Salvador, 20 de agosto de 2026
Editor: Chico Araújo

Muito além do pulmão: estudos ampliam evidências sobre relação entre poluição do ar e câncer de mama

Quando se fala em poluição do ar, é quase automático pensar em problemas respiratórios e câncer de pulmão. Mas a ciência tem ampliado esse olhar. Nos últimos anos, pesquisas passaram a investigar de que forma a exposição prolongada aos poluentes atmosféricos também pode influenciar o risco de desenvolver câncer de mama.

O assunto ganha ainda mais relevância durante o Agosto Branco, mês de conscientização sobre o câncer de pulmão. Embora a relação entre a poluição e os tumores pulmonares já esteja consolidada, estudos recentes reforçam que os impactos da má qualidade do ar podem atingir diferentes órgãos, tornando os fatores ambientais parte importante da discussão sobre prevenção do câncer.

A poluição do ar é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade. Estima-se que 99% da população mundial viva em locais onde a qualidade do ar está acima dos níveis considerados seguros. Entre os principais poluentes estão o material particulado fino (PM2,5) e o dióxido de nitrogênio (NO₂), emitidos principalmente pelo tráfego de veículos, atividades industriais e queimadas.

Segundo a oncologista Ive Lima, do Grupo HERA, a medicina passou a compreender que os efeitos da poluição vão muito além do sistema respiratório.

“Durante muito tempo, a poluição foi associada quase exclusivamente ao câncer de pulmão. Hoje sabemos que ela provoca alterações em todo o organismo. Esses poluentes podem causar inflamação crônica, estresse oxidativo, danos ao DNA e até interferir na ação de hormônios importantes, como o estrogênio, que tem relação direta com o desenvolvimento do câncer de mama.”

Esse entendimento ganhou força com o avanço de grandes estudos epidemiológicos. Uma das pesquisas mais importantes sobre o tema acompanhou mais de 58 mil mulheres durante quase 20 anos e identificou maior incidência de câncer de mama entre aquelas expostas aos níveis mais elevados de material particulado fino (PM2,5). Outros estudos vêm encontrando resultados semelhantes, reforçando que a poluição do ar pode ser mais um fator envolvido no desenvolvimento da doença.

Ainda assim, a especialista faz um alerta para que essas informações sejam interpretadas com equilíbrio.

“É importante entender que estamos falando de aumento de risco, não de uma relação de causa e efeito. Uma mulher não vai desenvolver câncer de mama apenas porque mora em uma cidade mais poluída. O que os estudos mostram é que essa exposição contínua pode somar mais um fator de risco ao longo da vida.”

Diferentemente de hábitos como fumar, consumir álcool ou praticar atividade física, a qualidade do ar é um fator que não depende apenas das escolhas individuais.

“Nós podemos escolher não fumar ou manter uma alimentação saudável, mas não escolhemos o ar que respiramos. Por isso, a discussão sobre poluição precisa deixar de ser apenas ambiental e passar a ser também uma pauta de saúde pública.”

Embora não seja possível eliminar completamente essa exposição, algumas medidas ajudam a reduzi-la, como acompanhar os índices de qualidade do ar, evitar atividades físicas ao ar livre em dias mais poluídos, preferir trajetos com menor fluxo de veículos e reduzir o contato com fumaça de queimadas. Para Ive Lima, no entanto, as mudanças mais importantes dependem de políticas públicas capazes de melhorar a qualidade do ar nas cidades.

Para o Grupo HERA, levar esse debate à população significa ampliar a forma como se fala em prevenção.

“Continuamos defendendo tudo aquilo que já sabemos que reduz o risco de câncer: manter o peso adequado, praticar atividade física, evitar o tabagismo, consumir menos álcool e realizar os exames recomendados. Mas a ciência mostra que o ambiente onde vivemos também influencia nossa saúde. Falar sobre qualidade do ar é, hoje, falar sobre prevenção”, conclui Ive Lima.

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