Salvador, 1 de novembro de 2026
Editor: Chico Araújo

Professora criou Ara Ketu inconformada com injustiças na periferia

Valter Campanato/Agência Brasil

No Festival Latinidades, artistas destacam impacto social da arte afro

A professora e historiadora baiana Vera Lacerda, de 79 anos, lembra, em detalhes, os sentimentos que fizeram com que ela criasse, em março de 1980, o bloco e também o instituto Ara Ketu, no bairro periférico de Periperi, em Salvador (BA).

Ao lado do primo, Augusto César (que morreu em 2016), a música e o carnaval, que se tornaram famosos, eram apenas parte dos ideais. Ela queria gerar impacto social, conforme compartilhou, na sexta (3), ao lado de outras artistas no Festival Latinidades, em Brasília (DF).

O nome da agremiação homenageia a cidade de Ketu, no Benim. Trata-se de uma das regiões de onde foram traficadas mais pessoas escravizadas para o Brasil.

Vera explica que a motivação para o bloco nasceu do inconformismo com as desigualdades sociais na região do subúrbio ferroviário. A professora de história, mestre em filosofia, descobriu que poderia utilizar a música como instrumento de transformação e inclusão.

“Minha luta era tirar os meninos do tráfico de drogas e da marginalidade. Eu consegui muito”, orgulha-se, em entrevista à Agência Brasil.

Ela cita que mais de três mil jovens já realizaram cursos profissionalizantes tanto da área musical quanto de outras atividades. O bloco ganhou reconhecimento em todo o Brasil e também no exterior.

Mas a professora, que vai completar 80 anos em setembro, diz que o maior dos reconhecimentos é quando recebe ligações de pessoas que passaram pelo bloco e pelo instituto para agradecer pelo trabalho que conseguiram em função dos cursos que realizaram.

Vera já foi agraciada pela Academia Brasileira de Letras com o título do “comendadora” pelo trabalho social que rima com música que extrapolou a Bahia.

Didá, bloco no feminino
A professora Vera Lacerda é inspiração também para a presidente de outro bloco tradicional de Salvador, o Didá, da comunidade do Pelourinho. Trata-se de uma banda e agremiação exclusivamente voltada para mulheres. Débora Souza, de 48 anos, presidente desde 2009, é filha de Antônio Luiz Alves Souza, mais conhecido como Neguinho do Samba, fundador do Didá.

Débora diz que já passaram pelo bloco mais de cinco mil mulheres. “Através do tambor, nós passamos toda a lição. Nossas alegrias, nossos sentimentos e nossas reivindicações.”.

Ela acrescenta que a ideologia principal da agremiação é a garantia da liberdade para todas as mulheres.

“No Bloco, a gente se sente empoderada. Armada com meu tambor, eu me sinto uma rainha.”

Periferia de Brasília
Na mesma mesa de debates do Festival Latinidades, estava a cantora e radialista Denise Oliveira, que atua como produtora da Rádio Nacional (da EBC), nasceu e se criou na região administrativa de São Sebastião (DF), área periférica nos arredores de Brasília.

“Graças a movimentos culturais como o Ara Ketu e o Didá, há transformação efetiva com novas perspectivas para as vidas das pessoas.”

Inclusive a auto identificação como pessoa preta. “Graças à arte, eu pude me encontrar como mulher negra, artista e trabalhadora de cultura desde os meus 15 anos de idade”. Ela destacou que as mulheres sempre estiveram na base da construção de iniciativas culturais como os blocos afros.“Eu cresci em movimento cultural na periferia. Depois virei cantora de samba”. Denise criou também um projeto chamado “Vozes da Diversidade” em que ela entrevistava artistas periféricos do Distrito Federal.

Era um programa independente e voluntário que, inclusive, foi indicado ao prêmio WME da Billboard, em 2024. Trata-se de uma premiação que reconhece histórias de empoderamento e representatividade feminina. “Fui uma das cinco radialistas do país indicada.”

Luiz Claudio Ferreira – Repórter da Agência Brasil

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