Salvador, 3 de setembro de 2026
Editor: Chico Araújo

IA pode ser aliada dos estudantes, mas uso consciente é essencial para preservar a aprendizagem

Desafio dos educadores é ensinar o aluno a utilizar a IA sem abrir mão da autonomia e da construção própria do conhecimento (Imagem Magnific)

A inteligência artificial já faz parte da rotina de muitos estudantes e começa a transformar também a forma de pesquisar, tirar dúvidas e realizar atividades escolares. Em 2024, a UNESCO lançou um marco de competências em IA para estudantes que reúne 12 itens em quatro dimensões, incluindo pensamento centrado no ser humano, ética e uso crítico da tecnologia. Em Salvador, para Débora Bove, diretora do Ensino Médio do Colégio Vitória-Régia, de Salvador, o desafio da escola é ensinar o aluno a utilizar essas ferramentas sem abrir mão da autonomia e da construção própria do conhecimento. “A IA pode ser uma excelente aliada da aprendizagem, desde que seja utilizada como ferramenta de apoio e não como substituta do pensamento do estudante. A informação pode vir rapidamente da máquina, mas o conhecimento é construído pelo ser humano”, afirma.

Entre os usos positivos da tecnologia estão a possibilidade de obter explicações complementares sobre determinado conteúdo, esclarecer dúvidas pontuais, adaptar estudos às necessidades individuais, revisar textos e estimular a geração de ideias para trabalhos e projetos. A ferramenta também pode ajudar o aluno a explorar diferentes formas de compreender um assunto, funcionando como um recurso adicional ao processo de aprendizagem. “O estudante pode, por exemplo, pedir uma explicação diferente sobre um conceito que não compreendeu ou utilizar a IA para revisar um texto que ele próprio produziu. O importante é que continue sendo protagonista do processo”, explica o professor Cláudio Paranhos, da disciplina de Biologia. A UNESCO também recomenda uma abordagem centrada no ser humano, com atenção à autonomia, à ética, à segurança e ao uso significativo da inteligência artificial na educação.

O uso indiscriminado, porém, pode produzir o efeito contrário e comprometer justamente as habilidades que a escola busca desenvolver. Delegar à IA a realização integral de uma atividade pode reduzir o esforço de pesquisa, a capacidade de selecionar informações, organizar ideias, argumentar e construir respostas próprias. Há ainda o risco de o estudante aceitar como verdadeira uma resposta produzida pela ferramenta sem verificar fontes ou questionar seu conteúdo. “Quando o aluno simplesmente somente copia, ele perde uma etapa fundamental da aprendizagem: o processo de pensar, testar hipóteses, errar, corrigir e construir uma conclusão. A tecnologia deve ampliar esse processo, e não eliminá-lo”, destaca o professor Cláudio Paranhos. O próprio marco da UNESCO enfatiza a necessidade de desenvolver nos estudantes julgamento crítico sobre quando e como a IA deve (ou não) ser utilizada.

Nesse cenário, a orientação da família e da escola torna-se fundamental para estabelecer limites e ensinar boas práticas. Entre elas estão utilizar a IA para tirar dúvidas, comparar explicações, organizar ideias e revisar produções próprias; conferir informações em fontes confiáveis; não apresentar como autoral um conteúdo produzido integralmente pela ferramenta; e respeitar as regras definidas por cada professor para atividades e avaliações. Para a orientadora educacional do Vitória-Régia, a questão não é proibir ou liberar indiscriminadamente, mas educar para o uso responsável. “A inteligência artificial já está presente na vida dos estudantes e precisamos prepará-los para conviver com ela de maneira ética e consciente. O objetivo é transformar a tecnologia em uma aliada poderosa da educação, sem permitir que ela se torne um atalho que comprometa a autonomia, a criatividade e a essência da aprendizagem”, conclui Débora Bove.

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