Salvador, 21 de setembro de 2026
Editor: Chico Araújo

Brasil enfrenta grande desafio com a sífilis, apesar de avanços

Boletim Epidemiológico 2025 mostra sinais de estabilização, mas doença segue como alerta nacional – em Minas, índices continuam altos, sobretudo entre gestantes.

O mais recente Boletim Epidemiológico de Sífilis 2025, divulgado pelo Ministério da Saúde em outubro, revela que o País ainda enfrenta um desafio no controle da sífilis, especialmente pela transmissão vertical (de mãe para bebê), apesar de indícios de estabilização nos casos.

Em 2024, o Brasil registrou 256.830 casos de sífilis adquirida, com taxa de 120,8 por 100 mil habitantes. O índice manteve-se estável após um ciclo de forte crescimento entre 2014 e 2019, queda durante a pandemia (-23,2%) e retomada nos anos seguintes. O sexo masculino concentrou 61,3% dos casos (16 homens para cada 10 mulheres). A leve estabilidade observada em 2024 reflete a redução nas taxas da maioria das regiões, com exceção do Sudeste (+7,6%) e Nordeste (+3,6%).

Entre as gestantes, foram 89.724 casos – 35,4 por mil nascidos vivos, o que mantém a tendência de crescimento contínuo observada na última década, mas com desaceleração a partir de 2023. O Sudeste lidera com a maior taxa regional (43,7 por mil nascidos vivos), e o Rio de Janeiro ocupa o topo nacional, com 68,3 por mil.

No mesmo período, o Brasil notificou 24.443 casos de sífilis congênita, com taxa de 9,6 por mil nascidos vivos e 183 óbitos – coeficiente de mortalidade de 7,2 por 100 mil nascidos vivos. Apesar de leve redução recente, a sífilis congênita ainda é um dos principais desafios de saúde pública do País, com destaque para as regiões Sudeste e Nordeste, que concentram as maiores taxas (10,1 e 10,0 por mil). Estados como Tocantins (17,8) e capitais como Belém (27,9) e Fortaleza (24,7) apresentam índices alarmantes.

De acordo com a infectologista Dra. Melissa Valentini, do Grupo Fleury, detentor da Diagnoson a+ na Bahia, a sífilis é uma infecção evitável, com tratamento eficaz e protocolos bem estabelecidos. “O que falta é diagnóstico precoce e adesão ao tratamento, especialmente durante a gestação. Cada caso de sífilis congênita é uma falha evitável”, afirma. A especialista ressalta, ainda, que um em cada quatro bebês de mães com sífilis nasce infectado, segundo o indicador PQA-VS, o que reforça a necessidade de fortalecer ações de triagem e tratamento materno.

O aumento dos casos está ligado a baixa percepção de risco, falta de informação da população, desigualdade no acesso ao diagnóstico e tratamento, além do estigma associado às Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), fatores que dificultam a busca por atendimento e o controle da doença.

Situação na Bahia

Na Bahia, os índices permanecem abaixo da média nacional, mas ainda em níveis preocupantes. Em 2024, o estado registrou 11.661 casos de sífilis adquirida (78,5 por 100 mil habitantes), abaixo da média nacional (120,8). Entre gestantes foram 4.645 casos (27,3 por mil nascidos vivos), também inferiores ao índice do País (35,4).

O estado representa 6,7% dos nascimentos do Brasil e notificou 1.360 casos de sífilis congênita em 2024 – taxa de 8,0 por mil nascidos vivos, 16 vezes superior à meta de eliminação da OMS, que é de 0,5 por mil. Foram ainda 6 óbitos por sífilis congênita, com letalidade de 3,5 por 100 mil nascidos vivos.

“Esses números demonstram a necessidade de fortalecer o pré-natal, garantir testagem em todas as fases da gestação e assegurar tratamento adequado do casal. O combate à sífilis passa pela prevenção e pelo cuidado continuado da mulher e do bebê, alerta a Dra. Melissa.

Diagnóstico e prevenção

O diagnóstico da sífilis é feito por meio de testes sorológicos, divididos em dois grupos: treponêmicos e não treponêmicos. O Ministério da Saúde recomenda o modelo de testagem sequencial: primeiro o teste treponêmico e, se reagente, realiza-se o VDRL (não treponêmico) para avaliar a fase da doença.

Em gestantes, a testagem deve ser feita no início do pré-natal, no terceiro trimestre e no parto, assegurando o diagnóstico precoce e prevenindo a transmissão congênita. O tratamento com penicilina é altamente eficaz e está disponível gratuitamente na rede pública.

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