Com número de casos quadruplicado desde os anos 1990, entidade recomenda desde mudanças de estilo de vida até uso de medicamentos e cirurgia bariátrica para casos específicos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, nesta quarta-feira, suas primeiras diretrizes globais dedicadas ao controle e tratamento da obesidade infantil e juvenil. A publicação responde ao avanço expressivo da doença crônica entre jovens: desde a década de 1990, o percentual de crianças e adolescentes diagnosticados quadruplicou, atingindo hoje cerca de 8% dessa população no mundo.
As recomendações médicas variam conforme a faixa etária do paciente e a severidade do quadro:
De 0 a 9 anos: A orientação principal prioriza intervenções estruturadas e multidisciplinares, focadas em reeducação alimentar, prática diária de atividade física e apoio comportamental. O uso de ferramentas digitais de saúde também é incentivado, desde que sob supervisão direta de pais ou responsáveis.
De 10 a 19 anos: O plano de cuidado pode evoluir para o uso de medicamentos prescritos — como os análogos do hormônio GLP-1 (conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”), inibidores de absorção de gordura intestinal e reguladores glicêmicos.
A OMS enfatiza, contudo, que tratamentos farmacológicos só devem ser considerados quando programas supervisionados de mudança no estilo de vida não alcançarem os resultados esperados. A cirurgia bariátrica também passa a integrar o protocolo para adolescentes, mas sob critérios ainda mais rigorosos e restritos a quadros de obesidade grave.
Lacunas e incertezas sobre o GLP-1
Embora os análogos do hormônio GLP-1 estejam contemplados na classe geral de medicamentos para redução de peso, a entidade ressalta que restam dúvidas científicas importantes sobre o uso dessa categoria específica na população jovem. Questões como a duração ideal do tratamento, os efeitos colaterais de longo prazo e a manutenção das doses após a perda de peso continuam sob monitoramento e análise por parte dos comitês da OMS.
Além do consultório: ações estruturais e prevenção
Durante a apresentação dos dados à imprensa, especialistas da entidade destacaram que a abordagem clínica, isoladamente, não resolverá o avanço da enfermidade. Estimativas da própria OMS apontam que mais de 170 milhões de jovens de 5 a 19 anos viviam com obesidade já em 2014 — dos quais 70 milhões tinham entre 5 e 9 anos.
“Crianças e adolescentes que vivem com obesidade precisam de acesso a um cuidado eficaz, baseado em evidências e centrado na pessoa. Mas os países também precisam criar ambientes que tornem a alimentação saudável e a atividade física acessíveis e financeiramente viáveis, garantindo um acolhimento livre de estigma e discriminação”
— Luz Maria de Rejil, diretora do Departamento de Nutrição e Segurança Alimentar da OMS.
Completando o diagnóstico, Laurence Grummer-Strawn, chefe da Unidade de Nutrição e Segurança Alimentar da instituição, lembrou que enquanto o novo documento foca no tratamento de quem já convive com a doença, a redução global dos casos exige políticas públicas integradas. Entre as estratégias propostas estão a reformulação da alimentação nas escolas, a restrição ao marketing de produtos ultraprocessados e a aplicação de taxas sobre bebidas e alimentos com alto teor de açúcar.
