Salvador, 23 de outubro de 2026
Editor: Chico Araújo

Infarto pode ocorrer mesmo sem artéria entupida

Foto: Lorena Venturini

Condição conhecida como MINOCA representa até 10% dos infartos e exige investigação para identificar a causa

Dor no peito, alteração no eletrocardiograma e elevação da troponina podem indicar um infarto. Mas, em alguns pacientes, o cateterismo não encontra uma obstrução significativa nas artérias coronárias. A situação é conhecida como MINOCA — sigla em inglês para infarto do miocárdio sem obstrução das artérias coronárias — e mostra que nem todo infarto acontece porque uma artéria ficou completamente entupida.

De acordo com a Diretriz Brasileira de Doença Coronariana Crônica de 2025, o MINOCA representa cerca de 5% a 10% dos casos de infarto agudo do miocárdio. Entre as possíveis causas estão espasmos das coronárias, alterações da microcirculação, formação de pequenos trombos, dissecção espontânea da artéria e ruptura ou erosão de placas que podem não ser percebidas claramente no cateterismo convencional.

“O cateterismo é fundamental para mostrar se existe uma obstrução importante, mas, quando ela não aparece, isso não significa que o paciente não teve um infarto. O MINOCA é um diagnóstico que exige investigação para descobrir qual mecanismo provocou a lesão cardíaca”, explica o cardiologista intervencionista Sérgio Câmara.

Exames ajudam a descobrir a causa – Além do cateterismo, exames mais detalhados podem ser necessários. A imagem intravascular é um deles. Tanto a a tomografia de coerência óptica (OCT) quanto o ultrassom intracoronário (IVUS), realizada por dentro da coronária e capaz de produzir imagens de alta resolução da parede do vaso, identificam alterações discretas, como sinais de instabilidade de placas de gordura e/ou pequenos trombos. A ressonância magnética cardíaca também tem papel importante porque avalia o músculo cardíaco e ajuda a diferenciar o MINOCA de doenças que podem imitar um infarto, como miocardite e síndrome de Takotsubo.

Estudo multicêntrico publicado na revista científica Circulation em 2026 mostrou que a combinação de OCT/IVUS e ressonância cardíaca permitiu esclarecer a causa do quadro em 79% dos pacientes avaliados. “Os exames são complementares. Enquanto OCT/IVUS permitem enxergar detalhes da coronária que podem passar despercebidos na angiografia, a ressonância mostra o padrão de lesão do músculo cardíaco. Identificar a causa é essencial para definir a melhor conduta”, destaca Câmara.

O especialista chama atenção, ainda, para um equívoco comum: considerar que um cateterismo sem grandes obstruções significa que o coração está saudável. “Quando existe evidência de lesão do músculo cardíaco, não podemos simplesmente encerrar a investigação porque não encontramos uma artéria entupida. É preciso entender o que aconteceu. Muitas vezes, a resposta está na parede da coronária, na microcirculação ou em alterações funcionais do vaso”, acrescenta.

Mais frequente entre mulheres – O MINOCA merece atenção especial entre as mulheres. A diretriz brasileira aponta que a condição é proporcionalmente mais frequente entre mulheres jovens com infarto do que entre homens. Algumas de suas causas, como a dissecção espontânea da coronária e alterações da microcirculação, também apresentam maior associação com o sexo feminino.

Apesar da ausência de uma grande obstrução coronariana, o MINOCA não deve ser considerado um quadro benigno. Estudos de acompanhamento mostram que esses pacientes continuam sujeitos a novos eventos cardiovasculares e precisam de seguimento médico. Por isso, sintomas sugestivos de infarto — como dor ou pressão no peito, falta de ar, suor frio, náusea ou mal-estar intenso — exigem avaliação de emergência, independentemente da idade ou do sexo.

O tratamento varia conforme o mecanismo identificado. Pacientes com espasmo coronariano, alterações de placa, disfunção microvascular ou dissecção, por exemplo, podem necessitar de estratégias diferentes. “O MINOCA não é uma doença única. Por isso, não existe um tratamento igual para todos. Descobrir o que provocou o infarto é o que permite direcionar a terapia e prevenir novos eventos”, conclui Sérgio Câmara.

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