A canção é um hino de resistência, especialmente no contexto da Ditadura Militar. Entenda em detalhes o significado do álbum
Por Beatriz Rego
Quando o álbum Clube da Esquina chegou às lojas, em 1972, o Brasil vivia seu período mais violento da Ditadura Militar. A censura aos artistas, especialmente após o AI-5, obrigou músicos e compositores a buscarem novas estratégias para falar do país. Foi nesse contexto que o coletivo mineiro liderado por Milton Nascimento e Lô Borges utilizou a música para trazer esperança aos corações dos brasileiros sonhadores, além de inaugurar um novo modo de pensar a MPB.
Em termos harmônicos, o disco rompe com o padrão previsível de composição do início dos anos 70. Milton e Lô inserem escalas menos comuns, sobrepõem acordes e criam mudanças inesperadas para ampliar o campo de escuta do público. Esse gesto também é político: entre 1969 e 1973, mais de 30% das letras enviadas ao Departamento de Censura foram alteradas ou vetadas. Sem poder falar diretamente sobre o país, o grupo usa da liberdade sonora para dizer o que não poderia ser dito.
Do ponto de vista poético, o álbum também adota uma estratégia indireta. As letras apostam em metáforas de estrada, vento, mar, infância e viagem, imagens que à resistência e à calma necessária para enfrentar a truculência da Ditadura Militar. É uma tática de sobrevivência: enquanto a MPB anterior trabalhava com a crônica social, aqui a crítica surge pela poesia, lembrando uma juventude sonhadora, indomável, que não tem medo de lutar. O objetivo não é explicar o Brasil, mas oferecer ao ouvinte uma experiência capaz de reorganizar seus afetos em relação ao país.

Além disso, essa lógica harmônica e poética moldou uma “gramática poética” que continua em artistas contemporâneos, como Maria Gadú, Tó Brandileone, Rubel e Marina Sena. A ideia de que a canção pode falar de política sem nomear diretamente o poder virou uma assinatura registrada da estética brasileira. Outro ponto, é que o disco reorganiza o mapa da MPB regionalmente. Num país em que o eixo Rio–São Paulo centralizava produção, crítica e legitimidade, o grupo mineiro funda uma nova estética e força o país a olhar para além do eixo tradicional.
Ao incorporar vozes regionais, ritmos mineiros, folias de reis, congadas e reverberações do jazz e do rock internacional, o álbum mostra que o interior também é uma potência musical. Com isso, cinquenta anos depois, “Clube da Esquina” segue como referência central na memória cultural do país. Em 2007, a revista Rolling Stone Brasil elegeu o álbum como o melhor disco brasileiro de todos os tempos. E em 2022, a edição comemorativa voltou às prateleiras e figurou novamente entre os 10 discos mais vendidos do país. É um caso raro da indústria fonográfica brasileira: um álbum criado sob censura, que permanece tão atual cinco décadas depois. É a prova de que a música é e sempre será uma das formas mais poderosas de resistência.