Reumatologista Dra. Ana Luísa Pedreira explica por que a inflamação da psoríase não fica restrita à pele, e por que até 30% dos pacientes podem desenvolver artrite psoriásica, uma evolução que exige diagnóstico precoce.
Quem vive com psoríase está acostumado a cuidar da pele: hidratar, evitar o sol em excesso, acompanhar com o dermatologista. Mas a doença vai muito além disso: mesmo quando as lesões aparecem só na superfície do corpo, a inflamação por trás delas já está circulando por dentro. Segundo uma metanálise que reuniu estudos observacionais, pessoas com psoríase cutânea grave têm até 70% mais risco de infarto e 56% mais risco de AVC do que quem não tem a doença, mesmo sem outros fatores de risco cardiovascular tradicionais e mesmo sem jamais ter sentido dor nas articulações. Nos casos mais leves, o aumento de risco é mais discreto: 29% para infarto e 12% para AVC.
Uma inflamação que não fica só na pele
A explicação médica é que a psoríase, já em sua forma cutânea, é uma doença inflamatória sistêmica, não uma condição restrita à superfície do corpo. É essa mesma inflamação persistente que, nos quadros moderados a graves, eleva o risco cardiovascular, independentemente de a pessoa ter ou não comprometimento articular. Em uma parte dos pacientes, porém, essa inflamação avança também para as juntas: estimativas médicas apontam que até 30% dos pacientes com psoríase cutânea desenvolvem artrite psoriásica, forma da doença que causa dor, inchaço e rigidez nas articulações. Reconhecer esses sinais precocemente é decisivo: o diagnóstico e o tratamento no início aumentam as chances de controlar a doença, preservar a função articular e evitar danos estruturais irreversíveis. É por isso que a avaliação reumatológica se torna essencial diante de qualquer suspeita de acometimento articular: o acompanhamento de um reumatologista, em conjunto com o dermatologista e outros especialistas, permite tratar a doença de forma integrada, olhando para a pele, para as articulações e para o risco cardiovascular ao mesmo tempo.
“A psoríase, mesmo quando se manifesta só na pele, já é uma doença inflamatória sistêmica, não uma condição restrita à superfície do corpo. Essa inflamação persistente é o que explica o maior risco cardiovascular nos quadros moderados a graves, independentemente de a pessoa ter ou não dor nas articulações. Por isso é tão importante reconhecer precocemente os sinais de artrite psoriásica, como dor, inchaço e rigidez nas juntas: até 30% dos pacientes com psoríase podem desenvolvê-la, e o diagnóstico e o tratamento oportunos fazem toda a diferença para preservar a função articular”, explica a reumatologista Dra. Ana Luísa Souza Pedreira (RQE nº 16028).
Tratar bem protege a pele, as juntas e o coração
A boa notícia é que tratar adequadamente a inflamação parece reduzir esse risco. Um estudo publicado em 2025 na revista científica PLOS Medicine, com mais de 25 mil pacientes com psoríase, mostrou que o uso de biológicos (medicamentos também usados no tratamento da artrite psoriásica) está associado a 37,9% menos risco de eventos cardiovasculares em cinco anos, comparado ao tratamento oral. Ainda assim, o acesso a esses tratamentos no Brasil é baixo: apenas 33% dos pacientes com psoríase moderada a grave os utilizam, segundo pesquisa da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e o diagnóstico da artrite psoriásica costuma demorar anos após as primeiras lesões na pele.
“Os tratamentos imunobiológicos revolucionaram o cuidado de quem tem psoríase e artrite psoriásica moderada a grave. Hoje conseguimos um controle muito melhor da inflamação, com melhora das lesões de pele, redução da dor articular e recuperação da capacidade funcional, com impacto real na qualidade de vida do paciente. As evidências mais recentes também apontam uma associação entre esse tratamento e um menor risco cardiovascular, embora ainda não seja possível afirmar uma relação de causa e efeito direta. Por isso, reforço: não vale a pena esperar a dor nas juntas se tornar rotina, nem tratar a psoríase como uma questão só estética, antes de buscar acompanhamento reumatológico”, orienta a médica.
Sobre Dra. Ana Luísa Souza Pedreira
Dra. Ana Luísa Souza Pedreira é médica reumatologista (CRM-BA 25288 | RQE Nº: 16028), doutora pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP), onde também atua como docente. Especialista no diagnóstico e tratamento de doenças reumáticas como artrite reumatoide, artrite psoriásica e espondilite anquilosante, dedica-se a ampliar o acesso de seus pacientes ao diagnóstico precoce e ao acompanhamento multidisciplinar dessas condições.
