Capital paulista registrou recorde de escrituras de compra e venda em 2025, enquanto cidades que atraíram moradores durante a pandemia tiveram queda nas transações imobiliárias.
O avanço do trabalho presencial nos últimos anos tem contribuído para mudar a dinâmica do mercado imobiliário paulista. Em 2025, a cidade de São Paulo registrou o maior número de escrituras de compra e venda de imóveis de sua história. Em contrapartida, municípios do interior e da região metropolitana, que ganharam moradores durante a pandemia devido à expansão do trabalho remoto, apresentaram redução nas transações imobiliárias.
Levantamento do Colégio Notarial do Brasil – Seção São Paulo (CNB/SP), entidade que representa os tabeliães de notas, aponta que a capital registrou 90.402 escrituras de compra e venda em 2025, um crescimento de 49,6% em relação a 2020, primeiro ano da pandemia.
Já cidades que atraíram pessoas em busca de imóveis maiores, condomínios e mais espaço durante o período de trabalho remoto tiveram retração no número de escrituras entre 2021 e 2025. Itupeva registrou queda de 57%, seguida por Cotia, com 41%; Indaiatuba, com 36%; e Atibaia, com 31%.
Para a presidente do CNB/SP, Ana Paula Frontini, a retomada do trabalho presencial pode ter influenciado as decisões de mudança, mas não é o único fator responsável pelas alterações no mercado.
“O retorno ao presencial pode influenciar as escolhas, mas os números precisam ser analisados também à luz do crédito, da renda, da oferta de imóveis e da dinâmica econômica de cada cidade”, afirma.
Segundo a especialista em recursos humanos Daniele Malafronte, o movimento de retorno aos escritórios começou a ganhar força em 2023, quando grandes empresas passaram a exigir a presença dos funcionários. De acordo com ela, em 2026, menos de 5% das empresas ainda operam integralmente no modelo de home office.
Malafronte acrescenta que quatro em cada dez empresas mantêm o regime híbrido, com escalas e regras fixas de comparecimento, o que pode dificultar a permanência de trabalhadores em cidades distantes dos locais de trabalho.
Exigência de retorno aos escritórios
O estudo A Experiência Laboral 2026 no Brasil, realizado pela WeWork em parceria com a consultoria Offerwise, ouviu 2.500 profissionais em todo o país. Segundo a pesquisa, 63% trabalham presencialmente, e 79% desse grupo afirmam que o comparecimento ao escritório é uma exigência do empregador.
Quando podem escolher, porém, apenas 42% dos entrevistados dizem que optariam pelo trabalho presencial. Os demais preferem o modelo híbrido ou o trabalho totalmente remoto.
O deslocamento aparece como um dos principais obstáculos à volta voluntária aos escritórios. Para 65% dos participantes, o tempo gasto no trajeto é a maior dificuldade. Outros 53% apontam o aumento das despesas pessoais provocado pela necessidade de trabalhar presencialmente.
As condições dos ambientes corporativos também são citadas como problemas. Áreas barulhentas incomodam 57% dos entrevistados, enquanto 53% reclamam da falta de espaços para descanso.
A qualidade de vida também influencia as escolhas profissionais: 93% dos participantes consideram fundamental o equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho.
Para Malafronte, o modelo híbrido pode conciliar a convivência presencial com a redução dos deslocamentos.
“Os estudos já apontam que o retorno ao presencial não resultou no aumento de produtividade e gerou efeito negativo no engajamento e na atração de novos talentos”, afirma a especialista, que considera o regime híbrido uma alternativa para favorecer a integração entre os funcionários e diminuir o tempo gasto no trânsito.
Presencialidade varia conforme o setor
Dados da consultoria internacional de recursos humanos Robert Half indicam que a frequência de trabalho presencial varia de acordo com a área de atuação. Construção civil e engenharia estão entre os setores com maior presença nos escritórios, com média de 4,8 dias por semana.
Já o setor de serviços apresenta maior flexibilidade, com média de 3,3 dias presenciais por semana.
A diferença entre os modelos de trabalho ajuda a contextualizar as mudanças nas escolhas residenciais. Embora o retorno aos escritórios possa aumentar a preferência por imóveis próximos aos centros de emprego, fatores como crédito, renda e oferta imobiliária também influenciam o comportamento dos compradores.
