Salvador, 1 de agosto de 2026
Editor: Chico Araújo

Prêmio Dandaras de Abrantes celebra legado de mulheres negras da orla de Camaçari

Foto: Juliano Sarraf

A reverência à ancestralidade, reconhecimento e respeito às muitas histórias de mulheres negras que contribuíram, efetivamente, para a construção da comunidade de Vila de Abrantes, regeram a primeira edição do Prêmio Dandaras de Abrantes. O evento lotou o Teatro Tupinambás, no Colégio Estadual de Tempo Integral de Vila de Abrantes (CETIVA), na noite de sexta-feira (31).

Promovido pelo Centro Cultural de Vila de Abrantes, equipamento público diretamente ligado à Secretaria de Cultura de Camaçari (Secult), o projeto integra as ações do Julho das Pretas, com a missão de valorizar e celebrar a existência, por meio da resistência das mulheres negras que fortalecem a identidade e o desenvolvimento do território.

“Estamos aqui nesta noite com o coração transbordando e cheios de orgulho, em um momento tão significativo, pois a orla merecia esse protagonismo”, pontuou Carol Aragão, gerente do CETIVA e idealizadora do projeto junto às lideranças comunitárias de Abrantes que ajudaram, inclusive, na escolha dos nomes.

Ao todo, a premiação contou com 22 homenagens, entre as póstumas e as de personagens emblemáticas que ainda seguem costurando elementos do passado e presente, desenhando as próprias trajetórias. Professoras, lavadeiras, sambadeiras e baianas de acarajé fizeram parte da lista, graças aos trabalhos realizados e o que eles representam. Mulheres de Arembepe a Catu de Abrantes receberam a honraria.

A titular da Secult, Elci Freitas, destacou a importância da cultura para a construção social. “Hoje é dia de celebrar a história, reconhecer trajetórias e reafirmar a relevância da presença e da contribuição das mulheres negras na construção da nossa sociedade. A cultura é feita de memória, resistência e de pessoas que dedicam suas vidas para fortalecer as comunidades”, afirmou.

O principal objetivo da condecoração é devolver o protagonismo, visibilizar a dedicação e luta travada pelas mulheres premiadas e o legado deixado por cada uma delas. “Sou de Jauá, moro há 50 anos em Vila de Abrantes e a minha vida toda foi dedicada à educação e projetos sociais. Estou muito feliz e orgulhosa por receber esse prêmio e parabenizo a Prefeitura por essa iniciativa”, declarou a professora Hilda Costa, acompanhada pelo filho e neta, Acivaldo Costa e Isabelly Costa, respectivamente.

O evento foi definido como gratificante pela professora e escritora, Asenete Franco. “Sou filha de Abrantes, assim como meus pais. Ser reconhecida na minha cidade natal é motivo de muita gratidão. Esses são os frutos da minha história como educadora, militante antirracista, ativista dos direitos humanos, sobretudo em favor das mulheres, e candomblecista. Se estou aqui hoje, é graças ao meu alicerce ancestral. Tem um provérbio africano que diz que se você não sabe para onde vai, ao menos saiba de onde você vem e eu sei de onde eu vim”, finalizou.

A noite foi de emoção, mas também de saudades para Aris Batista, que recebeu a premiação póstuma, em nome da mãe Cizina Batista, mais conhecida como Doradinha, falecida há 14 anos. “Minha mãe lutou a vida toda, criou nove filhos sozinha, lavando roupa de ganho. Não tem quem não saiba quem foi ela, na comunidade. Eu também sou lavadeira e agradeço por ter me ensinado uma profissão. Queria muito que ela estivesse aqui, mas sei que de onde ela estiver está vendo esse reconhecimento”, revelou.

A cerimônia foi aberta e abrilhantada pela apresentação de alunas do curso de balé do CETIVA, comandado pela professora Debora Santana.

O evento encerrou as diversas atividades que compuseram a programação da pasta, em alusão ao Julho das Pretas. Criado em 2013, a mobilização política e social celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado em 25 de julho, data que, no Brasil, também é celebrado o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. A iniciativa busca dar visibilidade à luta contra o racismo, o sexismo e outras formas de discriminação, além de valorizar as contribuições históricas, sociais, culturais e políticas das mulheres negras.

INSPIRAÇÃO

O nome da premiação é inspirado em Dandara dos Palmares, uma das mais importantes referências da luta do povo negro no Brasil. Símbolo de coragem, liderança e resistência, Dandara representa a força das mulheres que enfrentam desafios cotidianos e seguem construindo caminhos de dignidade, justiça e igualdade para as futuras gerações. Assim como Dandara, as homenageadas são pilares que sustentam Vila de Abrantes, mantendo viva a cultura, educando as gerações e buscando um futuro com mais equidade.

A intenção é de que, a partir desta primeira edição, o prêmio integre o calendário oficial de eventos do município, consolidando-o como uma importante ação de valorização da memória, representatividade e protagonismo feminino negro, em Camaçari, fortalecendo referências e reafirmando a riqueza da diversidade cultural local.

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