Salvador, 27 de outubro de 2026
Editor: Chico Araújo

Radioterapia amplia chances de sucesso no transplante contra leucemia

Técnica utilizada antes do procedimento fortalece o tratamento e contribui para melhores taxas de enxertia da medula óssea

A leucemia é um tipo de câncer que afeta as células do sangue e tem origem na medula óssea, responsável pela produção das células sanguíneas. Em termos simples, é como se a “fábrica” do sangue passasse a trabalhar de forma desorganizada, produzindo células doentes, que não cumprem sua função e ainda ocupam o espaço das células saudáveis. No Brasil, a estimativa é de cerca de 12 mil novos casos por ano no triênio 2026–2028, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA).

A doença pode ser classificada de duas maneiras: pela velocidade com que evolui e pelo tipo de célula atingida. Quando a progressão é rápida, trata-se das leucemias agudas; quando ocorre de forma mais lenta, são as crônicas. Já em relação às células afetadas, podem ser linfoides ou mieloides. “Nas formas agudas, a doença avança rapidamente e exige início imediato do tratamento. Já nas crônicas, a evolução costuma ser mais lenta e, em alguns casos, pode permanecer estável por um período”, explica a hematologista Gabriela Matias, da Oncomed-MT.

Os sintomas iniciais podem ser confundidos com outras condições, como anemia. “Cansaço excessivo, palidez, infecções frequentes, sangramentos e manchas roxas pelo corpo são sinais de alerta”, destaca. O primeiro passo é a realização do hemograma. “É um exame simples e acessível, que já pode indicar alterações importantes. Confirmada a suspeita, o encaminhamento ao hematologista deve ser imediato para diagnóstico definitivo e início do tratamento.”

Segundo a especialista, a rapidez no início da terapia é decisiva, principalmente nas formas agudas da doença. “O tratamento deve ser iniciado o mais rapidamente possível, especialmente nos casos de leucemias agudas, que são mais agressivas.”

A base do tratamento é a quimioterapia e, em pacientes classificados como de alto risco, o transplante de medula óssea pode ser indicado como etapa fundamental para consolidar a remissão.

Radioterapia de corpo inteiro – Se a leucemia desorganiza a “fábrica” do sangue, o transplante representa a chance de reconstruí-la. E, antes que essa nova medula seja implantada, é importante preparar o organismo para recebê-la.

Alguns pacientes passam pela Irradiação de Corpo Inteiro (Total Body Irradiation – TBI), modalidade de radioterapia utilizada como etapa de condicionamento. “A radioterapia funciona como uma preparação do terreno. Precisamos reduzir ao máximo as células doentes, diminuir a chance de rejeição e abrir espaço para que as células transplantadas consigam crescer”, explica o radio-oncologista Antônio Cássio Pellizzon, consultor de radioterapia da Oncomed.

No regime mieloablativo, a técnica atua em três frentes principais: elimina células cancerígenas que possam permanecer em locais de difícil acesso à quimioterapia denominados “santuários”, como o sistema nervoso central e, nos homens, os testículos, promove uma redução controlada da imunidade e elimina as células da própria medula do paciente, permitindo que a nova medula ocupe esse espaço. Já no regime de intensidade reduzida, são utilizadas doses menores de radiação, com foco principal na imunossupressão, para que não haja rejeição no transplante.

“A escolha do regime depende do tipo de leucemia, do risco da doença, da idade e das condições clínicas do paciente. Em casos mais agressivos, optamos por protocolos mieloablativos. Em situações específicas, principalmente quando o paciente não toleraria doses tão altas, indicamos o regime de intensidade reduzida. O objetivo é sempre aumentar as chances de ‘pega’ da medula com segurança”, acrescenta o especialista.

Tecnologia em Mato Grosso – Utilizada há mais de duas décadas e considerada padrão na literatura médica, a técnica evoluiu com o avanço tecnológico. Equipamentos mais modernos, como a Radixact, máquina de radioterapia que deve chegar na Oncomed este ano, permitem maior precisão na aplicação da dose e, em alguns casos, possibilitam irradiar especificamente a medula óssea e os tecidos linfáticos, reduzindo a exposição de outros órgãos e, consequentemente, os efeitos colaterais.

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