasil e reconheço sinais que me inquietam. Não porque a história se repita exatamente — ela nunca se repete —, mas porque a democracia não é uma conquista que possa ser tratada como definitiva.
Quando a noite caiu sobre o país, eu tinha oito anos. Hoje, aos 71, tenho uma neta de nove anos — praticamente a idade que eu tinha quando tudo começou.
“É por ela, pelos meus outros três netos, por minha filha, por meu filho, por sobrinhos e sobrinhas que sinto o coração apertado diante do cenário que vivemos.
Eu sei o que significa crescer sem compreender inteiramente o que acontece ao redor e, ainda assim, perceber que alguma coisa mudou dentro de casa.
Foram 21 anos de ditadura. Minha geração atravessou aquela noite para recuperar a democracia. Não quero que meus filhos e netos precisem descobrir, como eu descobri, o preço de perdê-la.
*Jaciara Santos é jornalista, diretora da ABI-BA e do Sinjorba