Salvador, 24 de outubro de 2026
Editor: Chico Araújo

Automedicação esconde riscos silenciosos à saúde

Prática comum é capaz de atrasar diagnósticos, causar intoxicações e favorecer reações adversas quando feita sem acompanhamento médico
Uma pesquisa divulgada pelo Jornal da USP aponta que cerca de 90% dos brasileiros já recorreram ao uso de medicamentos por conta própria, principalmente analgésicos, antitérmicos e anti-inflamatórios, na tentativa de aliviar sintomas sem buscar avaliação médica. O hábito se intensifica no inverno, quando cresce a circulação de vírus respiratórios e aumenta a procura por remédios para dor de cabeça, febre, congestão nasal e mal-estar, muitas vezes sem orientação profissional.
Essa prática está longe de ser inofensiva. Mesmo medicamentos isentos de prescrição podem causar eventos adversos e intoxicações quando usados de maneira incorreta, alerta o médico toxicologista e diretor técnico da Toxicologia Pardini do Grupo Fleury, que detém a Diagnoson a+ na Bahia, Dr. Alvaro Pulchinelli. “Todo remédio deve ser utilizado conforme as orientações de uso da bula, respeitando a dose, o tempo de tratamento e as possíveis contraindicações”, orienta.
Há ainda um efeito menos óbvio da automedicação prolongada: mesmo remédios de venda livre podem alterar o quadro clínico a ponto de dificultar uma avaliação médica precisa. “Os remédios isentos de prescrição têm papel importante no alívio de sintomas leves, mas quando o uso ocorre por tempo prolongado ou em doses superiores às recomendadas, podem mascarar manifestações clínicas importantes e retardar a busca por atendimento médico”, afirma o médico.
A combinação de medicamentos é outro ponto sensível, especialmente entre idosos e pacientes em tratamento contínuo. Introduzir um novo remédio sem orientação médica pode gerar interações perigosas. “Qualquer medicamento adicionado à rotina deve ser comunicado ao profissional de saúde, principalmente em pacientes com doenças crônicas dos rins e do fígado”, ressalta Dr. Alvaro Pulchinelli.
Os anti-inflamatórios estão entre os mais utilizados de forma inadequada, muitas vezes para alívio de dores e outros sintomas inespecíficos. Em tratamentos prolongados ou doses elevadas, aumentam o risco de lesões nos rins, sangramentos gastrointestinais e complicações cardiovasculares em grupos suscetíveis. “Podem irritar o estômago, alterar a coagulação sanguínea e afetar a função renal, principalmente em pacientes idosos ou aqueles que apresentam doenças crônicas dos rins”, garante o médico toxicologista.
Misturar medicamentos e álcool também é arriscado. Calmantes, relaxantes musculares e outros remédios que atuam no sistema nervoso central podem potencializar os efeitos da bebida, aumentando as chances de acidentes e intoxicações.
Outro hábito comum e igualmente perigoso é reaproveitar antibióticos guardados em casa. Além dos riscos ligados à conservação inadequada, a prática alimenta um problema de saúde pública: a resistência bacteriana. “A Organização Mundial da Saúde considera a resistência antimicrobiana uma das principais ameaças globais à saúde pública. O uso inadequado de antibióticos contribui diretamente para o surgimento de bactérias resistentes, tornando infecções comuns cada vez mais difíceis de tratar”, alerta.

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