O ortopedista David Sadigursky, explica como a perda rápida de peso pode afetar massa muscular, força e recuperação física
O uso de medicamentos para emagrecimento, como o Mounjaro, por atletas profissionais têm ampliado o debate dentro da medicina esportiva, especialmente após a divulgação de casos recentes no futebol brasileiro. Para o ortopedista David Sadigursky, especialista em joelho e trauma do esporte, o tema exige uma análise técnica cuidadosa, baseada na fisiologia do esforço e nos efeitos da perda acelerada de peso sobre o sistema musculoesquelético.
A discussão ganhou visibilidade após se tornar público que o São Paulo Futebol Clube utilizou o medicamento em atletas e registrou mais de 70 casos de jogadores lesionados ao longo da temporada. Em nota, o clube informou que o uso do fármaco foi pontual, restrito a dois atletas, e não há comprovação de relação direta entre a medicação e o aumento das lesões.
Segundo David, embora não seja correto estabelecer uma relação causal direta entre o uso de medicamentos para emagrecimento e o surgimento de lesões, existem efeitos indiretos que precisam ser considerados, sobretudo em atletas submetidos a altas cargas físicas. “Quando a perda de peso ocorre de forma rápida, existe o risco de redução não apenas de gordura corporal, mas também de massa muscular, caso não haja acompanhamento rigoroso. No esporte de alto rendimento, essa musculatura é essencial para absorver impacto e estabilizar as articulações”, explica.
De acordo com o especialista, a diminuição de massa e força muscular altera a distribuição de carga durante o movimento. “Quando o músculo perde eficiência, tendões, ligamentos e cartilagens passam a receber uma sobrecarga maior. Isso pode favorecer lesões musculares, tendinopatias e dores articulares, especialmente em esportes como o futebol, que exigem acelerações, desacelerações e mudanças rápidas de direção”, detalha.
A perda acelerada de peso também pode interferir na recuperação física. Atletas de alto rendimento dependem de disponibilidade energética adequada para treinar, competir e se recuperar, e alterações metabólicas significativas podem comprometer os processos de regeneração tecidual, aumentando a vulnerabilidade do organismo, sobretudo em calendários com grande volume de jogos.
Nesse contexto, o aumento de lesões no esporte profissional reforça um princípio central da medicina esportiva: trata-se de um fenômeno multifatorial. Carga de treino, histórico prévio de lesões, qualidade do sono, nutrição, força muscular e controle neuromotor atuam de forma integrada, e qualquer intervenção — medicamentosa ou não — precisa ser avaliada dentro desse conjunto e acompanhada de maneira multidisciplinar.
Para David Sadigursky, o debate evidencia a importância do equilíbrio entre condicionamento físico, controle de carga e recuperação. No alto rendimento, pequenas variações na composição corporal ou no metabolismo podem gerar impactos significativos no desempenho e na saúde do atleta, o que torna essencial uma tomada de decisão individualizada, monitorada e constantemente reavaliada.
Sobre David Sadigursky
David Sadigursky é ortopedista graduado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, mestre em Cirurgia do Joelho pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorando pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP). Ele realizou fellowship em Doenças da Cartilagem e trauma esportivo na Harvard Medical School, em Boston, EUA, e em cirurgia ortopédica de artroplastia do joelho no Hospital CLINIC, em Barcelona, Espanha. Possui pós-graduação em Clínica da Dor pelo CTD e em Intervenção em Dor pela Universidade da Coreia, em Seul. É membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) e da Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte (SBRATE). Participa ativamente da Sociedade Internacional de Artroscopia, Cirurgia do Joelho e Esporte (ISAKOS) e é membro associado das sociedades de dor e medicina regenerativa, como SBRET, SBED e SOBRAMID. Atualmente, é sócio da Clínica Omane e diretor do centro de estudos em terapias celulares.