Salvador, 7 de agosto de 2026
Editor: Chico Araújo

Bexiga hiperativa: síndrome silenciosa afeta milhões de brasileiros, compromete a qualidade de vida e ainda é cercada por preconceito

Aquela vontade súbita e incontrolável de urinar, a necessidade de ir ao banheiro diversas vezes ao longo do dia ou de acordar repetidamente durante a noite para esvaziar a bexiga não fazem parte do envelhecimento normal e tampouco devem ser encaradas como um problema “sem solução”. Esses sintomas podem indicar a Síndrome da Bexiga Hiperativa (SBH), uma condição que atinge milhões de pessoas em todo o mundo e permanece silenciosa por causa do constrangimento, da desinformação e do medo de buscar ajuda.

Segundo diretrizes da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a síndrome acomete cerca de 17% da população adulta, percentual que aumenta com o avanço da idade. Alguns estudos apontam que mais de 20% dos adultos apresentam sintomas compatíveis com a condição. Considerando as estimativas populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), isso representa dezenas de milhões de brasileiros convivendo diariamente com o problema.

Embora seja mais conhecida entre as mulheres, a bexiga hiperativa também afeta homens e pode surgir em qualquer fase da vida. O principal sintoma é a urgência urinária – aquela sensação repentina de que é impossível esperar para urinar, podendo vir acompanhada de aumento da frequência urinária, necessidade de levantar durante a noite (noctúria) e perda involuntária de urina.

Para a fisioterapeuta pélvica Patrícia Lordêlo, pós-doutora em Ginecologia, o maior desafio ainda é romper o silêncio em torno da doença. “Muitas pessoas deixam de viajar, trabalhar, frequentar eventos ou até dormir bem porque vivem procurando um banheiro. É uma condição que compromete profundamente a qualidade de vida, mas continua sendo escondida por vergonha. Quanto mais cedo o paciente procura atendimento, maiores são as chances de controlar os sintomas e recuperar sua autonomia.”

Por que a bexiga hiperativa aparece?

Na maioria dos casos, não existe uma única causa. A síndrome está relacionada à contração involuntária do músculo da bexiga, mesmo quando ela ainda não está cheia. “Entre os fatores que favorecem seu aparecimento estão envelhecimento, obesidade, diabetes, doenças neurológicas, como Parkinson, AVC e esclerose múltipla; alterações hormonais, hiperplasia benigna da próstata, nos homens, consumo excessivo de cafeína, álcool e outras substâncias irritantes para a bexiga e enfraquecimento da musculatura do assoalho pélvico”, detalha Patrícia Lordêlo. Ela destaca ainda que fatores emocionais, estresse e ansiedade também podem intensificar os sintomas, tornando o tratamento multidisciplinar ainda mais importante.

É possível prevenir?

Nem todos os casos podem ser evitados, mas hábitos saudáveis reduzem significativamente o risco e ajudam a controlar os sintomas. “São bons exemplos: manter o peso adequado; fortalecer a musculatura do assoalho pélvico; controlar diabetes e outras doenças crônicas; evitar excesso de café, refrigerantes, bebidas alcoólicas e energéticos; manter boa hidratação, sem exageros; evitar prender a urina por longos períodos; procurar avaliação especializada aos primeiros sinais”, detalha Patrícia Lordêlo.

Além dos medicamentos

A fisioterapeuta pélvica conta que o tratamento é individualizado e pode incluir reeducação da bexiga, fisioterapia pélvica, treinamento comportamental, ajustes alimentares, medicamentos e, em situações específicas, terapias mais avançadas. Nesse contexto, a fisioterapia pélvica é considerada uma das principais estratégias conservadoras para reduzir a urgência urinária e melhorar o controle da bexiga, proporcionando ganhos importantes na qualidade de vida.

Segundo Patrícia Lordêlo, muitos pacientes apresentam melhora significativa apenas com mudanças de hábitos associadas ao fortalecimento da musculatura pélvica. “A pessoa não precisa conviver com esse sofrimento. Existem tratamentos seguros, eficazes e baseados em evidências científicas. O mais importante é abandonar a ideia de que perder urina ou viver correndo para o banheiro é algo normal”, reforça.

Atendimento pelo SUS e pesquisa de referência

Quem apresenta sintomas de bexiga hiperativa pode buscar atendimento, em Salvador, no Instituto Patrícia Lordêlo, que oferece assistência especializada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A instituição também abriga o grupo de pesquisa denominado Centro de Atenção ao Assoalho Pélvico (CAAP), que desenvolve estudos voltados ao diagnóstico, tratamento e reabilitação de doenças que atingem homens e mulheres, mas que ainda permanecem invisibilizadas pelo preconceito e pelo medo da exposição.

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