Salvador, 24 de outubro de 2026
Editor: Chico Araújo

Tubarões Azuis dão lição de humildade e resiliência, diz Mayra Andrade

Cantora resume atuação de Cabo Verde na Copa

“Um momento fundador da nossa identidade coletiva”. Assim a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade, um dos maiores nomes da música lusófona contemporânea, resumiu a atuação da seleção de Cabo Verde na Copa do Mundo 2026.

Em sua primeira vez no mundial, os chamados Tubarões Azuis se despediram da competição na fase de 16 avos de final. Antes, porém, surpreenderam o mundo e conquistaram torcedores de outras nacionalidades ao empatar com duas campeãs mundiais (Espanha e Uruguai), eliminar a Arábia Saudita e enfrentar de igual para igual a tricampeã Argentina, de Lionel Messi, em uma das partidas mais emocionantes do torneio.

“Os Tubarões Azuis deram uma lição de humildade e de resiliência ao mundo”, afirmou Mayra em entrevista à TV Brasil e à Telesur, na última segunda-feira (6), dois dias após os cabo-verdianos serem eliminados.

“Não sou uma adepta do futebol, mas sempre assisti à Copa do Mundo. Está sendo uma descoberta gigantesca perceber o que é torcermos por uma bandeira. Para nós, cabo-verdianos, isto é inédito”, disse Mayra.

Para ela, os brasileiros – habituados à presença nas Copas – podem não compreender o sentimento que tomou conta do arquipélago formado por dez ilhas vulcânicas a 600 quilômetros da costa africana e dos milhares de cabo-verdianos espalhados pelo mundo. Isso ficou visível na festa com a qual os jogadores foram recebidos ao chegar a Cabo Verde, no domingo (5), dia em que se celebrava a independência nacional.

“Você acha que existe alguma coincidência nisso? Acho que não. Está tudo escrito”, refletiu a cantora. “Vocês são um país de futebol e estão [acostumados] com este nível de competição há muitos anos”, disse Mayra, revelando ter surpreendido a muitos amigos com seu entusiasmo.”

“Para nós, foi uma sensação indescritível, hilariante, potente, comovente. Uma coisa irracional que toma posse da gente. E que contagiou aos torcedores de outras equipes.”

Mayra estava no Hard Rock Stadium, em Miami, torcendo pela seleção de seu país contra a Argentina. Vibrou com cada lance, das defesas do goleiro Josimar Dias, o Vozinha, que, aos 40 anos, angariou milhões de seguidores nas redes sociais, aos dois belíssimos gols marcados por Deroy Duarte e Sidny Cabral. E embora tenha acreditado que a equipe podia derrotar os sul-americanos, não deixou o estádio triste com o resultado.

“[Nos vestiários] falei para os meninos, para o Vozinha. “A gente levou a Copa do Coração. Somos o Às de Copa deste mundial”, brincou a cantora, referindo-se ao naipe do baralho que representa o amor, entre outras coisas, e é ilustrado por um coração vermelho.

“Tem algo maior que isto? Não. Principalmente neste momento em que o mundo está de cabeça virada, está um caos”, refletiu a artista, admitindo que, para ela, a campanha da seleção de Cabo Verde no Mundial teve um efeito inesperado.

“Faz três anos que venho repostando [nas redes sociais] coisas que têm a ver com o genocídio, com a tremenda injustiça que está acontecendo no Oriente Médio, na Palestina. Esta foi a primeira vez que meu cérebro se desconectou deste caos. Hoje, acredito que a Copa também tem esta função de permitir uma rápida desconexão, um respiro, ainda que não possamos nos distrair totalmente das coisas fundamentais para a humanidade que estão acontecendo”, acrescentou Mayra.

Ela apelou por solidariedade internacional para com o povo venezuelano, atingido por sucessivos terremotos que mataram ao menos 3,8 mil pessoas e deixaram milhares de desaparecidos.

Mayra vê paralelo entre o recente sucesso dos Tubarões Azuis e o alcance da música e da cultura cabo-verdiana, representada por Cesária Évora (1941-2011) e caracterizada pelo sincretismo luso-africano.”

“Sinto um orgulho enorme de ser cabo-verdiana. Uma nação conhecida pela música, pelo trabalho de Cesária Évora, por sua cultura e, agora, por uma equipe de futebol”, disse a cantora, crente de que seu “petit pays” (do francês, pequeno país) tem um importante papel a desempenhar.

“Não o de ser o umbigo do mundo, mas pelo fato de sermos o primeiro povo criolo; o povo com uma das maiores diversidades genéticas do mundo, uma espécie de amostragem dos povos. Por isto, temos a responsabilidade de emanar coisas muito positivas”, finalizou a cantora.

Outros trechos da entrevista de Mayra Andrade vão ao ar no programa Caminhos da Reportagem sobre o arquipélago e a inédita participação da seleção cabo-verdiana na Copa do Mundo. O episódio vai ao ar na TV Brasil, na próxima segunda-feira (13), às 23h.

Agência Brasil

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