Dia das Mães: veja quando surgiu a data, sua transformação e as celebrações pelo mundo
Do ativismo pacifista nos Estados Unidos à força comercial no Brasil, entenda a origem do Dia das Mães e como a data ganhou novos significados com o passar das décadas.
O Dia das Mães é hoje uma das datas mais importantes do calendário brasileiro — tanto pelo seu peso simbólico quanto pela força no comércio. Mas por trás dos almoços em família, das campanhas publicitárias de margarina e dos abraços apertados, está uma história marcada por mobilizações sociais, disputas simbólicas e mudanças culturais ao longo do tempo. Por que não conhecê-la melhor?
Redação por Pedro Bispo, Ana Vitória, Catarina Lima e Dante Emmanuel
As origens da celebração
Embora o Dia das Mães, como conhecemos hoje, tenha ganhado força nos Estados Unidos apenas no início do século 20, suas raízes voltam mais algumas décadas na história.
A primeira tentativa formal de instituir a data aconteceu em 1872, quando a escritora e ativista Julia Ward Howe propôs o “Dia das Mães pela Paz”, com o objetivo de promover o pacifismo e refletir sobre os horrores da Guerra Civil Americana. À época, a comemoração era celebrada sempre no dia 2 de junho, especialmente nas cidades de Boston e Filadélfia. Porém, com a chegada da Primeira Guerra Mundial, ela perdeu força e foi parar na geladeira.
Outros nomes também contribuíram com ideias pontuais. A professora Mary Towles Sasseen, em 1887, chegou a escrever um manual para celebrar a data nas escolas (mas nunca passou do Kentuky), enquanto o ativista Frank Hering fez um apelo público por um feriado nacional, em 1904. Mas foi Anna Jarvis quem conseguiu transformar o desejo em realidade.
“Ela queria homenagear a própria mãe, Annh Jarvis, uma enfermeira voluntária durante a Guerra Civil e ativista que lutava por melhores condições de educação”, explica a historiadora Lilia Schwarcz. Inspirada nesse legado, Anna organizou, em 1908, a primeira comemoração oficial, na Virgínia Ocidental e em uma loja da Filadélfia. Com o apoio do empresário John Wanamaker, o evento reuniu 15 mil pessoas e distribuiu cravos brancos, que se tornaram o símbolo da data.
Foi seis anos mais tarde, em 1914, que o então presidente dos EUA, Woodrow Wilson, oficializou o segundo domingo de maio como feriado nacional. Surge o Dia das Mães.
O reconhecimento, no entanto, teve um gosto agridoce. Assim como Santos Dumont e Albert Einstein, que viram suas invenções sendo utilizadas pela guerra, ou — um pouco menos drástico — como Jenna Karvunidis, “idealizadora” (e atual hater) do chá revelação, Jarvis entra para a lista de inventores que perderam o controle de suas criações.
“A comercialização do Dia das Mães foi muito rápida e diz a história que a própria idealizadora teria o relegado. O intuito dela era que fosse mais uma questão sentimental, e o dia acabou envolto nessa operação de muito lucro. Jarvis criticava até quem mandava cartões postais, como se fizessem só pela formalidade. O certo seria fazer dedicatórias à mão.”, conta Schwarcz.
Ela passou os últimos anos da vida, inclusive, protestando contra a crescente comercialização da data que ela própria havia criado. Acabou morrendo em um sanatório, em 1948 — ironicamente, com o funeral pago por floristas.
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A chegada ao Brasil e a adaptação cultural
No Brasil, o Dia das Mães foi instituído oficialmente em 1932, por meio de um decreto assinado por Getúlio Vargas. A celebração já acontecia informalmente em cidades como Porto Alegre desde 1918 — pela Associação Cristã dos Moços do Rio Grande do Sul –, mas a oficialização ampliou sua presença no calendário nacional.
“A data é institucionalizada no governo Vargas, que tinha o objetivo de tornar o Brasil uma espécie de grande família, com o presidente como pai da nação”, explica Schwarcz. De acordo com a historiadora, a o ano de 1932 não foi escolhido à toa: é o mesmo em que o sufrágio universal feminino é decretado no país.
Ou seja, segundo Schwarcz, o que havia era um combate ao movimento feminista por parte do Estado, que previa fortalecer a imagem pública da mulher como mãe idealizando aquela que vive na domesticidade, que é submissa ao seu marido, e que representa os bons valores da sociedade.
Nesse contexto, a valorização da maternidade também se conectava à campanha de aproximação com a Igreja Católica, que havia proposto a inclusão da data no calendário religioso ainda nos anos 1920.
Segundo o professor Marcelo de Rezende Pinto, da PUC Minas, também é fundamental entender a data dentro de seu contexto histórico. “Ela coincide com a urbanização do país, o crescimento dos meios de comunicação e o avanço do varejo”, explica.
Com o passar dos anos, a figura materna também passou por transformações — saindo da imagem restrita ao lar para uma representação mais plural. Essa evolução se reflete na forma como a data é celebrada. Se antes os presentes estavam ligados ao ambiente doméstico, hoje prevalecem itens de uso pessoal.
“A mãe era vista como alguém que se sacrificava pela família, uma heroína abnegada, discreta”, diz Schwarcz. “Mas, com o tempo, esse ideal foi se transformando. Hoje temos mães que trabalham fora, mães solo, mães trans, madrastas”. Para a historiadora, a maternidade se pluralizou.
“Hoje não se dá mais uma panela para a mãe — isso não é mais bem-visto. O presente tem que ser para ela: uma roupa, uma maquiagem. A simbologia do cuidado e do afeto continua forte, mas com novos contornos”, completa Rezende.
Como a data é comemorada ao redor do mundo
Embora muitos países adotem o segundo domingo de maio, como Brasil, Estados Unidos, Japão e Austrália, a data varia bastante conforme o contexto local. Nossa reportagem separou alguns.
Reino Unido: celebra o chamado Mothering Sunday no quarto domingo da Quaresma, geralmente em março. A tradição começou como um dia em que fiéis voltavam à igreja-mãe da região, mas acabou evoluindo para homenagear as mães, com flores e almoços especiais.
México: o Dia das Mães é comemorado todo 10 de maio, independentemente do dia da semana. É um dos feriados mais importantes do país, com serenatas, refeições em família e homenagens nas escolas.
Tailândia: celebra-se o Dia das Mães em 12 de agosto, data do aniversário da Rainha Sirikit, considerada a “mãe da nação”. A data tem forte conotação patriótica e é celebrada com cerimônias oficiais.
Etiópia: em vez de uma data fixa, as comemorações acontecem durante o festival Antrosht, que ocorre no fim da estação chuvosa, entre outubro e novembro. Famílias se reúnem para cantar, dançar e preparar pratos típicos em homenagem às mães.
Rússia e ex-países soviéticos: durante a era soviética, o Dia da Mulher (8 de março) substituiu o Dia das Mães como principal celebração feminina. Até hoje, a data continua sendo a principal homenagem às mães em muitas dessas nações.
Da homenagem ao marketing
Desde sua criação, o Dia das Mães é cercado pelo debate entre seu princípio afetivo e o apelo comercial. A própria idealizadora quase morreu de desgosto, lutando contra a apropriação mercantil da comemoração.
Porém, não precisa ser leitor mais atento para perceber que os esforços da fundadora não foram tão bem-sucedidos. Pelo contrário, a data é carta marcada em qualquer e-commerce mundo afora.
No Brasil, a trajetória não foi diferente. O professor conta que a importância dada ao Dia das Mães coincide com o avanço do varejo e a proliferação dos meios de comunicação, intensificados a partir das décadas de 1960 e 1970 — até chegar ao auge, nos anos 1980.
“Hoje, o Dia das Mães é a segunda data mais importante para o comércio brasileiro, atrás apenas do Natal.”
Essa construção simbólica da maternidade, reforçada pela publicidade, manteve por décadas um perfil muito específico: “Uma imagem muito branqueada do que era ser mãe no Brasil, uma imagem de classe, marcada por uma certa família que se espelhava no predomínio da branquitude”, afirma Schwarcz.
Era uma visão que excluía mães solteiras, mães trabalhadoras, mulheres negras, indígenas ou periféricas — “uma visão muito seletiva desse Dia das Mães, que incluía algumas e deixava muitas de fora”.
Nos 1950 e 1960, a publicidade reforçava a imagem da mãe dona de casa, com presentes voltados à cozinha ou à limpeza. Hoje, o discurso publicitário acompanha as mudanças sociais e mostra mães independentes, vaidosas e bem-sucedidas.
“Muito recentemente, as propagandas de Dia das Mães apresentam outros modelos de corporalidade. Em geral, são mães brancas de famílias heteronormativas, cercadas de crianças brancas, com seu marido, em ambientes muito burgueses e das elites”, diz a historiadora.
Só nos últimos anos, com a pressão de movimentos negros e por inclusão social, é que novas representações começaram a aparecer. “Numa sociedade em que 55,5% da população é negra, mas as representações sociais são ainda muito brancas”, comenta.
O professor concorda: o novo perfil, exaltado nas campanhas, nem sempre representa a realidade da maioria das mulheres brasileiras. “A publicidade tenta captar esses movimentos, esses significados do que é ser mãe, mas sempre dentro de uma lógica que busca incentivar o consumo”, observa.


