O escritor e autor de novelas Manoel Carlos morreu neste sábado (10), aos 92 anos. Ele estava sob cuidados médicos desde julho de 2025. A causa da morte não foi divulgada, e o velório será restrito a familiares e amigos próximos.
Ícone da dramaturgia nacional, Manoel Carlos — conhecido carinhosamente como Maneco — vivia recluso nos últimos anos. Com a saúde fragilizada, o autor enfrentava a doença de Parkinson, enfermidade que compromete principalmente o sistema motor. Sua obra marcou gerações e deixou personagens e histórias emblemáticas na televisão brasileira.
Maneco e as “Helenas”
Manoel Carlos ocupa um lugar único na história da teledramaturgia brasileira por ter elevado o cotidiano à condição de matéria-prima nobre da ficção. Em um gênero frequentemente marcado por reviravoltas grandiosas, vilões caricatos e conflitos espetaculares, ele seguiu na direção oposta: apostou no simples, no diálogo íntimo, nas pequenas dores e alegrias que atravessam a vida comum — especialmente a da classe média urbana.
Paulistano, transformou o sofisticado Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, no cenário recorrente de suas tramas. Era ali que circulavam suas protagonistas, quase sempre mulheres intensas, apaixonadas e impulsivas, cujas emoções conduziam a narrativa.
Conhecido como Maneco entre os mais próximos, o autor demonstrou uma compreensão profunda dos sentimentos humanos e fez da novela um espaço de reflexão sensível sobre o valor da vida, das pequenas felicidades e dos gestos cotidianos que muitas vezes passam despercebidos.
Suas histórias não dependiam de acontecimentos extraordinários. Bastava um término amoroso, um conflito familiar ou uma frustração profissional para impulsionar a trama. Essa escolha dramatúrgica aproximava o público dos personagens, que pareciam pessoas reais, versões ficcionais de nós mesmos.
Outro traço marcante de sua obra era a forma como abordava as emoções. Poucos autores souberam dar voz com tanta precisão às contradições afetivas, às fragilidades e às obsessões do amor. Seus personagens amavam demais, sofriam demais, erravam demais — e, justamente por isso, tornavam-se tão humanos, compreensíveis e até perdoáveis.
As célebres Helenas consolidaram-se como um arquétipo da mulher sensível, dividida entre o amor romântico e as exigências da vida adulta, refletindo conflitos vividos por gerações inteiras de telespectadoras.
Manoel Carlos também foi fundamental para firmar o horário nobre da Globo como um espaço de diálogo social. Sem recorrer ao discurso panfletário, abordou temas como a solidão dentro do casamento, o papel do idoso na família, a ascensão do negro à elite, a rivalidade feminina por afeto, os limites do amor materno e as relações por vezes tóxicas entre mães e filhas.
Ao tratar essas questões com delicadeza e profundidade psicológica, contribuiu para que o público se reconhecesse, refletisse e levasse esses debates para além da tela.
Poeta da rotina, Manoel Carlos mostrou que as grandes histórias quase sempre estão escondidas nas vidas mais comuns. Ele enxergava interesse e beleza onde muitos viam apenas o banal.