Em 24 horas, enclave espanhol recebeu mais de 50 mil pessoas
Especialistas em relações internacionais divergem em relação ao papel de Marrocos na crise imigratória em Ceuta, cidade espanhola em território africano, que recebeu uma onda de mais de 50 mil imigrantes nos últimos dias, deixando cerca de 100 mortos.
O professor de História da África da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nuno Carlos de Fragoso Vidal, avalia que não seria possível uma imigração em massa, como a vista em direção à Ceuta, sem uma anuência do governo marroquino.
O acadêmico angolano ressaltou à Agência Brasil que o governo espanhol de Pedro Sanchéz tem se aproximado de grupos da esquerda que apoiam a independência do Saara Ocidental, território ocupado por Marrocos, mas que é reivindicado pela Frente Polisário, grupo apoiado pela vizinha Argélia.
“O rei de Marrocos [Mohammed VI] chateia-se com esse apoio e resolve retaliar. Certamente aquela imigração em massa teve a anuência das autoridades marroquinas, muito certamente por conta da Frente Polisário, que é profundamente apoiada pelas forças de extrema esquerda da Europa”, disse.
Controle
O especialista em Europa e ex-senador pela Itália em 2006, o ítalo-brasileiro José Luís Del Roio, avalia que o governo marroquino controla muito bem todo o território, sendo uma espécie de Estado policial, podendo bloquear a movimentação de grandes contingentes de pessoas.
“Não é possível que deixem 80 mil jovens saírem correndo e não fazem nada. Se não fazem nada, é porque não quiseram fazer nada. O sistema marroquino é muito rigoroso no controle territorial. Então existe conivência, sim, do governo marroquino”, afirmou.
Para o analista de geopolítica Del Roio, a imigração em massa foi “evento programado por forças poderosas”, sendo Israel “o grande suspeito”. “Primeiro, porque tem a capacidade de fazer isso e, segundo, porque Israel está furioso com a posição do governo espanhol em relação a Gaza e Cisjordânia”, disse.
Marrocos é um dos países que assinou o Acordo de Abraão, pacto entre Tel Aviv e países árabes usado para normalizar as relações com Israel, independentemente da questão palestina.
Juventude sem expectativa
Por outro lado, o professor marroquino de relações internacionais Mohammed Nadir, da Universidade Federal do ABC paulista (UFABC), ressaltou à Agência Brasil que não há indícios do envolvimento de Marrocos na avalanche humana.
Nadir lembra que o governo Sanchéz reconheceu o projeto de Marrocos para o Saara Ocidental em 2022, o que teria aplacado as hostilidades do país africano contra o governo Sánchez.
Para ele, que estava em visita a Marrocos quando a crise estourou, o acontecimento tem relação com a falta de expectativa de futuro da juventude marroquina e expressa o fracasso do projeto de desenvolvimento do país em alcançar essa parcela da população.
“O que tenho visto aqui na rua é o mal-estar em relação ao aumento custo de vida, falta de oportunidades e o difícil acesso à saúde pública. Tudo isso faz com que a população marroquina sonhe em emigrar para Europa em busca de melhoria de vida”, disse.
Inteligência espanhola
Os serviços de inteligência espanhóis concluíram, segundo apuração do jornal espanhol El País, que Marrocos não teria planejado a imigração em massa. Porém, o governo de Rabat teria permitido a movimentação dos jovens em seu território, usando a situação politicamente a seu favor.
A inteligência do país europeu concluiu que a omissão do governo de Rabat – capital de Marrocos –, foi um ato de “oportunismo” frente a uma crise que já estava em marcha.
Em 2021, Ceuta foi o destino de outra onda imigratória de Marrocos, quando mais de 10 mil pessoas cruzaram a fronteira. Ao contrário da situação atual, naquela época a Espanha acusou Rabat de promover a imigração ao enfraquecer os controles fronteiriços.
Os acontecimentos em Ceuta têm sido usados para reforçar a defesa de uma política anti-imigração mais rígida na Europa. O governo de Donald Trump chegou a responsabilizar as políticas da Espanha por “facilitar a imigração ilegal em massa para a Europa”.
Ceuta e Melilla
O professor da UFRJ Nuno Carlos de Fragoso Vidal, por outro lado, rejeitou a hipótese de que o Rei Mohammed VI estaria sendo uma “marionete” do governo Trump ou de Israel.
Analistas têm levantado essa hipótese devido ao fato de a Espanha ter sido o único país da Europa a se opor abertamente a guerra contra o Irã, tendo fechado o espaço aéreo do país para aeronaves militares dos EUA.
Para o especialista da UFRJ, a anuência marroquina com a imigração tem relação com questões referentes ao próprio Estado de Marrocos. Ele acrescentou que Ceuta, assim como Melilla, é um enclave Espanhol em território Marroquino, e as duas cidades são reclamadas pelo país africano há décadas, sendo estratégico no controle do Estreito de Gibraltar.
“Em uma altura em que o controle dos estreitos está a ganhar importância geopolítica e geoestratégica, Marrocos pode também estar a criar problemas por conta dessa reclamação”, ponderou Vidal.
Ainda para o professor de História da África, o fato de a Espanha ter reconhecido o projeto de Marrocos para o Saara Ocidental não pacificou a relação entre Rabat e Madri.
“Deveria ter pacificado as relações, mas Sanchéz tem se aproximado das alas mais radicais da esquerda espanhola que o sustentam no poder, e esses puxam por uma agenda pró-Sarauí [do povo do Saara Ocidental]”, comentou Nuno Vidal.
A visita do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez à Argélia no mês passado, e o avanço no congresso da Espanha de projeto que prevê nacionalidade espanhola para saarauis que nasceram durante a ocupação espanhola, até 1976, têm sido apontados como motivos para atritos com o país africano.
Espanha elogia Marrocos
O governo da Espanha tem elogiado a postura do governo marroquino durante a crise de imigração, dizendo que Rabat, diferentemente de 2021, estaria colaborando com Madri para deportação dos imigrantes irregulares.
“Desde o início, Marrocos ofereceu sua cooperação para tentar impedir esse fluxo de pessoas e, sobretudo, garantir seu retorno. A grande maioria dos que entraram já retornou a Marrocos, e o país continua oferecendo essa cooperação”, disse o ministro das relações exteriores José Manuel Albares, em entrevista à RTVE.
Ao mesmo tempo, Albares acusa grupos “reacionários” internacionais de mobilizarem as redes sociais contra a Espanha.
Para o analista José Luís Del Roio, o governo espanhol não acusa diretamente Marrocos para evitar o aumento das tensões com o país africano, uma vez que precisa da colaboração dos marroquinos.
“Eles sabem perfeitamente qual é o quadro. Mas essa é uma decisão de não aumentar a tensão, porque já tem muita tensão, com EUA, com os europeus. É uma situação difícil”, comentou.
Por outro lado, o presidente da cidade autônoma de Ceuta, Juan Jesus Vivas, afirmou ontem que “Marrocos já demonstrou que não é confiável”.
Em declaração ao jornal El País, Vivas acrescentou que Marrocos não “quer” ter boas relações e pediu que Espanha e a Europa exijam respeito do Marrocos em relação as fronteiras.
Marrocos se manifesta
Neste domingo (2), o governo do Marrocos se pronunciou oficialmente pela primeira vez desde o início da crise de imigração em Ceuta e Melilla. O porta-voz do ministério do interior do país africano disse que a crise foi resultado da disseminação de notícias falsas.
“Estes acontecimentos não se devem a fatores circunstanciais ou espontâneos, mas sim ao resultado da interação de vários fatores interligados”, disse Rachid El Khalfi, em declaração à imprensa.
Segundo ele, houve “a instrumentalização tendenciosa” das redes sociais com disseminação de notícias falsas “que visavam criar a ilusão de fácil acesso ao espaço europeu sem consequências legais”.
Agência Brasil
