ISLAMABAD (AP) — Estados Unidos e Irã encerraram neste domingo (12) uma rodada de negociações presenciais sem alcançar um acordo para pôr fim à guerra, lançando incertezas sobre a manutenção de um frágil cessar-fogo de duas semanas.
Autoridades americanas atribuíram o fracasso das conversas à recusa iraniana em assumir um compromisso de abandono do programa nuclear. Já representantes iranianos responsabilizaram os EUA pelo colapso das tratativas, sem detalhar os pontos específicos de divergência.
Nenhuma das partes indicou quais serão os próximos passos após o fim do cessar-fogo, previsto para 22 de abril. Mediadores do Paquistão pediram que o acordo seja mantido. Ambos os lados afirmaram que suas posições permaneceram claras ao longo das negociações e voltaram a culpar o outro pelo impasse, evidenciando a pouca evolução no diálogo.
“Precisamos de um compromisso claro de que eles não buscarão uma arma nuclear nem os meios para obtê-la rapidamente”, afirmou o vice-presidente JD Vance após mais de 20 horas de negociações.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, que liderou a delegação do país, declarou que cabe agora aos Estados Unidos “decidir se podem conquistar nossa confiança”. Ele evitou detalhar os principais pontos de conflito, embora autoridades iranianas tenham mencionado anteriormente divergências em dois ou três temas centrais, criticando o que classificaram como exigências excessivas por parte de Washington.
O Irã nega buscar armas nucleares, mas defende seu direito ao desenvolvimento de um programa nuclear civil. Especialistas apontam que o nível atual de urânio enriquecido no país está tecnicamente próximo do grau militar.
Desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, ao menos 3 mil pessoas morreram no Irã, 2.020 no Líbano, 23 em Israel e mais de uma dezena em países árabes do Golfo. A guerra também provocou danos significativos à infraestrutura em diversos países do Oriente Médio.
O controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz praticamente interrompeu o fluxo de petróleo e gás da região, pressionando os preços globais de energia.
O ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar, afirmou que seu país tentará intermediar uma nova rodada de negociações nos próximos dias. “É imperativo que as partes mantenham o compromisso com o cessar-fogo”, declarou.
O impasse reflete divergências já observadas em negociações anteriores, como as realizadas na Suíça. Apesar de o presidente Donald Trump afirmar que o conflito visa pressionar o Irã a abandonar ambições nucleares, as posições de ambos os lados permanecem praticamente inalteradas após semanas de combates.
Embora não haja confirmação sobre a retomada das conversas, o Irã sinalizou estar aberto ao diálogo, segundo a agência estatal IRNA. “Nunca buscamos a guerra. Mas não aceitaremos perder na negociação o que não foi perdido no campo de batalha”, afirmou o cidadão iraniano Mohammad Bagher Karami.
Disputa pelo Estreito de Ormuz
As negociações foram marcadas por propostas divergentes. O plano iraniano previa garantias para o fim da guerra, além do controle sobre o Estreito de Ormuz e a interrupção de ataques contra seus aliados regionais, incluindo o grupo Hezbollah.
Já a proposta americana incluía mecanismos de monitoramento, reversão do programa nuclear iraniano e a reabertura da rota marítima. O estreito é estratégico: cerca de 20% do petróleo mundial passa por ali diariamente.
Durante as negociações, os EUA afirmaram que destróieres cruzaram a região para operações de desminagem, o que foi negado por autoridades iranianas. “Estamos limpando o estreito. Haver acordo ou não não faz diferença para mim”, disse Trump.
Conflito se intensifica no Líbano
O impasse também amplia as incertezas sobre o conflito no Líbano. Israel manteve ataques após o anúncio do cessar-fogo, alegando que o acordo não se aplica àquele cenário — posição contestada por Irã e Paquistão.
Segundo a imprensa libanesa, um ataque israelense na vila de Maaroub, próxima à cidade de Tiro, deixou seis mortos no domingo. Apesar da redução de bombardeios em Beirute, os ataques no sul do país se intensificaram, acompanhados de uma nova ofensiva terrestre.
Negociações entre Israel e Líbano devem começar na terça-feira (14), em Washington, conforme anunciou o presidente libanês Joseph Aoun. A decisão ocorre mesmo sem relações diplomáticas formais entre os países e já provocou protestos em Beirute.
Israel pressiona para que o governo libanês desarme o Hezbollah, conforme previsto em um cessar-fogo firmado em novembro de 2024 — medida que enfrenta resistência histórica do grupo.
No mesmo dia em que o cessar-fogo com o Irã foi anunciado, Israel bombardeou Beirute, deixando mais de 300 mortos, no episódio mais letal no Líbano desde o início da guerra, segundo autoridades de saúde locais.