Salvador, 18 de janeiro de 2026
Editor: Chico Araújo

Carol Xavier, de Sussuarana, é eleita Deusa do Ébano 2026

Crédito: André Frutuoso/ Fafá Araújo/ Estúdio Casa de Mainha

Vencedora dedica a conquista à sua comunidade e reforça que a mulher preta precisa se permitir sonhar e viver o sonho, porque só sonhar não basta

Crédito: André Frutuoso/ Fafá Araújo/ Estúdio Casa de Mainha

De candidatas a princesas e de princesas a rainhas do Ilê Aiyê, os caminhos de Lorena Bispo e Carol Xavier se encontraram novamente em um dos momentos mais emblemáticos da 45ª Noite da Beleza Negra. Foi com muita emoção que Lorena passou o manto de Deusa do Ébano para Carol, com quem havia dividido o posto de princesa em 2024, selando no palco a continuidade de um legado coletivo.

Esse gesto deu o tom da cerimônia realizada no último sábado (17), inspirada no tema do Carnaval 2026 do Ilê Aiyê, que homenageia a herança ancestral do povo afro-indígena de Maricá e reafirma a importância de continuar contando as histórias daqueles que vieram antes. Na mesma noite, também saíram vencedoras Sarah Moraes (2º lugar) e Stephanie Ingrid (3º lugar), agora princesas do Ilê Aiyê.

A recém-eleita Deusa do Ébano 2026 do bloco Ilê Aiyê, Carol Xavier, tem 27 anos, é estudante de Jornalismo, empreendedora, dançarina, atriz, professora de dança afro infantil e orgulhosamente cria da comunidade de Sussuarana. Formada a partir de referências como sua orixá Ewá, sua família de Axé, sua mãe de sangue e o seu estilista Lucas Pissay, hoje também ocupa o lugar de inspiração e espelho para sua filha, Luara Ayo, de 6 anos.

Carol conta que Luara já traz a musicalidade na veia. A pequena se encantou pela percussão e, sempre que toca seus instrumentos, chama a mãe para dançar. “Isso me faz entender que também é um desejo dela que eu esteja nesse lugar, e que bom que agora eu estou”, comemora.

Um título muito batalhado – Antes de ouvir seu nome como vencedora do título de Rainha do Ilê Aiyê no último sábado (17), Carol já havia sido chamada ao pódio da Noite da Beleza Negra outras duas vezes. Ela conquistou o 2º lugar em 2023 e o 3º lugar em 2024, até que ano passado decidiu parar para ajustar a rota. “Eu dei uma pausa, dei uma respirada para entender o que estava faltando para chegar ao primeiro lugar, e agora estou de volta”.

Ao subir no palco para defender o título, Carol conta que trouxe sua comunidade junto com ela. “Muita gente trabalhou junto comigo para isso acontecer. Tive uma comunidade ao meu lado nesse processo. Quando a gente sonha junto, o voo é mais alto, mais bonito, e o resultado é muito mais esplêndido. Essas pessoas me motivaram a persistir, a não desistir, me fortaleceram, muita gente sonhou comigo”, conta ela.

Como mensagem de quem agora é realeza em um posto que há mais de 45 anos revoluciona a autoestima da mulher preta no Brasil, Carol defende que é preciso ter coragem para sonhar alto. “Sonhem mesmo, sonhem alto. Muita gente coloca a mulher preta no lugar de subalternidade para que a gente não se entenda enquanto mulher poderosa. Mas a gente é. Então venha buscar esse sonho, não fique aí sentada, eu vim buscar o meu sonho e estou aqui. Então, se permita sonhar e viver o sonho. Porque só sonhar não basta”.

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“Me encantei ao ver uma mulher negra bailando” – A segunda colocada no concurso Deusa do Ébano 2026, Sarah Moraes dos Santos, 28 anos, é auxiliar administrativa, moradora do bairro de Sussuarana, dançarina há mais de dez anos, mobilizadora sociocultural do seu bairro e também atua na área de Recursos Humanos.

Essa é a segunda vez que Sarah sobe ao palco para buscar o título de Rainha. Em 2024, considera que se saiu bem e decidiu continuar. Estava tão certa que conquistou o 2º lugar e agora é a Princesa do mais belo dos belos. “O que me fez não desistir foi que eu fiquei muito satisfeita e realizada com a minha entrega em 2024. Isso me estimulou e realmente valeu muito a pena retornar. Eu acho que, independente do resultado, independente do título, a gente precisa entender a grandiosidade que é participar de um processo como esse”, declara.

A relação de Sarah com o Ilê Aiyê é antiga e profundamente afetiva. Para ela, o bloco sempre foi uma referência e um espaço fundamental de formação, aprendizado e reconhecimento identitário ao longo da vida. Frequentadora dos eventos e admiradora do bloco desde a adolescência, Sarah conta que foi a partir desse vínculo afetivo e do contato com as histórias narradas nas músicas do Ilê que surgiu o desejo de participar do concurso. O encantamento veio principalmente pela força da dança e da representação feminina negra.

“O Ilê é uma casa de aprendizado, foi no período da minha adolescência que eu percebi o que realmente é ser uma jovem negra na sociedade, e eu me identifiquei com as canções, com as músicas, com as causas, e conheci mais sobre mim. Foi essa admiração, esse encanto de ver uma mulher negra bailando, dançando, representando e contando as nossas histórias a partir do corpo dela, da movimentação dela, que me fez ter essa vontade de também ser uma Deusa”.

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“Eu sou uma mulher antes do Ilê e outra depois do Ilê” – A terceira colocada no concurso Deusa do Ébano 2026, Stephanie Ingrid Silva Sousa de Deus, 24 anos, moradora do Nordeste de Amaralina, é dançarina, coreógrafa e arte-educadora. Ela participou do concurso por três anos consecutivos — 2024, 2025 e 2026 — e conquistou o terceiro lugar nas duas últimas edições. Com o resultado deste ano, Stephanie reafirma a conquista obtida em 2025 e segue ocupando o posto de Princesa, permanecendo no pódio e consolidando uma trajetória marcada por constância, preparo e amadurecimento artístico e pessoal.

“Nesses anos como princesa eu amadureci muito. O Ilê me ensinou muitas coisas para a vida. Eu sempre digo que sou uma mulher antes do Ilê e outra depois do Ilê. Agora, mais uma vez no pódio, sou uma Stephanie renovada, mais forte, mais confiante. O Ilê me ensinou a chegar e a sair dos lugares. Me ensinou a não abaixar a cabeça pra ninguém. Hoje eu sou uma mulher de cabeça erguida por causa do Ilê. Estou muito radiante por estar aqui mais uma vez”.

A ligação de Stephanie com o Ilê Aiyê atravessa sua história de vida e identidade. “O Ilê representa um encontro comigo mesma. É aqui onde eu consigo entender, viver e sentir a verdadeira Stephanie Ingrid. É onde eu me fortaleço, onde eu me reconecto com a minha ancestralidade e onde eu ganho força para continuar cada vez mais. Desde pequena minha mãe sempre me levava para ver o Ilê na avenida. Ela sempre dizia que um dia eu estaria ali sendo uma rainha. Isso foi plantando uma semente dentro de mim. Eu fui acompanhando o bloco até que um dia eu falei: eu tenho potencial para estar ali. E eu me joguei com cara e coragem”.

A 45ª Noite da Beleza Negra 2026 é uma realização da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê e do Governo Federal, com produção da Caderno 2 Produções e da Central Black Entretenimento. O evento conta com patrocínio do Grupo Belov, mantenedor do Plano Anual do Ilê Aiyê, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet, e da Bahiagás; apoio institucional da Prefeitura de Salvador, por meio do Procultura; apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, por meio do Edital de Eventos Calendarizados do Fundo de Cultura da Bahia, Secretaria da Cultura, Secretaria da Fazenda, e da Secretaria de Turismo; além do apoio da ITS Brasil, Ewwa Cosméticos, Macaco Gordo, Quality Hotel, Educadora FM e TVE Bahia.

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