Salvador, 5 de novembro de 2026
Editor: Chico Araújo

Dor na relação sexual não é normal: por que tantas mulheres ainda silenciam esse desconforto?

Condição afeta a saúde íntima, emocional e relacional feminina, mas ainda é cercada por tabus e subnotificação
Embora ainda seja pouco falada fora dos consultórios, a dor recorrente durante ou após a relação sexual é uma queixa mais comum do que se imagina e não deve ser tratada como algo normal. Conhecida clinicamente como dispareunia, a condição pode afetar mulheres em diferentes fases da vida e comprometer não apenas a vida sexual, mas também a autoestima, os relacionamentos e o bem-estar emocional.

Estudos brasileiros mostram a dimensão desse cenário. Uma revisão publicada na Revista Brasileira de Sexualidade Humana aponta que cerca de 30% das mulheres em idade reprodutiva e com vida sexual ativa convivem com dor pélvica e, entre elas, aproximadamente metade relata dor durante a relação sexual. Já um estudo com mulheres entre 18 e 35 anos identificou elevada prevalência de impacto na função sexual entre pacientes com dispareunia, com reflexos importantes, principalmente, na satisfação sexual e na qualidade de vida.

Apesar disso, o silêncio ainda acompanha grande parte dessas mulheres. Vergonha, falta de informação, medo de julgamento ou a crença de que sentir dor “faz parte” da experiência feminina acabam adiando a busca por ajuda especializada. Para a fisioterapeuta pélvica Priscila Barreto, esse é um dos principais desafios no cuidado com a saúde íntima feminina. “Dor durante ou após a relação sexual nunca deve ser considerada normal. Muitas mulheres passam meses ou até anos convivendo com esse desconforto sem falar sobre isso, porque acreditam que é algo esperado, hormonal ou até emocional demais para ser levado a sério. Mas a dor é um sinal do corpo e precisa ser investigada”, afirma.

Segundo a especialista, as causas podem ser múltiplas e envolvem desde alterações hormonais e ressecamento vaginal até hipertonia da musculatura do assoalho pélvico, cicatrizes pós-parto, infecções recorrentes, endometriose, menopausa e fatores emocionais associados. “O assoalho pélvico participa diretamente da resposta sexual feminina. Quando existe tensão muscular, contração involuntária ou dor nessa região, isso interfere no conforto, no prazer e na autoconfiança da mulher durante a relação. Por essas questões, a avaliação da saúde pélvica é de extrema importância e deve ser realizada de forma individualizada, detalhada e com um olhar integral para essa mulher”, explica Priscila Barreto. A especialista acrescenta: “Mesmo sem queixas, toda mulher com vida sexual ativa deve fazer uma avaliação com uma fisioterapeuta especializada, a fim de obter mais conhecimento e orientações sobre sua saúde pélvica. Autoconhecimento nunca é demais”.

Dentro desse contexto, a fisioterapia pélvica tem ganhado cada vez mais espaço como aliada no tratamento. A abordagem pode contribuir para aliviar dores, promover relaxamento muscular, melhorar a mobilidade e a percepção corporal, além de ajudar no processo de reconexão da mulher com o próprio corpo. “Muitas pacientes chegam ao consultório já evitando a intimidade, com medo da dor ou associando a relação sexual ao sofrimento. Quando elas entendem que existe tratamento e que esse desconforto pode ser cuidado, há também um importante resgate da autoestima, da autonomia e da qualidade de vida”, completa.

Falar sobre dor na relação sexual com mais naturalidade ainda é um passo necessário dentro da saúde feminina. Especialistas reforçam que desconfortos recorrentes durante a intimidade não devem ser minimizados, normalizados ou silenciados. Buscar avaliação profissional pode ser determinante não apenas para identificar a causa, mas também para devolver conforto, segurança e bem-estar à mulher. @pricilabarreto.fisio

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