O Equador adotou nos últimos anos uma estratégia de combate ao crime inspirada no modelo implementado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
A política ganhou força em janeiro de 2024, quando o presidente Daniel Noboa declarou que o país vivia um “conflito armado interno”.
Na ocasião, ele determinou que as Forças Armadas atuassem contra 22 organizações criminosas consideradas ameaças à segurança nacional.
A militarização conseguiu produzir resultados iniciais, principalmente dentro das penitenciárias.
No entanto, a redução da violência não se sustentou. Em 2025, o Equador registrou 9.216 homicídios, aumento de 30,48% em relação ao ano anterior.
O cenário fez de 2025 um dos períodos mais violentos da história recente do país.
Apesar do crescimento dos assassinatos, houve redução de aproximadamente 40% nas denúncias de extorsão e uma pequena queda nos registros de sequestro.
O governo de Noboa ampliou o uso de estados de exceção e reforçou a presença de militares e policiais nas ruas.
Outra medida foi a construção da prisão La Encuentro, apresentada como uma versão equatoriana do modelo penitenciário adotado por Bukele.
Especialistas, porém, questionam a eficácia da estratégia e afirmam que o Equador possui características muito diferentes de El Salvador.
A principal diferença está na estrutura do crime organizado.
Enquanto as gangues salvadorenhas possuíam estruturas mais centralizadas, as organizações equatorianas são mais fragmentadas e atuam em diferentes regiões.
Além do tráfico de cocaína, os grupos passaram a explorar atividades como mineração ilegal, tráfico de pessoas e armas, lavagem de dinheiro e extorsão.
Segundo análises de organizações especializadas, o crime organizado já se espalhou por mais de 150 dos 222 cantões do país.
A maior concentração da violência ocorre nas províncias costeiras, áreas estratégicas para o transporte internacional de drogas.
Entretanto, a expansão das atividades criminosas também alcançou regiões da Serra, Amazônia e até as Ilhas Galápagos.
A geografia equatoriana dificulta o controle territorial. O país possui áreas de difícil acesso e fronteiras consideradas vulneráveis.
Outro problema apontado por especialistas é a infiltração do crime organizado em setores da sociedade e do Estado.
Políticos, servidores públicos, profissionais liberais e integrantes do sistema de Justiça podem atuar, direta ou indiretamente, na estrutura de apoio às organizações criminosas.
A lavagem de dinheiro é considerada um dos principais mecanismos utilizados para manter essa estrutura.
Recursos obtidos com o narcotráfico e outras atividades ilegais são incorporados à economia formal por meio de empresas e negócios aparentemente legítimos.
Setores como o mercado imobiliário, comércio de veículos, agricultura e pesca podem ser utilizados para ocultar ou movimentar recursos ilícitos.
A situação econômica também contribui para o problema.
A desaceleração econômica registrada desde 2023 e o crescimento da informalidade favoreceram a expansão de atividades ilegais como fonte alternativa de renda.
Outro fator preocupante é a circulação de armas de fogo.
Entre 2020 e junho de 2025, foram registrados 29.305 homicídios dolosos no Equador, sendo 83,4% cometidos com armas de fogo.
A política de segurança privada também passou por mudanças importantes.
Desde 2023, o país flexibilizou regras para porte e importação de armas e ampliou a participação de empresas de segurança privada no combate à criminalidade.
Especialistas afirmam que esse processo contribuiu para uma espécie de privatização da segurança.
Nesse cenário, a capacidade de proteção passou a depender, em parte, do acesso individual a armas ou à contratação de serviços particulares.
Noboa também adotou medidas inspiradas em El Salvador, como a utilização de armas apreendidas de criminosos pelas forças de segurança.
Para especialistas, embora a iniciativa tenha apelo popular, ela pode gerar dificuldades técnicas relacionadas à padronização e ao controle dos arsenais.
As críticas ao modelo também envolvem direitos humanos e instituições democráticas.
A Corte Constitucional do Equador, por exemplo, contestou a classificação do cenário nacional como um conflito armado interno.
O governo de Noboa também enfrentou críticas de organizações de direitos humanos e setores da imprensa.
Para especialistas, o principal desafio do Equador é evitar uma abordagem baseada apenas na lógica de confronto entre “bons” e “maus”.
A avaliação é que a militarização pode ser necessária em determinadas situações, mas não resolve sozinha as causas estruturais da violência.
O fortalecimento das instituições, especialmente do sistema de Justiça, é apontado como fundamental para combater organizações criminosas.
O combate à corrupção e à lavagem de dinheiro também é considerado essencial para enfraquecer as fontes de financiamento das facções.
A experiência equatoriana mostra que simplesmente reproduzir medidas adotadas em El Salvador não garante os mesmos resultados.
As diferenças territoriais, econômicas e na estrutura das organizações criminosas tornam o cenário mais complexo.
Enquanto Bukele conseguiu reduzir drasticamente os homicídios em El Salvador após uma ampla ofensiva contra as gangues, o Equador continua enfrentando níveis elevados de violência.
O aumento dos assassinatos em 2025 indica que a estratégia adotada por Noboa ainda não foi suficiente para conter o avanço do crime organizado.
O desafio do governo agora é combinar ações de segurança com fortalecimento institucional, controle de armas, combate à corrupção e políticas capazes de reduzir a influência da economia ilegal.
O caso equatoriano coloca em debate os limites e as possibilidades de exportação do chamado “modelo Bukele” para outros países da América Latina.

