Salvador, 7 de agosto de 2026
Editor: Chico Araújo

Diagnóstico precoce muda a rota do câncer de pulmão

Agosto Branco alerta para os riscos do tabagismo e destaca avanços no rastreamento e no tratamento da doença

Durante anos, o câncer de pulmão pode crescer em silêncio. Quando tosse persistente, falta de ar, dor no peito, rouquidão ou sangue no escarro aparecem, a doença pode já estar avançada. É contra esse atraso que o Agosto Branco mobiliza profissionais de saúde e a população, reforçando três medidas capazes de mudar o curso do tumor: não fumar, investigar pessoas com maior risco e iniciar o tratamento o mais cedo possível.

A dimensão do problema ajuda a explicar a urgência. O câncer de pulmão é o mais diagnosticado e o que mais mata no mundo. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 35.380 novos casos anuais de câncer de traqueia, brônquios e pulmão entre 2026 e 2028 — 18.730 em homens e 16.650 em mulheres. Em 2023, a doença provocou 31.237 mortes no país. Na Bahia, a projeção para 2026 é de 1.590 novos diagnósticos, dos quais 840 entre homens e 750 entre mulheres. Somente em Salvador, são esperados 380 casos.

Em 2022, foram registrados quase 2,5 milhões de novos casos e mais de 1,8 milhão de mortes, segundo a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), vinculada à Organização Mundial da Saúde. O tumor respondeu por 12,4% dos diagnósticos e 18,7% das mortes por câncer naquele ano. O tabagismo permanece associado a aproximadamente 85% dos casos.

Rastrear salva – Parar de fumar reduz progressivamente o risco de desenvolver câncer, mas quem abandonou o cigarro continua merecendo atenção. O histórico tabágico, a idade, o tempo transcorrido desde o último cigarro e exposições profissionais ou ambientais devem ser considerados na avaliação individual. Fumo passivo, poluição do ar, amianto, sílica, gases de motores a diesel e algumas doenças pulmonares crônicas também estão entre os fatores associados ao tumor.
Segundo a pneumologista Fernanda Aguiar, coordenadora da medicina respiratória do Hospital Mater Dei Salvador (HMDS), a radiografia convencional não substitui o exame indicado para o rastreamento de pessoas com alto risco. “A principal ferramenta é a tomografia computadorizada de tórax com baixa dose de radiação. Ela consegue identificar nódulos pequenos, antes do surgimento de sintomas e em uma fase na qual as possibilidades de tratamento curativo são maiores”, explica.

Estudos apontam benefícios do rastreamento, especialmente para pessoas de 50 a 80 anos com histórico intenso de tabagismo, equivalente a pelo menos 20 anos-maço — por exemplo, um maço por dia durante 20 anos — que ainda fumam ou deixaram o cigarro há menos de 15 anos.

Cirurgia avança – Quando o tumor está restrito ao pulmão e o paciente possui condições clínicas, a cirurgia pode representar a principal possibilidade de cura. O procedimento busca retirar a lesão com margem de segurança e avaliar os linfonodos, estruturas importantes para determinar se a doença se disseminou. A extensão da retirada depende do tamanho e da localização do câncer, além da reserva respiratória do paciente.

Entre as técnicas minimamente invasivas disponíveis está a cirurgia robótica. De acordo com Pedro Leite, cirurgião torácico do HMDS e diretor do Núcleo de Cirurgia Torácica do Instituto Brasileiro de Cirurgia Robótica (IBCR), a tecnologia amplia a precisão em áreas delicadas do tórax. “A plataforma oferece visão tridimensional ampliada, filtra tremores e permite movimentos muito precisos dos instrumentos. Isso facilita a dissecção ao redor de vasos, brônquios e linfonodos, mantendo os mesmos princípios oncológicos da cirurgia convencional”, afirma.

O benefício não decorre apenas do equipamento e a indicação não se aplica indistintamente a todos os casos. “A escolha depende do estágio, da localização do tumor, das condições clínicas e da avaliação de uma equipe multidisciplinar. Quando bem indicada, a abordagem robótica pode reduzir o trauma cirúrgico, a dor e o tempo de recuperação, favorecendo o retorno mais rápido às atividades e, quando necessário, a continuidade do tratamento oncológico”, acrescenta Leite.

Cigarro cobra – Embora os tratamentos tenham evoluído — com cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo —, a prevenção continua sendo a estratégia de maior alcance. Isso inclui também os dispositivos eletrônicos. Vapes e cigarros eletrônicos não são alternativas inofensivas: podem conter nicotina, substâncias tóxicas e compostos potencialmente cancerígenos, além de favorecer a dependência, especialmente entre jovens.
A campanha também chama atenção para sintomas que não devem ser normalizados. Tosse persistente ou que muda de padrão, escarro com sangue, falta de ar, dor torácica, rouquidão, cansaço e perda de peso sem explicação exigem avaliação médica. “A ausência de sintomas não significa ausência de doença nas pessoas de alto risco. Essa é justamente a razão pela qual o rastreamento adequado pode fazer diferença”, reforça Fernanda Aguiar.

Veja também

operação dia dos pais_ascom codecon 1
Codecon realiza operação do Dia dos Pais e identifica 23 infrações em estabelecimentos
A Diretoria de Ações de Proteção e Defesa do Consumidor (Codecon), vinculada à Secretaria Municipal de...
20231102_125012 (1)
STM determina perda de patente de militar acusado de transmitir HIV
Segundo-tenente ocultou de ex-companheiras que era soropositivo O Superior Tribunal Militar (STM) determinou...
br-319e
Desmatamento na Amazônia cai 36,87% no último ano
Instituto avalia que é possível chegar ao desmatamento zero O desmatamento na Amazônia teve queda de...
flamengo
Quais os clubes que mais vezes se classificaram para as quartas de final da Copa do Brasil
Atual edição terá dois representantes de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, um da Bahia e outro...

Opinião

advs
Eleições na era digital: o uso da Inteligência Artificial nas eleições de 2026