Salvador, 18 de maio de 2026
Editor: Chico Araújo

Mulheres devem suspender medicamentos emagrecedores injetáveis antes de tentar engravidar

A obesidade está presente em cerca de 40% das mulheres em idade reprodutiva, segundo dados epidemiológicos recentes. A busca por um peso saudável antes da gestação é recomendada por especialistas, já que a redução do excesso de peso pode diminuir riscos como diabetes gestacional, hipertensão e pré-eclâmpsia.

Nos últimos anos, a nova geração de medicamentos agonistas do receptor GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, abriu caminhos importantes no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Essas chamadas “canetas emagrecedoras”, que contêm substâncias como semaglutida e tirzepatida, demonstram eficácia significativa, especialmente nos primeiros seis meses de uso.

Com a recente quebra de patente da semaglutida em alguns mercados internacionais e a perspectiva de maior concorrência no setor, a tendência é que essas medicações se tornem mais acessíveis nos próximos anos, ampliando ainda mais seu uso entre mulheres em idade fértil. Esse cenário reforça, de forma ainda mais evidente, a necessidade de informação qualificada e acompanhamento médico criterioso, especialmente entre aquelas que têm desejo reprodutivo.

Estudos pré-clínicos em animais demonstraram associação entre o uso dessas medicações e desfechos adversos gestacionais, incluindo potencial efeito teratogênico. Em humanos, os estudos ainda são limitados e não fornecem conclusões definitivas de segurança. Até o momento, não há sinal consistente de aumento de malformações graves após exposição inadvertida no início da gestação, mas os dados são insuficientes para recomendar o uso durante a gravidez. Por isso, a orientação formal é contraindicar essas medicações no período gestacional e indicar contracepção eficaz durante o tratamento.

“É fundamental que mulheres que estejam utilizando essas medicações e desejem engravidar conversem previamente com seu médico”, orienta a Dra. Wendy Delmondes, especialista em Reprodução Humana. “Cada medicação tem um tempo específico de eliminação do organismo. Em geral, recomendamos a suspensão entre quatro e oito semanas antes da tentativa de concepção, para reduzir riscos potenciais ao desenvolvimento embrionário.”

A especialista alerta ainda para um ponto muitas vezes negligenciado: o impacto no planejamento reprodutivo. A perda de peso mais expressiva costuma ocorrer nos primeiros seis meses de uso, somada ao período necessário de washout (tempo para eliminação da droga). Esse intervalo pode postergar a tentativa de gravidez, um fator particularmente relevante para mulheres acima dos 35 anos, fase em que o declínio da fertilidade relacionado à idade se torna mais significativo.

Além disso, a suspensão da medicação exige acompanhamento próximo e individualizado. Existe potencial de reganho rápido de peso, piora de parâmetros cardiometabólicos e ganho excessivo durante a gestação — fatores que também elevam riscos maternos e fetais. Outro aspecto importante é que a redução do apetite e da variedade alimentar durante o uso pode gerar deficiências nutricionais, justamente em um momento em que o organismo precisa estar plenamente preparado para sustentar uma gestação saudável.

“O período pré-concepcional é uma fase de extrema vulnerabilidade e exige vigilância integral”, reforça a médica. “Planejamento é essencial — e, na reprodução, o tempo é um fator biológico que não pode ser ignorado. Segurança e agilidade não são conceitos opostos: precisam caminhar juntos. É possível estruturar estratégias de redução de peso com responsabilidade, sem perder de vista a janela reprodutiva e a saúde materno-fetal.”

O uso dessas medicações no período pré-concepção exige atenção absoluta, orientação especializada e uma abordagem que considere não apenas o peso corporal, mas a fertilidade como um recurso biológico tempo-dependente. Planejar com estratégia é a forma mais segura de alinhar cuidado, saúde e tempo reprodutivo.

*Wendy Delmondes é médica especialista em Reprodução Humana / CRM – 17629 / Ginecologia e Obstetrícia – RQE 23958 / Reprodução Assistida – RQE 23959

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